Política & Justiça

Sérgio Moro: vem aí a candidatura antiLula

No próximo dia 10, Podemos filiará o ex-juiz, que tem interesse em assumir protagonismo na terceira via. Mas quais são os prós e contras do magistrado que brilhou na Lava Jato e terminou como suspeito em um julgamento de 7 a 4 no Supremo? Pré-candidato deve buscar espaço como o antiLula

diario da manha

O jogo eleitoral vai ganhar um novo protagonista paras as eleições de 2022. O ex-juiz Sérgio Moro, ao se filiar no Podemos, passará a ser considerado pré-candidato a presidente da República em um cenário que parece querer abrir vaga para uma terceira via.
O grupo do centro ( diga-se, centro diante do isolamento de Luís Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro na liderança) ganhará novos desdobramentos nas próximas semanas.
As prévias do PSDB e o reposicionamento de legendas coadjuvantes, como Cidadania e PSD, podem firmar mais o cenário. Nome cogitado no passado, o apresentador Luciano Huck já está fora dos debates, mas não deve apoiar Moro, por questões contratuais com a rede Globo.
A expectativa é de que seja iniciada uma movimentação em torno de Moro, o melhor nome nas pesquisas, ao lado de Ciro Gomes, neste grupo afastado da polarização.
A candidatura de Sérgio Moro tem potencial de crescimento entre os antigos bolsonaristas, que já se desgarraram do presidente, após as falhas de gestão da imagem do presidente.
Existe também um grupo aberto a nomes dentro das legendas, caso do União Brasil, a superlegenda que nascerá da fusão entre DEM e PSL. Esse grupo espera poder apoiar Moro em 2022.
Mas quais seriam os “prós e contras” do juiz da Lava Jato, inegável reflexão que será espelhada na cabeça do eleitor brasileiro? É a grande dúvida de projetistas da campanha, que vislumbram três batalhas cronometradas para levá-lo ao Palácio do Planalto: 1) a batalha da afirmação da candidatura através de uma saída de explosão com número razoável de correligionários; 2) A batalha da atração, que terá que mostrar Moro além dos eleitores centristas insatisfeitos com o bolsonarismo. E, por fim, a terceira e grande batalha: preparar Moro para um debate público que costuma ser desafiador, diante das habilidades, principalmente, de Ciro Gomes e Lula, que conseguem desconstruir candidaturas com atuações individuais e de grupos nas redes.
Passados os rumores em torno do comportamento do ex-juiz na Lavajato, inclusive com uma suspeita decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), resta ao ex-juiz tentar montar uma estratégia de consolidação de candidatura. Ontem, os sinais de que a população procura por Moro aumentou: o nome do ex-magistrado tem liderado as listas de trends em vários motores de busca e redes sociais. A população procura links para conhecer melhor o ex-juiz que também foi ministro de Bolsonaro até 2020.
A reportagem do DM mostra esta primeira fase da pré-campanha do ex-juiz: os prós e contras de Sérgio Moro, momento essencial para que ele consiga – nos bastidores – convencer de que é um nome viável e na esfera pública representar melhor suas qualidades e esconder seus defeitos. No caso, muitas vezes, o contra é sinônimo de predicado, já que mostra um perfil diferente do esperado, mas que pode ser o desejado do eleitorado.

Os prós de Sérgio Moro

1 – Nome central anticorrupção

O ex-ministro da Justiça foi o magistrado central da Operação Lava jato, conjunto de investigações e decisões judiciais protagonizadas pela Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça Federal que cumpriu mais de mil mandados e apurou um megaescândalo de lavagem de dinheiro que movimentou bilhões de reais. É o momento da história do Brasil em que mais políticos foram presos. Sérgio Moro foi determinante para que a operação prosseguisse. Teve início em 2014 e foi finalizada em 2021. Bolsonaro disse que “acabou” com a operação porque o governo ‘não tem mais corrupção’.

2 – Currículo profissional de respeito

O juiz Sérgio Moro tem um currículo de respeito no direito brasileiro. É mestre e doutor, com formação e pesquisa em crimes financeiros, tendo sido orientado por um dos principais administrativistas do país, o advogado Marçal Justen Filho. Foi juiz auxiliar no STF durante o escândalo do Mensalão. Foi juiz federal e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

3 – Saiu a tempo do governo Bolsonaro

Sua passagem como ministro da Justiça não comprometeu a constituição formal de sua reputação de jurista. Em apenas um momento, chegou a defender teses despropositadas de Jair Bolsonaro, como a excludente de ilicitude para policiais. A proposta foi rejeitada na Câmara dos Deputados e atendia mais ao bolsonarismo em busca de diálogo com a classe dos policiais. Moro saiu do cargo em uma coletiva extensa, em que alegou tentativa do presidente aparelhar a Polícia Federal.

4 – O verdadeiro candidato antiLula

Sérgio Moro construiu uma reputação de herói brasileiro nos anos iniciais da Lava Jato [o que manteve intacto em parcela do eleitorado sua fama de preparado para combater a corrupção no país – uma das pautas que volta e meia figura como central nas eleições], mas o trabalho realizado pelo PT e demais adversários da pauta da moralização pública para desconstruir a imagem dele, todavia, surtiu efeito. Resta parcela menor que votaria de forma espontânea nele, na casa dos 8% a 9%. É o mínimo para levantar a candidatura e forçá-la, ainda que não consiga a união com os demais integrantes da terceira via. Ele tenta atualizar a imagem fracassada de herói para a de verdadeiro antiLula.

5 – Candidatura sem viés ideológico

Outro ponto favorável ao pré-candidato é seu passivo: o grupo ao seu redor é pequeno e sua candidatura tem pouca relação com a política tradicional. Sérgio Moro não está especificamente envolvido em nenhum grupo político, nem ao certo sabe-se sua coloração ideológica e o que entende e pretende para o país. Apesar do apoio que recebe de defensores do centro e direita, é um nome que se expõe pouco ideologicamente. Caso se situe na direita, aparece como um nome civilizado, com respeito às minorias e neutralidade em relação às políticas públicas afirmativas.

Contras

1 – Juiz suspeito

O Supremo Tribunal Federal (STF) julgou que Sérgio Moro foi parcial no julgamento contra Lula. Mas a votação foi equilibrada: 7×4. Politizada, a decisão não constitui necessariamente um desabono contra Moro, já que ocorreu uso suspeito de provas que em situações normais são consideradas ilegais. Mas é inegável que o juiz, no universo do direito, é tido como um caso de ‘quadro mental paranóico’, em que o juiz se alinha a determinada corrente no curso do julgamento. Tal atitude é lamentável para os defensores do direito legalista.

2 – Grupo político frágil

Sérgio Moro não tem militância treinada e acostumada a uma competição tão complexa quanto às eleições presidenciais. Seu partido, caso se filie ao Podemos, é de pequena estatura em horário eleitoral e fundo partidário, com dez deputados federais e nove senadores. Sua candidatura precisa de robustez e apoio de outras legendas de centro, caso contrário depende de um movimento hoje inexistente e espontâneo em torno de seu nome.

3 – Ingenuidade política ou malícia excessiva

Nos bastidores ainda hoje é comum o eleitor fazer a seguinte pergunta: “O que levou o juiz Sérgio Moro a abandonar a magistratura e ingressar em uma aventura como ministro de Jair Bolsonaro?”. Para muitos, ele não tem uma terceira alternativa: ou foi ingenuidade/atrofia política ou excessiva malícia, já que estaria disposto a se integrar e um grupo heterogêneo que nitidamente desapontou parcela do eleitorado – e que não revelava outro comportamento, a julgar pelos analistas que anteciparam os erros da atual gestão. Caso seja mesmo ingênuo, a postura de Moro assusta, já que os bastidores políticos, os diálogos com o histórico centrão e a relação com as esferas públicas exigem extremo pragmatismo.

4 – Discurso vulnerável

Sérgio Moro não é um bom debatedor e carece de experiências com pautas mais acalorados. Tem um discurso vulnerável no volume – e não no conteúdo. Suas características físicas tendem a atrapalhar: a voz fina e o comportamento manso não são os mais comuns escolhidos pelo eleitorado, que se concentra em tonalidades assertivas e altas (caso de Fernando Collor de Melo e Lula). Para ser ouvido terá que aumentar o volume de voz e contar com a paciência da plateia. O discurso moderado pode tornar-se tendência, todavia, favorável à sua imagem.

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