“A Alemanha poderá ser o ‘próximo alvo”
Redação DM
Publicado em 19 de novembro de 2015 às 00:18 | Atualizado há 1 ano- Daniel Aarão Reis afirma que excluídos constituem viveiro para mártires do terrorismo
- Historiador diz que a truculência é marca europeia no Oriente Médio nos últimos anos
- Alcorão, como a Bíblia, suscita múltiplas interpretações, observa pesquisador brasileiro
- Ações terroristas em Paris denotam choque de civilizações, insiste escritor celebrado
Paris é uma espécie de Babilônia de todos os pecados. O que para os fundamentalistas deve merecer um castigo. Assim o doutor em História da Universidade Federal Fluminense [UFF] Daniel Aarão Reis Filho analisa o terror dos atentados do Estado Islâmico na França, na sexta-feira 13 passada.
Cáustico, o pesquisador lembra que a França integrou coalizão liderada pelos Estados Unidos contra o Afeganistão, disparou na Síria, invadiu o Mali e mantém, nos guetos da Cidade Luz, os descendentes e muçulmanos, o que vira um terreno mais do que fértil para recrutamento de radicais islâmicos.
– Entre os 5 milhões de muçulmanos que vivem na França, há um grande número de jovens imensamente frustrados pela absoluta falta de perspectivas de ascenso social nesta sociedade. Eles constituem um viveiro por excelência onde se recrutam os futuros “mártires” do terrorismo fundamentalista.
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Diário da Manhã – Em um ano, dois atentados espetaculares: por que a França?
Daniel Aarão Reis Filho – A França é um dos grandes países que tomam parte na coalizão, liderada pelos EUA, que ataca o Estado Islâmico e os fundamentalistas islâmicos em geral (talibãs, Al-Quaeda). A Inglaterra, outra parceira, também já foi alcançada. É possível que a Alemanha também o seja. Além disso, Paris reveste-se de uma importância especial. Aos olhos severamente moralistas dos fundamentalistas, a cidade-luz é uma espécie de “Babilônia” de todos os pecados, a merecer um “castigo”. Um outro aspecto mereceria ser lembrado: entre os 5 milhões de muçulmanos que vivem na França, há um grande número de jovens imensamente frustrados pela absoluta falta de perspectivas de ascenso social nesta sociedade. Eles constituem um viveiro por excelência onde se recrutam os futuros “mártires” do terrorismo fundamentalista.
DM – Qual o elo entre o massacre no Charlie Hebdo e o atentado de sexta-feira?
Daniel Aarão Reis Filho – Há vários elos. Desde concepções implícitas nas ações até as formas adotadas para realizar estas mesmas ações. O mais importante elo, porém, é a perspectiva de produzir um “estado de choque”que permita a criação de uma polarização “cristãos X muçulmanos” no contexto de estados “securitários”. O que mais interessa aos fundamentalistas é criar um clima polarizado de “guerra de civilizações”. Nesta armadilha não devem cair as forças progressistas existentes na Europa e no mundo.
DM – A França integrou a coalizão liderada pelos EUA que atacou o Afeganistão, atuou na Síria e investiu no Mali. O ataque seria uma resposta a essas ações?
Daniel Aarão Reis Filho – Sem dúvida, os ataques a Paris aparecem à luz desta chave. Mas se trata de uma chave subordinada a uma outra, decisiva, a do “choque de civilizações”. Na análise deste enfrentamento, é preciso evitar o jogo de equivalências que reduz tudo à ideia de “dois estados que se atacam mutuamente”. Não é possível comparar uma sociedade democrática, marcada embora por lacunas e imperfeições, com um Estado dominado pelo reacionarismo, pela truculência e pela intolerância. Observe-se, de passagem, que o Estado islâmico, desde que passou a existir, tem matado muito mais árabes e muçulmanos do que “ocidentais”(aliás, entre os “ocidentais” mortos em Paris, havia não poucos muçulmanos…). Feita a ressalva, também não é lícito imaginar a “democracia francesa” como um todo sem falhas e sem contradições, eis que se trata de uma sociedade atravessada por conflitos políticos e sociais de grande intensidade.
DM – Karl Marx diz que o passado oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. O passado colonial da França remonta à crise de novembro de 2015?
Daniel Aarão Reis Filho – A verdade é que os Estados europeus têm atuado na área do chamado Oriente Médio com muita truculência, desde os tempos coloniais. Abriram, assim, um vasto campo de ressentimentos e frustrações, semeando para a colheita, agora, dos fundamentalistas islâmicos. Preocupa-me a histeria de certos círculos e a ideia de reagir com bombas aos ataques terroristas a Paris. É velho o bordão e não custa reiterá-lo: “com bombas não se vencem ideias”.
DM – Estatísticas apontam que 7,5% da população da França são muçulmanos. Um terreno fértil para o recrutamento dos jihadistas?
Daniel Aarão Reis Filho – Já comentamos o fato, evidenciado e discutido por muitos estudiosos: a frustração de jovens muçulmanos na França, sobretudo nos presídios, é enorme. Eles constituem o principal viveiro de recrutamento para as organizações terroristas.
DM – Qual a leitura fazem os que interpretam de forma radical o alcorão?
Daniel Aarão Reis Filho – O Alcorão, como todos os livros sagrados, suscitam várias interpretações. A Inquisição e São Francisco de Assis inspiraram-se nos ensinamentos de Jesus Cristo. Católicos e Protestantes fartaram-se de se matar e liam os mesmos livros sagrados. O mesmo se verifica entre os islâmicos – sunitas e xiitas já se mataram e continuam se matando, e todos se inspiram nos ensinamentos do Alcorão. Quanto aos atos terroristas em Paris, há imãs que os justificam e há imãs que os condenam, e todos lêem o mesmo Livro Sagrado. Não nos esqueçamos: os livros sagrados são construções humanas. Suscitam compaixão e ira. Podem ser lidos para fazer o Bem e para praticar o Mal.
DM – O terrorismo dos socialistas agrários da Rússia do século 19 inaugurou a era do terror na Europa?
Daniel Aarão Reis Filho – O que as ações terroristas em Paris suscitam não é apenas um “revival” do terrorismo, uma forma de luta, mas a proposta do “choque das civilizações”. É nesta segunda chave que mora o perigo.
DM – Existe identidade entre Baader-Meinhoff, Brigadas Vermelhas, IRA e ETA com o Estado Islâmico?
Daniel Aarão Reis Filho – Nenhuma identidade. Adotam, eventualmente, formas de luta comuns – o terrorismo urbano. Mas suas concepções e propostas são completamente e radicalmente diferentes.
DM – Como caracterizar o EI?
Daniel Aarão Reis Filho – Trata-se de um Estado reacionário no sentido próprio da palavra, pois quer fazer ressurgir antigas concepções de organização da sociedade, envolvidas num pensamento retrógrado e essencialmente intolerante. Deve ser derrotado, mas não o será por bombas, mas por outras ideias e pela criação de uma atmosfera de prosperidade e de paz.
DM – Os terroristas sempre têm como alvo a população civil?
Daniel Aarão Reis Filho – O que caracteriza a ação terrorista não é a violência, mas a indiscriminação do alvo. Toda ação terrorista é violenta, mas nem toda ação violenta é terrorista. É terrorista a ação que não discrimina alvo e ela pode ser resultado de pequenos grupos ou organizações ou de Estados politicamente organizados.
DM – O islamismo é uma ameaça à laicidade francesa?
Daniel Aarão Reis Filho – Podem conviver e têm convivido juntos. Não há antagonismo entre as religiões, qualquer religião, e o Estado laico.
DM – Por que o ódio à liberdade na França dos terroristas?
Daniel Aarão Reis Filho – Os terroristas vinculados ao chamado fundamentalismo islâmico têm aversão ao mundo moderno e a tudo que se associa à modernidade. Eles usam máquinas modernas, da internet às metralhadoras, e podem até usar a bomba atômica, se, um dia, a detiverem, mas sempre num registro instrumental. De modo geral, detestam a emancipação do indivíduo, a razão crítica, o hedonismo, tesouros da modernidade.
DM – Qual a culpa dos EUA – pós-Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia e Bi Laden – nos atentados da última sexta-feira?
Daniel Aarão Reis Filho – Não falo em culpa, mas em responsabilidade. A responsabilidade dos EUA – e dos demais estados europeus – radica no fato de que têm tratado a contradição com os chamados fundamentalistas apenas com bombas. Ideias se combatem com outras ideias, e não com bombas. Se continuarem tratando a questão apenas com bombas, tenderemos a viver num perpétuo inferno.
DM – O mundo ocidental corre riscos?
Daniel Aarão Reis Filho – Nem o Estado islâmico, nem nenhuma organização terrorista têm forças para destruir as sociedades ditas ocidentais. Pelo menos, por enquanto. O maior risco, no momento, é a submissão à histeria, às propostas “securitárias”, à ideia do “choque de civilizações”.
DM – A crise dos imigrantes terá novos desdobramentos?
Daniel Aarão Reis Filho – As ações terroristas açulam a xenofobia, a intolerância e os fascismos redivivos na Europa. Se estas forças predominarem, os imigrantes terão vida dura.
DM – É possível que novos ataques ocorram?
Daniel Aarão Reis Filho – Sem dúvida. Os especialistas no assunto já anunciavam a possibilidade deste tipo de ações. Elas tenderão a continuar acontecendo enquanto a única resposta forem bombas e mais bombas.
Perfil

Nome: Daniel Aarão Reis Filho
Idade: 69 anos
Formação: Doutor em História
Instituição de ensino: Universidade Federal Fluminense