“A crise não chegou aqui”, critica deputado que é contra reajuste do Judiciário
Redação DM
Publicado em 10 de novembro de 2016 às 02:09 | Atualizado há 10 anosO deputado Nelson Marquezan Júnior (PSDB) foi eleito prefeito de Porto Alegre nestas eleições. Ele é filho de Nelson Marquezan, da Arena, que foi líder do governo ditatorial do general João Figueiredo (1979-1985) na Câmara dos Deputados, e um dos votos contrários à Emenda das Diretas Já.
Assim como o pai teve apoio dos golpistas da ditadura, o filho, Nelson Marquezan Júnior, tem o apoio dos golpistas do MBL (Movimento Brasil Livre). Talvez, sob a nova responsabilidade que assume a partir de janeiro, como prefeito eleito de Porto Alegre, Marquezan Jr. fez um duro discurso contra o aumento dos juízes, promotores e outros setores da elite da burocracia estatal. Disse que tem juiz e promotor ganhando R$ 150 mil a R$ 200 mil e que até se arrepende de ter votado pelo impeachment da presidente Dilma Roussef (PT-MG)
Pauta-Bomba
A chamada “pauta-bomba” foi usada para desestabilizar o governo da presidente Dilma e está causando problemas para o governo interventor de Michel Temer (PMDB-SP). A proposta de aumento dos juízes e promotores está agitando a Câmara dos Deputados em Brasília desde o ano passado e foi negociada desde 2015 pelo ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), como parte da negociação para aprovação do impeachment de Dilma. A proposta fixa reajuste dos servidores do Judiciário Federal em 41% dos seus vencimentos, que deve resultar num impacto de R$ 1,4 bilhão só este ano, mas que está previsto no Orçamento Geral da União (OGU).
Conforme o acordo feito anteriormente entre o Ministério do Planejamento e representantes do Judiciário, o percentual de 41% substitui o que vinha sendo reivindicado, que era de 78%. Ficou acertado, então, que por essa nova proposta os servidores terão reajustes de 16,5% e 41,7%, sendo que os maiores percentuais serão pagos aos que estão há mais anos na carreira e não possuem incorporações de salários (recebem as menores remunerações).
Caiu a ficha?
O deputado Nelson Marchezan Júnior (PSDB-RS) discursou pela desaprovação da pauta. Ele criticou a urgência na votação de aumento de salários tão altos, enquanto boa parte da população brasileira se encontra desempregada. O deputado questionou o uso da palavra Justiça durante os discursos que pediam a aprovação da pauta, além de instigar os colegas a refletirem sobre as prioridades do país.
Leia a íntegra do discurso do deputado Nelson Marchezan Júnior (PSDB-RS)
“Caros colegas, hoje eu quase me arrependo de ter votado sim no impeachment, porque acho que V.Exas. não perceberam que nós não chegamos ao fundo do poço. Não chegamos ao fundo do poço porque o salário de V.Exas. está em dia, porque o salário dos milhares de servidores desta Casa está em dia. O salário do Judiciário está em dia. Os salários do Ministério Público estão todos em dia. O salário dos nossos vizinhos aqui do Tribunal de Contas da União estão todos em dia. O salário de juízes e promotores de 150 mil, 200 mil está em dia.
Realmente, o setor público brasileiro não abriu os olhos para a crise em que nós estamos. A crise não chegou aqui. E para nós, os marajás do serviço público, os salários mais altos do serviço público, a crise não chegou.
Ninguém aqui se deu conta da crise. Ninguém aqui se deu conta das 200 mil empresas fechadas no Brasil. Ninguém aqui anda na rua e vê o número de zumbis andando de madrugada, porque estão perdendo suas casas, perdendo sua fonte de renda. Ninguém se deu conta de nada. Os senhores vivem onde? Os senhores são alienígenas ou alienados?
Eu hoje quase me arrependo. Não fosse esse Governo tão ruim e tão criminoso, eu estaria arrependido de haver votado a favor do impeachment neste momento, porque, efetivamente, a crise não chegou à vida dos senhores, nem daqueles que cercam os senhores e os influenciam o voto.
O povo não influencia o voto de V.Exas. Quem influencia são os capas-pretas que vêm aqui, e não estão aqui representando o Judiciário, não estão aqui representando a instituição Ministério Público. Eles estão aqui representando o seu bolso, única e exclusivamente. E épara esses que alguns aqui, por medo e por covardia, votam a favor.
Esses os senhores defendem, esses os senhores temem. Talvez os seus eleitores, não, porque muitos aqui, com acordos espúrios, compram os seus votos. Eu vi aqui Parlamentares usarem a palavra justiça. V.Exas. não tiveram o mínimo de educação e não estudaram o que significa a palavra justiça.
Que justiça é essa que aumenta o salário daqueles que têm os empregos garantidos e que têm os maiores salários da vida brasileira? Os maiores salários do povo brasileiro estão aqui representados, e V.Exas. estão dizendo que esses salários são urgentes debater, que não precisam passar pelas Comissões, como todos os outros salários de qualquer servidor público Federal? Justiça. Não usem essa palavra. Aliás, alguns de vocês indignam essa palavra quando a usampara defender este tema: aumento dos servidores do Judiciário e do Ministério Público neste momento.
V.Exas. sabem que, ao dizerem sim, aqui, ou são totalmente ignorantes com relação àestrutura Federal e financeira, ou fingem que não sabem. Não tem como dizer sim para todos. V.Exas. estão dizendo sim aqui para aqueles que têm o maior pedaço do orçamento federal no seu bolso, de forma individual. Isso quer dizer que V.Exas. estão dizendo não. Não, não é urgente a situação daqueles que ganham menos na estrutura pública federal. Não, não é urgente a questão do desemprego. Não, não é urgente a falta de estrutura na saúde, na segurança, na educação.
Chamaram-me de demagogo. Demagogo é quem pega o microfone para dizer sim para todos. É impossível dizer sim para todos. E, de novo, a escolha deste Plenário é dizer sim para os que menos precisam neste momento. Isso não pode ser chamado de justiça.
Ninguém aqui está desmerecendo nenhuma carreira. O fato aqui é que V.Exas. estão dando importância financeira para uma carreira que não precisa de urgência nem de atenção de V.Exas. agora. Este é um momento triste.
Tenho certeza de que aqueles milhões de brasileiros que foram às ruas para motivar V.Exas. a dizer sim pelo impeachment e aqueles que foram às ruas para dizer não ao impeachment estão contra esses projetos para os quais V.Exas. estão dizendo sim hoje. Todos esses milhões, dos dois lados, diriam não.
V.Exas. – já que virou mania nacional – vocês estão cuspindo na cara do brasileiros.”