“A esquerda brasileira sempre sonhou com uma ‘boa burguesia’
Redação DM
Publicado em 18 de setembro de 2016 às 01:00 | Atualizado há 1 ano- Por que gritamos golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil sai pela Editora Boitempo
- A Radiografia do Golpe – Entenda como e porque você foi enganado é de autoria do sociólogo Jessé Souza
- Com prefácio de Luiz Inácio Lula da Silva e entrevista de Dilma Rousseff, chega Golpe 16, Edições Forum
- Jornal argentino Página 12 lança Golpe no Brasil – Geneaologia de uma Farsa, com textos de Glenn Greenwald

– Moralista, conservadora e supostamente portadora do bem, a direita, no Brasil, cansara de disputar e perder eleições democráticas, com as oito consecutivas, no primeiro e segundo turnos, de 2002, 2006, 2010 e 2014, e apelou para o golpe.
Essa é a análise de Jessé Souza, doutor em Sociologia pela Universidade de Heidelberg, Alemanha, e que fez pós-doutorado, nos EUA, em Psicanálise e Filosofia. Ele é do Departamento de Ciências Políticas da Universidade Federal Fluminense e ex-presidente do IPEA [2015 e 2016].
O sociólogo afirma em A Radiografia do Golpe – Entenda como e porque você foi enganado, Editora Leya, de agosto de 2016, que, sem o partido das elites, os grandes conglomerados de comunicação, não teria se formado o clima insurreicional que culminou com o 31 de agosto.
– A mídia, imprensa manipuladora, cria uma base social conservadora, de extrema-direita, para o golpe. O seu combate à corrupção é pornograficamente seletivo. Ele persegue a direita e blinda a direita. Um dos golpes de Estado mais torpes da História do Brasil.
A elite do dinheiro é a mandante do golpe, explica. O autor quer articular e tornar compreensível a complexa rede de interesses impessoais, como no teatro de marionetes, prende os fios que permitem criar o drama e se contrapor à leitura dominante.
– Uma interpretação novelizada da crise!
O presente não se autoexplica sem o passado, a sua gênese, informa. O golpe contra a presidente da República eleita em 26 de outubro de 2014, Dilma Rousseff, é uma fraude bem preparada dos donos do dinheiro, na verdade, os reais donos do poder, registra.
– Dilma Rousseff, que jamais havia sido acusada de corrupção, torna-se a sua vítima.
Não custa lembrar: todos os golpes de Estado, ocorridos no Brasil, aponta Jessé Souza, tiveram a corrupção como mote. Assim foi com Getúlio Vargas, acuado pelas denúncias de Carlos Lacerda e de O Globo, de Roberto Marinho, o de 1964, com a queda de Jango, e o de 2016.
– A elite do dinheiro é o sistema financeiro.
Os grandes conglomerados de comunicação do País seriam sócios na rapina executada pela elite do dinheiro sobre o bolso de todos, pontua. A História de guardiã da moralidade pública foi montada para os tolos, ataca. A mídia utilizaria como arma a chantagem, denuncia.
– A direita que se assume e sai do armário é a novidade do golpe.
Jessé Souza vê suposto partidarismo da Operação Lava-Jato, impulsionada pelo Ministério Público Federal, Polícia Federal e o juiz federal de Curitiba [PR], Sérgio Moro. Com a estratégia de criminalização das esquerdas no Brasil, define, no livro, o sociólogo e advogado.
– Os golpes nunca foram contra a corrupção!
Ele avalia que a elite que manda é a do dinheiro, que compra todas as demais frações da burguesia. O capitalismo moderno estabelece a esfera econômica como se ela fosse supostamente fora do peso de ter de se justificar moralmente, frisa. É o vale tudo, atira.
– O imaginário social do capitalismo é tido como legítimo. O mercado é sacralizado. O Estado, demonizado.
O escritor, que já publicou também ‘A Tolice da Inteligência Brasileira’, ironiza a versão espalhada por mídia e o aparelho jurídico e policial do Estado estariam comprometidos com a limpeza moral do País. Não com encher mais ainda os próprios bolsos, alfineta.
– Assim como o bolso também dos endinheirados! Uma elite que vampiriza a sociedade.
Crítico, Jessé Souza ataca o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, autor de ‘Raízes do Brasil’, que teria criado a “sociologia oficial” do vira-latas brasileiro. Uma visão que tornou-se dominante e que colonizou também a esquerda tupiniquim, fuzila o ‘enfant terrible’.
– A quem serve a demonização do Estado?
O Poder Judiciário, sublinha o cientista político, funciona como um partido corporativo para manter as suas regalias e privilégios.
O pesquisador afirma que a instituição básica da história brasileira é a escravidão, que não existia em Portugal. Ele mostra que a elite do dinheiro no Brasil não possui projeto de País, quer assaltar o Estado Nacional e privatizar as suas riquezas materiais e imateriais.
– A esquerda brasileira sempre sonhou com a boa burguesia e acordou com o pesadelo do Estado de Exceção.
A referência, explícita, é ao suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, Rio de Janeiro, um nacional-desenvolvimentista de linhagem trabalhista, à revolta de Aragarças, contra JK, em 1956, à queda de João Goulart, 1964, e ao impeachment de 2016.
Cáustico, Jessé Sousa garante que o escândalo de 2005, denominado Mensalão, foi o ensaio geral para a Operação Lava-Jato e o golpe de Estado de 2016. O PT, desde o começo em 2003, estabeleceu uma política de conciliação e compromissos com as classes do dinheiro, registra.
– Mensalão, como ensaio geral e a ação concertada entre a elite do dinheiro, que financia as campanhas eleitorais dos integrantes do Congresso Nacional, a mídia, o aparato jurídico e policial do Estado, com a classes médias nas ruas, produziram o golpe contra Dilma Rousseff.
Os bandidos seriam o PT e as classes populares, destaca. É nas classes médias que o PT sofre fortes perdas e que a mídia-partido, posando-se de neutra e de instituição de utilidade pública, possui uma efetiva penetração, explica o doutor em Sociologia e pós-doutor em Psicanálise.
– Quando Dilma Rousseff começou a reduzir as taxas de juros, a base social do golpe começou a se articular…
2013
Inicialmente com uma narrativa à esquerda, já que liderada, em São Paulo, pelo MPL, as jornadas de junho foram manipuladas pelos grandes conglomerados de comunicação e apropriadas pela classe média, que desenvolveu um novo orgulho de ser de direita, diz.
– A luta de classes foi o motor mais importante par o golpe!
Crítico, Jessé Souza frisa que o Brasil jamais teve um pacto socialdemocrata. Muito pelo contrário. O País tem uma sociedade perversa, tola e desigual, mostra. De 2003 a 2016, com o PT, houve o maior esforço de inclusão das classes marginalizadas na História, acredita.
– Com pleno emprego, aumento do consumo de massa, crescimento econômico, investimentos em infraestrutura, recuperação de cadeias produtivas como a de petróleo e gás, além de uma onda de otimismo que o País não conhecia há décadas. Mas nem todos gostavam do que viam
Preto no branco: no século 21, a classe média conservadora não gostou de ter de compartilhar espaços sociais, como shopping centers, cinemas, aeroportos, concessionárias de veículos, restaurantes, com os chamados pejorativamente de ‘novos bárbaros’.
– A classe média nunca engoliu Lula.
Um ex-torneiro mecânico, ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, fundador do PT, uma legenda que estimulou a criação da CUT, do MST e do MTST, defendia o socialismo e que ganhou oito eleições presidenciais consecutivas, se contarmos primeiro e segundo turnos.
– Um racismo de classes que remonta às nossas origens escravocratas.
Há ainda um componente proto-fascista no golpe de 2016, observa. “União entre uma violência simbólica inaudita, comandada pela imprensa, com uma base social que ansiava por travestir seu ódio e desprezo de classe, reprimidos nos anos petistas, em uma bandeira hipócrita mas ‘racional’ de guardiã da decência e da moralidade públicas”, metralha.
– Moralismo de ocasião, combate seletivo à corrupção, um líder carismático, Sérgio Moro, que executava suposta higienização moral e redentora no Brasil.
Segundo ele, existe um fio de continuidade entre o Mensalão, ensaio geral, as manifestações de junho de 2013, e o golpe de 2016. Um ataque sem tréguas ao governo federal, a Luiz Inácio Lula da Silva e a Dilma Rousseff, pontua. Até a vitória final do impeachment no Senado.
– 31 de agosto de 2016!
As supostas imparcialidades da Operação Lava-Jato e da mídia são uma farsa, afirma. Jessé Souza ataca as críticas infundadas ao suposto populismo do PT. O Brasil foi separados em mocinhos e bandidos, conta. Os bandidos eram populistas, os petralhas, narra.
– O golpe é uma contrarrevolução popular.
‘A Radiografia do Golpe – Entenda como e por que você foi enganado’ mostra que, fascista, a classe média conservadora fez um discurso partidário, seletivo, que persegue o PT e blinda o PSDB, PMDB e DEM. O combate à corrupção é pornograficamente seletivo, insiste.
– O mote é a criminalização da esquerda e a perseguição seletiva de seus líderes. Com o veneno midiático.
O sociólogo diz que, em um mundo contemporâneo, os juízes deveriam ser figuras discretas e sóbrias, que evitam a publicidade e a polêmica pública, precisam falar apenas nos autos, não na imprensa. Agindo desse modo eles cumpririam melhor a sua função.
– É a politização da Justiça. Sempre que houve a predominância da política sobre o Direito, este perde a sua autonomia. É um simulacro de Direito e uma caricatura de Justiça. Sérgio Moro foi alçado à figura maior do Direito. É o que houve na Operação Lava-Jato. Órgãos sem controle social…
Amar sem Temer
A Editora Boitempo lançou, em agosto também, ‘Por que gritamos golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil’. Em um dos ensaios, o sociólogo radicado na França, Michael Löwy, diz que o que houve no Brasil, em 2016, foi um golpe de Estado institucional.
O trotskista recorre a Karl Marx, em 18 de Brumário de Luís Bonaparte, para explicar os conflitos. Em 1964, com a queda de Jango, tragédia. 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff, farsa. A oligarquia do direito divino no Brasil, as elites financeira, industrial e latifundiária, não contentava-se com concessões.
– Ela queria todo o poder.
O BBB – bancada do Boi, da Bala e da Bíblia – teria sido protagonista, no Congresso Nacional, analisa Michael Löwy. Não é o primeiro golpe no século, na América Latina, relata. Já tivemos em Honduras, 2009, e no Paraguai, 2012, agora Brasil, 2016, analisa o cientista social.
– A democracia atrapalha a execução de políticas neoliberais! Então, toma-se o caminho de medidas de exceção.
O pensador marxista informa na obra que a extrema-direita também está assanhada na Europa. Se isso se confirmar, o pouco que resta de democracia desaparecerá, crê. As oligarquias obtiveram vitórias na Argentina, no parlamento da Venezuela e no referendo na Bolívia, relata.
Já o filósofo radical Paulo Arantes, Universidade de São Paulo [USP], à esquerda no espectro político da própria esquerda nacional, cita Karl Marx e lembra que Herbert Marcuse diz que a repetição rebaixada de uma virada trágica tende a ser mais sinistra do que a original.
– Uma comparação entre 1964 e 2016.
Um golpe que tem vergonha de ser chamado de golpe, aponta a editora Ivana Jinkings. A filósofa Marilena Chauí frisa que o golpe de Estado era uma bandeira da classe média para supostamente restaurar a ordem e o progresso no Brasil – na pátria de chuteiras.
– Um ato de uma violência, um ressentimento, um desejo de vingança não encontrado nem mesmo nas marchas da Família com Deus e pelas Liberdades de 1964.
O sociólogo Armando Boito Jr. vê ação concertada de agentes da alta classe média, Polícia Federal, Ministério Público e magistratura. Ele acredita que o que há no Brasil, hoje, é um conflito distributivo pela apropriação da riqueza e que envolvem classes e frações de classe.
– Não se trata de combate à corrupção.
Tanto é que o novo bloco de poder hegemônico em Brasília está repleto de denunciados, investigados e condenados pela Justiça, explica. Até Michel Temer, condenado pela Justiça Eleitoral, estaria inelegível por oito anos consecutivos, adianta o pesquisador social.
– O discurso moralizador contra a corrupção é seletivo e possui caráter dissimulado.
Armando Boito Jr. afirma que mulheres, negros, minorias sexuais foram atingidos pelo golpe de 2016. A bancada da bíblia aderiu ao golpe para impor um retrocesso e uma agenda conservadora, dispara. Os interesses, porém, são de classe, insiste ele.
– Um motivo pessoal: o de Eduardo Cunha, réu no STF.
Ciro Gomes em ‘Por que gritamos golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil’ aponta que os motivos do golpe foram erros de Dilma Rousseff, compulsão pela corrupção no Congresso Nacional, divisão pós-eleições de 2014 , interesses do capital internacional.
– Assim como barrar a Operação Lava-Jato.
O ex-ministro alerta que, nos pós-guerra, apenas três presidentes da República terminaram os seus respectivos mandatos no Brasil. O primeiro, Juscelino Kubistcheck [1956-1960]. O segundo, Fernando Henrique Cardoso [1995-1998 e 199-2002]. Terceiro, Luiz Inácio Lula da Silva [2003-2006 e 2007-2010].
– Três pulsos orquestraram o golpe contra a democracia: a banda podre da política, o capital que quer reter todos os recursos destinados aos setores sociais e coloca-los a serviço do pagamento dos juros da dívida pública e a tentativa de entrega do petróleo e das riquezas ao capital estrangeiro!
É o triunfo da antipolítica, diz Murilo Cleto. A jornalista Marina Amaral mostra o papel nefasto e as suas conexões perigosas do MBL [Movimento Brasil Livre] nas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff. Ruy Braga analisa o fim do fenômeno chamado ‘Lulismo’.
– Os limites da hegemonia precária do PT dos últimos 13 anos.
O programa ‘Uma Ponte para o Futuro ‘é uma ponte para o abismo, pontua a economista Leda Maria Paulani. Ela lembra que a crise de 2008, driblada pelos subsídios estatais e a expansão do crédito ao consumidor, agravou-se durante as duas gestões da ex-guerrilheira da VAR-Palmares.
– É a Constituição de 1988, com as reformas ultraliberais de Michel Temer, é que está em xeque!
O professor da Universidade Federal do ABC, Gilberto Maringoni, analisa a guinada à direita da Política Externa do Brasil após o golpe de Estado de 2016. O Brasil terá agora um papel subordinado na Política Externa, com acelerado processo de reprimarização econômica e o enfraquecimento do Mercosul.
– Com o esvaziamento dos Brics, perda de protagonismo e a destinação a um papel irrelevante no cenário mundial. Uma inserção internacional subordinada e passiva. É a repetição do caminho de FHC [Fernando Henrique Cardoso]. Um figurino que lhe cabia antes da revolução de 1930.
‘Golpe 16’, de setembro de 2016, organizado por Renato Rovai, Forum, traz prefácio de Luiz Inácio Lula da Silva e uma entrevista exclusiva com a presidente afastada Dilma Rousseff, além de textos de Altamiro Borges, Cynara Menezes, Gilberto Maringoni, Paulo Henrique Amorim, Rodrigo Vianna, entre outros.
– Um golpe pós-moderno.
É assim que analisa o impeachment, sem crime de responsabilidade, de Dilma Rousseff, o jornalista Renato Rovai. Sem taques nas ruas, explica. Nem prisões, adianta. Muito menos fechamento do Congresso Nacional ou censura midiática, ironiza. MBL, Revoltados On Line e Vem Pra Rua surfaram, diz
Conceição Oliveira examina o ódio como discurso político propagado nas redes e nas ruas a serviço do golpe, que consumou-se em 31 de agosto de 2016, no Senado da República, por 61 a 20 votos, apesar de a Casa de Leis, ter mantido, depois em separado, os direitos políticos de Dilma Rousseff.
– A internet diminuiu as fronteiras.
Segundo ela, o potencial da internet, a rede mundial de computadores, é utilizado também para disseminar o ódio e cometer crimes. Negros, feministas, LGBTs e ativistas de direitos humanos, além de sem terras são os alvos privilegiados do ódio de classe, raça e gênero, aponta a pesquisadora.
– Páginas no Facebook pedem até a morte de Lula!
Ataques machistas e misóginos culminaram no golpe de Estado, acredita. O silêncio das instituições supostamente republicanas teria estimulado os agressores anônimos, crê. Nas redes sociais e nas ruas e avenidas, pontua. Artistas e intelectuais foram atacados, denuncia. Como Chico Buarque de Hollanda.
Um mix para o fascismo seria a criminalização da política, mídia conservadora concentrada, instituições do Estado como PF, MP, Judiciário partidarizados, crise econômica e despolitização da sociedade, afirma a autora. Uma fórmula explosiva para o fortalecimento do fascismo num País, atira.
A blogueira e escritora Cynara Menezes, ex-Carta Capital e hoje em Caros Amigos, aponta o machismo como fator do caça às bruxas no Brasil. Dilma Rousseff é xingada de “puta, vaca, feia e quenga”. Além de dentuça e gorda, registra. Os ataques a ex-presidente se concentram abaixo da linha de cintura, frisa.
– Há, sim, influência do preconceito de gênero.
A misoginia talvez explique o porcentual de apenas 10% de mulheres na composição total do Congresso Nacional, informa. Dilma Rousseff foi queimada na fogueira, como à época da inquisição da Igreja Católica. Ela enfrentou o homem branco, rico, heterossexual, nos espaços de poder, denuncia.
– Um golpe contra o avanço no combate ao racismo [É o que fuzila Dennis de Oliveira]
Adiantado da hora. O jornal argentino Página 12 lançou, em Buenos Aires, ‘Golpe no Brasil – Geneaologia de uma Farsa’, com textos de Glenn Greenwald. Sem previsão para aterrissar no Brasil. ‘A Resistência Internacional ao Golpe de 2016’ sairá no final de setembro pela Práxis.
A Resistência Internacional ao Golpe de 2016 sairá no final de setembro pela Práxis
1964-2016 – Página Infeliz da Nossa História chegará às livrarias também em setembro