Política

A modernidade fascista

Redação DM

Publicado em 12 de abril de 2016 às 02:46 | Atualizado há 1 ano

A palavra intolerância vem do latim, intolerantia, que significa impaciência e incapacidade de aguentar. Outra definição do termo é se ter uma atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar diferenças em crenças e opiniões. Regimes políticos autoritários como Nazismo, Fascismo, Ditadura Militar e o Comunismo foram baseados na intolerância, ou seja, regimes que não respeitaram as diferenças ou as opiniões dos outros e impuseram o seu sistema como o melhor e o “correto” a ser seguido. As pessoas que não têm empatia (se colocar no lugar do outro) costumam ser intolerantes e, por isso, reproduzem discursos raivosos e de ódio contra aqueles que têm uma opinião contrária da sua.

Atualmente, o Brasil vive um momento de grande intolerância política, com xingamentos e agressões entre pessoas de posicionamentos políticos distintos. “Coxinhas” e “petralhas” se atacam mutuamente nas redes sociais e no ambiente real. Não há debate de ideias, apenas ofensas e a defesa irracional de um posicionamento político. Também é possível observar muitas amizades desfeitas por conta de ideologias e opiniões contrárias sobre a política brasileira. Ao longo da história da humanidade foram inúmeros os casos onde uma atitude intolerante levou a verdadeiras tragédias.

Para o especialista em marketing político, Marcos Marinho, a intolerância reside na dificuldade de argumentação e defesa das próprias opiniões, sendo a ignorância o combustível da intolerância. “Debater pressupõe abertura para convencer e ser convencido da validade ou não dos próprios argumentos, e isto não tem acontecido. Como não há argumentação, não há defesa racional de pontos de vista, mas apenas ataque e defesa entre dois lados da mesma moeda, não há debate. Isto é péssimo para a evolução da sociedade”, destaca.

Historicamente, é fato, que sempre que uma determinada sociedade entrava em crise sintomas crescentes de comportamentos intolerantes tornavam-se mais frequentes. E, o quadro que se desenha no Brasil pode se tornar perigoso e criar (ainda mais) uma sociedade preconceituosa, culminando, até mesmo, em conflitos armados, como ocorre em nações intolerantes do Oriente Médio. Marinho acredita que a descrença e a intolerância podem, sim, ocasionar conflitos, mas o Brasil não deverá ir a tanto. “Quando o povo atinge um nível muito alto de desesperança e descrédito nas instituições garantidoras da democracia, é possível que se forme o cenário para surgirem fundamentalismos e radicalismos de toda sorte. Mas, pessoalmente, não acredito que cheguemos a este ponto”, pondera.

Representantes que disseminam intolerância

No Congresso Nacional é possível perceber o discurso de intolerância por parte de muitos parlamentares que defendem o sexismo, machismo, homofobia entre outras formas de preconceito. O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) é um exemplo de parlamentar que, em seus discursos, dissemina a intolerância. Em 2014, o deputado declarou em plenário, em uma discussão acalorada, que não estupraria a ex-ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário (PT), por nem isso ela merecer dele. Vale destacar que na data em que aconteceu a confusão, 10 de dezembro, é celebrado o Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Outro fato considerado de intolerância aconteceu em 2013, em que o deputado federal Marco Feliciano (PSC) foi o autor de declarações que incitavam ao ódio, de acordo Maria do Rosário. O deputado, ao assumir a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM), declarou que o colegiado era comandado por Satanás antes que dele tomar posse. O Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial repudiou a eleição do deputado e as declarações de Feliciano.

De acordo com Marcos Marinho, os discursos dos políticos representam os eleitores e há uma relação de mutualidade entre ambos. “Muitos foram eleitos por dar voz a um discurso, ainda que intolerante, que uma parte dos eleitores possuía. Sendo assim, existe uma relação de alimentação e retroalimentação do discurso. O parlamentar fala o que o eleitor queria falar e, ao mesmo tempo, reforça no eleitor a crença naquilo que ele continua falando”, explica.

O especialista ressalta que a intolerância pode ser algo bom para os partidos, já que cada legenda possui seus próprios interesses e depende, muitas vezes, da ignorância da população para conquistá-los. “Quando vemos discursos inflamados sendo feitos para a própria militância, usando apenas frases de efeito como o insistente ‘nós contra eles’, sem que haja interesse em colocar todos os fatos às claras, sem que exista um real movimento interno em prol de depurar o próprio partido em busca de legitimidade para representar o povo, me fica claro que estas instituições perverteram sua função primária e passaram a funcionar como meros grupos de poder”, afirma Marinho.

Para que discursos intolerantes e de incitação ao ódio cessem, Marinho acredita que é necessário mudanças no processo educacional da sociedade brasileira. “Enquanto temas tão importantes como política, cidadania, democracia e ideologias não forem trabalhados e reforçados nas escolas, sempre poderemos caminhar para o fim da democracia. Nenhuma conquista social e política está segura quando as pessoas se fecham em suas convicções e excluem a possibilidade de estarem erradas, antes mesmo de as colocarem à prova”.

Compartilhando a intolerância

Nas redes sociais, onde cada um pode expressar o que pensa e emitir sua opinião sobre uma série de assuntos, inclusive a política, se forma um espaço propício para intolerância se o usuário não tiver cidadania e não souber respeitar a opinião alheia. Sendo assim, muitas informações e discursos são compartilhados e fomentam a intolerância na internet.

O jornalista, pesquisador e militante do PT, Evaldo Gonçalves, ressalta que utiliza seus perfis nas redes sociais como um espaço de militância política, compartilhando suas ideias e convicções. “A intenção não é debater com quem tem opinião formada, por que não há condições de mudanças de pensamento quando há esse nível de convencimento.  Faço um posicionamento no sentido de tentar convencer os indecisos ou quem não carrega uma visão tão fechada”, explica. Questionado se já sofreu algum tipo de intolerância nas redes sociais, Evaldo revela que “constantemente sou chamado de burro, de analfabeto, de idiota, perguntam quanto ganho pra defender meus posicionamentos”. O jornalista ainda lembra ter cortado relações com colegas e conhecidos nas redes sociais por não respeitarem sua opinião e serem intolerantes. “Tento não reagir no mesmo tom, mas amigos não perdi”

Em entrevista ao Diário da Manhã, Marcos Marinho – que está em Portugal cursando doutorado que versa sobre democracia, cidadania e comunicação -, acredita que não há, em nível do senso comum, aparente preocupação em analisar criticamente as informações recebidas, os discursos partilhados e compartilhados via internet. “Sem razoabilidade no processo comunicativo, cresce a agressividade que é reforçada pelos ‘amigos’ e partidários das opiniões manifestadas. Infelizmente, muitas destas pessoas retiram suas referências apenas das mídias sociais, de grupos que participam nos sites de redes sociais, mas não percebem que ali existem apenas fragmentos de informação, muitas vezes sem confirmação de fonte, sem qualquer responsabilidade”, ressalta.

Outro ponto destacado por Marinho é a “grande mídia” ser uma fonte de informações e formadora de opiniões. No entanto, o que grande parte dos veículos de comunicação fazem é apresentar a seus interlocutores partes da informação. “Ela [a mídia] é responsável, em boa parte, pela ‘realidade’ que a maior parcela da sociedade conhece. Sendo assim, é claro que sua forma de recortar e expor os acontecimentos políticos irá impactar nas ações e reações dos indivíduos. Quanto menor é o número de fontes de referência de uma pessoa – e aqui podemos adicionar escolas, igrejas, amigos, família, grupos sociais, tipos e fontes de mídia -, maior é a possibilidade dela reproduzir um discurso pré-programado por alguém, ou alguma instituição, sem se quer refletir sobre aquilo que está falando. Fatalmente, isto implicará em intolerância quanto aos discursos diferentes, pois esta pessoa não possui alguma significação destas possibilidades e assim tende a rejeitá-las”, acredita.

O especialista pontua que as redes sociais protegem o indivíduo, que passa emitir sua opinião sem se preocupar com o outro e opiniões contrárias, não havendo interesse pelo debate. “O que muitos parecem não perceber é que esta atitude os coloca em uma bolha de concordância unilateral, mas também os impedem de ter contato com outras possibilidades, outros pontos de vista, e assim anulam a possibilidade de mudança de opinião, do aprendizado a partir de outras perspectivas. A meu ver, isto amplia a possibilidade de radicalismos”, ressalta Marinho.

Pediatra recusa atender criança que tem a mãe petista

No último mês, o caso de uma pediatra que recusou a atender pelo fato da mãe da criança ser petista foi manchete em vários portais de notícias. O caso aconteceu em Porto Alegre (RS) com a ex-vereadora pelo PT, Ariane Leitão, que divulgou nas redes sociais a mensagem que a médica que atendia seu filho, de um ano, a enviou. Ariane se disse chocada com o posicionamento da profissional, que alegou estar abalada e decepcionada com o momento político que o Brasil vive por conta do Partido dos Trabalhadores e, por essa razão, não atenderia mais a criança. “Nada pode ser pior que envolver teu filho nessa canalhice toda”, declarou Ariane.

O fato repercutiu nas redes sociais e pessoas contra e à favor emitiram opiniões e comentários. O Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) emitiu nota favorável à pediatra, assim como o presidente da instituição, Paulo de Argolho Mendes, que declarou que a médica não descumpriu nenhuma regra do código de ética e que a profissional deveria até  “se orgulhar” de ter sido honesta.

Para a mãe da criança, o posicionamento do sindicado abre um precedente perigoso, que pode permitir que profissionais comecem a negar atendimentos por diversos motivos com outras pessoas. “O Brasil era visto mundialmente como um país solidário. Deixamos de ser isso. A violência passou dos adultos e está chegando às crianças. Se fosse com o seu filho, o que você faria? Precisamos discutir as garantias dos direitos. A violência está no ambiente infantil. As pessoas estão se sentindo no direito de violentar quem pensa diferente. Eu espero que os pais e as mães reflitam”, declarou a petista em entrevista ao Bol Notícias.

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