Apesar da crise, 52% dos prefeitos goianos são reeleitos
Redação DM
Publicado em 8 de novembro de 2016 às 01:00 | Atualizado há 2 anosDos 246 prefeitos goianos, 132 concorreram à reeleição nas eleições deste ano e 52% deles obtiveram respaldo da população para novo mandato. 48% não conseguiram aval para permanecer à frente das prefeituras. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que 68 prefeitos foram reeleitos e 64 não foram aprovados pelas urnas.
O levantamento é um indicativo de que o controle da máquina municipal não é garantia de permanência dos mandatários no poder. Também reforça as análises de que neste ano o eleitor esteve mais desencantado com a política.
O índice de votos brancos e nulos bateu recorde, e candidatos que adotaram discurso de que não eram políticos tiveram êxito em grandes cidades. Nas capitais, 15 dos 20 prefeitos que concorreram foram reeleitos. Os cinco derrotados caíram já no primeiro turno.
O prefeito de Bom Jardim de Goiás, Cleudes Baré (PSDB), presidente da Associação Goiana de Municípios (AGM) diz que a grave e aguda crise econômico-financeira, vivida pelas prefeituras brasileiras, contribuiu para assegurar o índice de 58% de prefeitos goianos não reeleitos este ano. Cleudes Baré não disputou as eleições em Bom Jardim de Goiás, já que foi reeleito em 2012.
Para o dirigente, o Brasil nunca viveu uma situação de tamanha dificuldade em relação às finanças dos municípios. “Desde a Constituição de 1998, o que se vê é aumentar as demandas sociais dos municípios e, paradoxalmente, redução de transferências de recursos federais às prefeituras, o que agravou a situação e ampliou a angústia dos prefeitos.”
Cleudes Baré aponta, também, a crise política que ocorre no país, a partir dos escândalos de corrupção (Mensalão e Petrolão), desacredita a atividade pública e amplia o sentimento da população de rejeição aos detentores de mandatos, o que não exclui os prefeitos. “Há um descrédito generalizado em relação aos políticos. Nesta campanha, além das dificuldades financeiras, os prefeitos enfrentaram a rejeição do eleitor em relação ao representante público.”
A base do governador Marconi Perillo comemora principalmente quatro vitórias em 2 de outubro. Jânio Darrot (PSDB), em Trindade, Rogério Troncoso (PTB) em Morrinhos, Darrot por representar uma cidade da região metropolitana da Capital, Troncoso pelo elevado índice que obteve nas urnas (86,89%) e por conquistar o quarto mandato.
O ex-governador Agenor Rezende (PMDB) conseguiu a reeleição em Mineiros, no sudoeste goiano, com 51,58% dos votos. Agenor foi deputado estadual (presidente da Assembleia Legislativa) e conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios.
Selma Bastos, prefeita da cidade de Goiás, sobreviveu à ‘varredura” que se abateu sobre o PT no Estado e no País. Com ajuda do PSDB do governador Marconi Perillo, a petista foi reeleita.
Daniela Vaz (PSDB) foi reeleita em Ipameri, com uma boa margem de frente, com a população assimilando o seu discurso de “eficiência na gestão com austeridade”. Evandro Magal (PP) vai reeleito para o seu quarto mandato à frente da prefeitura de Caldas Novas. Praticamente não teve adversário nas eleições deste ano. Magal já foi deputado estadual e vereador.
Alternância de poder
O prefeito de Goianésia, Jalles Fontoura (PSDB), que perdeu as eleições para o deputado estadual Renato de Castro (PMDB) por apenas 548 votos, atribui ao “sentimento de mudança” da população a sua não reeleição. “O meu maior adversário foi a vontade de alternância do eleitor.” Jalles Fontoura, que exerce o terceiro mandato como prefeito de Goianésia, vem de uma tradição política. É filho do ex-governador Otávio Lage e irmão do empresário e ex-prefeito Otávio Lage Filho. “Os escândalos políticos no país afetaram a campanha este ano. É algo tão forte que a reação do eleitor foi varrer todo político que está no poder”.
O prefeito João Gomes aponta a “onda antipetista” como responsável pela sua derrota, em Anápolis. “Temos a convicção de que fizemos uma boa administração, com muitas obras, pois demos sequência ao trabalho exitoso do ex-prefeito Antônio Gomide. Mas o eleitor brasileiro resolveu impor uma amarga derrota ao PT país afora e Anápolis não ficou de fora.
O prefeito de Catalão, Jardel Sebba (PSDB) diz que enfrentou muitas dificuldades administrativas, durante os quatro anos, mas que, na medida do possível, realizou as obras necessárias à cidade, principalmente na área de infraestrutura. “Respeito a decisão do eleitor de Catalão. Tenho a consciência do dever cumprido. Ganhar ou perder eleições faz parte da vida política e do processo democrático.”
Em Porangatu, o prefeito Eronildo Valadares (PMDB) não conseguiu a reeleição. O vitorioso, empresário Pedro Fernandes (PSDB) obteve 42,59% dos votos e Eronildo, 36,06%. Fernandes pertence ao grupo político do ex-prefeito e deputado estadual Júlio da Retífica.
Em Quirinópolis, o prefeito Odair Resende (PSDB) não conseguiu a reeleição. O vitorioso é Gilmar Alves (PMDB), que já administrou a cidade por dois mandatos. “Fizemos uma administração com muitas obras, apesar das dificuldades financeiras. Os políticos estão desgastados, principalmente no âmbito nacional. Respeitamos a decisão do eleitor”, diz Odair Resende.
Em Uruaçu, a prefeita Solange Bertolino (PMDB) ficou em terceiro lugar na disputa deste ano. Valmir Pedro (PSDB) foi o vencedor.
O prefeito de Posse, José Gouveia Araújo (PMDB) não se reelegeu. O vencedor foi o empresário Wilton Barbosa (PSDB), que teve o apoio do grupo do vice-governador José Eliton.
O prefeito de Senador Canedo, Misael Oliveira (PDT) amargou um terceiro lugar. Depois que perdeu o apoio do grupo do empresário e ex-prefeito Vanderlan Cardoso (PSB), Misael viu sua base política se esfacelar na cidade.
Em várias cidades, prefeitos sequer concorreram à reeleição, diante dos desgastes junto às populações que representam. Entre eles, Chico Balla (PTB, em Itumbiara, Itamar Barreto (PSD), em Formosa.
Quem é quem
No Estado, o PSDB foi o partido que mais conseguiu reeleger prefeito, este ano, já que 31 obtiveram êxito dos 54 que concorreram. 23 tucanos foram derrotados. No país, os tucanos regeram 228 prefeitos de um total de 431. Os tucanos conseguiram a reeleição do prefeito de Trindade, Jânio Darrot, que alcançou 51,34% dos votos. O PSDB sofreu derrota em Catalão, onde Jardel Sebba atingiu apenas 26,34%, sendo vitorioso Adib Elias (PMDB), com 67,62%. Em Goianésia, o PSDB não conseguiu a reeleição do prefeito Jalles Fontoura, que ficou com 49,29% dos votos, sendo vitorioso Renato de Castro (PMDB), com 50,71%.
Desgastado em todo o País, diante de envolvimento de suas lideranças em escândalos de corrupção, o PT goiano conseguiu a reeleição de apenas dois dos cinco prefeitos que concorreram em 2016. João Gomes, de Anápolis, perdeu a eleição, no segundo turno, ao obter 48,77% dos votos, já que o vitorioso foi Roberto do Órion (PTB), com 51,23%. Jefferson Louza, em Leopoldo de Bulhões e Neldes Beraldo Costa, de Perolândia, também foram derrotados. Os petistas vencedores são: Selma Bastos, na Cidade de Goiás e Vilmar Carneiro, em Nova Aurora.
Dos seis prefeitos do PDT, cinco foram derrotados. Apenas Edimon Oliveira, de Caldazinha, obteve êxito. Entre os perdedores estão Misael de Oliveira, de Senador Canedo e Dioji Ikeda, de Inhumas.
Dos 19 prefeitos do PMDB, 10 foram vencedores e nove derrotados. Entre os perdedores, estão; Eronildo Valadares, em Porangatu, Argemiro Santos Neto, em Caiapônia, Jalles Rodrigues, em Rubiataba e Solange Bertolino, em Uruaçu. Entre os vitoriosos estão Agenor Rezende, em Mineiros e Jacob Ferreira, em São Luiz do Norte.
No PP, dos oito prefeitos que concorreram, cinco ganharam e três perderam. Evandro Magal, em Caldas Novas e Carlos Roberto da Silva, de Itaberaí. Entre os perdedores, está Paulo Fernando de Sousa, de Cachoeira de Goiás.
No PTB, de um total de oito prefeitos, três ganharam e cinco perderam. Entre os vitoriosos, está Rogério Troncoso, de Morrinhos. Entre os derrotados, Mércia Tatico, de São Luiz de Montes Belos.
Dos oito prefeitos do PSD, cinco ganharam e três perderam. Cristovão Turmin venceu em Luziânia e Miller de Assis perdeu em Goianira. Dos seis prefeitos do PR, quatro ganharam e dois perderam. Entre os vitoriosos, está Alair Ribeiro, de Cocalzinho de Goiás. Entre os derrotados, Wilmar Arantes, de Abadiânia.
Dos cinco do DEM que concorreram, dois venceram e três foram derrotados. Entre os vitoriosos, Paulo Sérgio Rezende, de Hidrolândia. Entre os perdedores, Edson Silva Ferro Filho, de Paraúna. Dos quatro prefeitos do Pros, três ganharam e um perdeu. Entre os vencedores, está Francisco Sobrinho, de Campinorte. O derrotado foi Geraldo Ferreira, de Barro Alto.
Dos dois prefeitos do PHS, Wygnerley Morais, de Jesúpolis, venceu e Jabez Melo, de Itapuranga, perdeu. Dos dois prefeitos do PSB, Jairo Gomes Júnior, de Cristianópolis, ganhou, e Antônio Fernandes Azevedo, de Guaraíta, perdeu. Os dois prefeitos do PTC perderam as eleições: Ney Boa Safra, de Itapaci, e Eles de Freitas, de Planaltina de Goiás.
O único prefeito do PSC, Adailza Crepaldi, de São Miguel do Araguaia, não conseguiu a reeleição. O único prefeito do Solidariedade – Baltazar Boaventura, de Estrela do Norte, foi derrotado. O único prefeito do PT do B – Washington do Prado, de Itarumã, perdeu.
No País, 47% dos administradores conseguem segundo mandato


2.945 prefeitos se candidataram à reeleição no Brasil e 1.385 conseguiram novo mandato, o que corresponde a um índice de 47%.
A taxa de reeleição de prefeitos brasileiros que tentaram conquistar nas urnas um segundo mandato neste ano foi a menor da história. Pela primeira vez, menos da metade dos prefeitos que concorreram novamente ao mesmo cargo tiveram sucesso. A Constituição foi alterada para permitir a reeleição para cargos no Executivo em 1997.
Em 2000 e em 2004, a taxa de sucesso dos candidatos à reeleição ficou por volta de 58%, segundo dados da Confederação Nacional dos Municípios (CNM). Esse número explodiu em 2008, em meio a um crescimento recorde da arrecadação municipal no Brasil — o aumento dos orçamentos foi de 15% em relação ao ano anterior, segundo dados do Tesouro Nacional. Naquele ano, 66% dos candidatos a um segundo mandato de prefeito tiveram o aval dos eleitores para sua recondução.
Em 2012, enquanto as finanças públicas passavam por uma estagnação por causa do baixo crescimento econômico, a taxa de reeleição caiu para 54%. Os dados deste ano parecem reforçar a hipótese lógica de que há uma relação entre finanças municipais e sucesso eleitoral dos candidatos à reeleição.
O argumento é simples: com dinheiro em caixa, há mais chances de o prefeito fazer obras, investimentos ou qualquer outro tipo de gasto para agradar os eleitores da cidade, o que poderia significar mais votos no pleito seguinte. Mas, segundo o Tesouro Nacional, a arrecadação dos municípios no ano passado caiu para níveis anteriores aos de 2013 — ao mesmo tempo em que a taxa de sucesso dos candidatos à reeleição despencou seis pontos porcentuais.
Em dificuldades
O presidente da Confederação Nacional dos Municípios, Paulo Ziulkoski, diz que neste ano estar com a máquina pública derrotou “e não ajudou” quem concorreu, que precisou lidar com o desgaste de um período de receitas públicas em queda. “O cidadão não distingue União, Estado e município: olha para quem está próximo dele”, diz Ziulkoski, ex-prefeito no Rio Grande do Sul. Ele afirma que o discurso da “mudança” foi marcante nessa eleição. “Ocorreu em cima de propostas que não vão ser cumpridas. Vai haver uma decepção de novo dentro de um ano ou dois.”
O presidente da confederação argumenta que não há perspectiva de aumento de receitas e a situação deve se agravar com a proposta do teto de gastos públicos, em tramitação no Congresso.
A entidade pesquisa por conta própria a taxa de reeleição desde que ela passou a ser permitida, em 2000, e afirma que, em eleições anteriores, sempre mais de 55% dos prefeitos que concorreram acabaram se elegendo. O pico foi em 2008, com 66%.
O professor de ciência política da Universidade Federal de Pelotas (RS), Álvaro Barreto, que pesquisa reeleição, afirma que a quantidade de reeleitos sofre efeitos “sazonais” que dependem de circunstâncias como a conjuntura econômica e a insatisfação com o meio político. “Em 2008, a taxa de reeleição foi bastante elevada. Os municípios e a economia estavam em um processo positivo”, diz.
Há dois anos, governadores já enfrentavam dificuldades: dos 18 que tentaram se reeleger, 7 não conseguiram.
O professor David Fleischer, da Universidade de Brasília, também vê um reflexo da situação da economia. “Muitos prefeitos não têm dado conta do recado com os recursos que têm, e isso tem dado muita insatisfação, principalmente em saúde e educação.”