“Brasil precisa superar esta fase e se reconciliar consigo mesmo”
Redação DM
Publicado em 7 de abril de 2016 às 02:57 | Atualizado há 10 anos
Em entrevista exclusiva ao Diário da Manhã, afirma que o relatório tem a pretensão de encerrar a turbulência política que agita o País
A expectativa é grande. O Brasil vai conhecer nesta quarta-feira o tão aguardado relatório do deputado federal Jovair Arantes (PTB) sobre o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) que tramita no Congresso Nacional. O assunto paralisa o País há pelo menos um ano. A economia está em compasso de espera. Os investimentos do setor privado, suspensos. A cotação do dólar pode oscilar para cima ou para baixo, a depender de como o relator vai se posicionar. Mas independente do que acontecer daqui em diante, o fato é que o comportamento de Jovair Arantes como condutor do processo que pede o afastamento da presidente foi irrepreensível. O único parlamentar goiano com direito a voto na Comissão Especial do Impeachment agiu com a responsabilidade que o momento exige e cumpriu a função de relator com tanta ponderação que recebeu elogios do governo e da oposição.
Jovair é uma estrela em ascensão no Congresso. A habilidade que ele conquistou em cinco mandatos como deputado federal faz dele um sujeito que integra qualquer lista de nomes cotados para a equipe ministerial do pós-impeachment ou até mesmo para presidência da Câmara dos Deputados, em substituição a Eduardo Cunha (PMDB-RJ). No artigo que publicou no Diário da Manhã na última segunda-feira, Jovair afirma que o seu relatório tem a pretensão de inaugurar uma nova etapa no País, em que nós, brasileiros, seremos conduzidos por um governo de conciliação, de comunhão de forças. E para este novo momento, nada mais apropriado do que contar com um político preparado, experiente e conciliador como Jovair.
Nesta entrevista exclusiva ao Diário da Manhã, o deputado conta o que passa pela sua cabeça no momento que ele próprio considera como o mais importante da sua longa e bem-sucedida carreira. Ele fala da forte pressão que recebe por todos os lados (o leitor pode acreditar: todos em Brasília têm interesses envolvidos no debate sobre a permanência de Dilma no cargo). “É impossível não notar essa pressão. É inerente ao cargo e é um momento especial do nosso país. No entanto, procurei me distanciar de toda e qualquer pressão e concentrar-me na produção técnica do relatório”.
E o que dizer da voz das ruas? Do estridente grito dos manifestantes que ora estão vestidos de verde e amarelo, cores da nossa bandeira, ora estão de vermelho, com o punho esquerdo ao alto? Jovair afirma que é impossível não ouvir os clamores que tomaram conta do Brasil ou o tiritar de panelas quando começa uma reportagem sobre corrupção no Jornal Nacional. “Só se eu fosse cego, surdo ou hipócrita para dizer o contrário”. Mas garante: em que pese a efervescência política que tomou conta do País, vai produzir um relatório estritamente técnico, balizado por dispositivos legais do regimento interno da Câmara e da Constituição Federal. “É um trabalho sério e consistente, que não dará margem para contestação judicial. O Brasil não aguentaria a judicialização de mais este processo”. Confira a entrevista.
Ponto alto da carreira
Com quase 30 anos de Congresso Nacional, Jovair é uma estrela em ascensão na política brasileira. Ele próprio reconhece que é o maior desafio da sua carreira. O deputado acredita que foi escolhido para a relatoria em função da sua experiência e por ser um parlamentar ponderado, que sempre pautou seu trabalho pelo equilíbrio. “Ao longo de todos os meus mandatos, sempre mantive bom relacionamento com os colegas deputados e presidentes da Casa. Isso foi fundamental para que eu fosse escolhido como relator do processo de impeachment”, avalia.
Jovair destaca que seu nome não sofreu objeções e a maioria dos deputados e partidos concordou que ele fosse o relator. “Fui aprovado pela maioria sem grandes reprovações. É um atestado de seriedade do nosso trabalho no Congresso e sei da minha responsabilidade neste momento especial do Brasil”.
Relatório técnico
Jovair Arantes ressalta que seu parecer é totalmente técnico e não foi contaminado por picuinhas políticas. “É um relatório consistente. Não esperamos que seja aprovado por unanimidade, mas, ao final, tem que vencer a democracia”, afirma. Jovair diz que leu toda a defesa apresentada pela presidente Dilma Rousseff (PT). “Foi um trabalho extremamente técnico e profissional. A longa experiência como congressista me permitiu ter preparo suficiente para trabalhar dentro dos parâmetros legais e constitucionais”.
O deputado goiano diz ainda que os comentários e boatos a respeito do relatório tomaram conta da mídia, mas que em nenhum momento se deixou afetar. “Muito foi falado sobre o que seria considerado e o que seria incluído no relatório. Tudo o que foi produzido está alicerçado na denúncia e na defesa apresentadas. Não há invenções ou mágicas. É um trabalho sério e consistente”.
Pressão
A responsabilidade de conduzir a relatoria do impeachment na Câmara jogou sobre os ombros de Jovair uma grande pressão. Após boatos de ameaças, o deputado teve sua segurança pessoal reforçada. Setores da sociedade civil, entidades classistas e grupos políticos se organizaram para reivindicar de Jovair um relatório favorável ao impeachment de Dilma.
“É impossível não notar essa pressão. É inerente ao cargo e é um momento especial do nosso país. No entanto, procurei me distanciar de toda e qualquer pressão e concentrar-me na produção técnica do relatório. Minha consciência é tranqüila de que elaborei o melhor documento possível. Agora, a bola está com os deputados. Eles que vão decidir se aprovam ou não o texto entregue pela relatoria”.
Voz das ruas
Panelas tiritam em horário nobre. Manifestantes ocupam as principais avenidas o Brasil todas as semanas, ora vestidos de verde e amarelo, cores da nossa bandeira, ora vestidos de vermelho. O relator do pedido de impeachment, Jovair Arantes, está ouvindo os gritos que vêm das ruas? É claro que está. Mas isso, segundo ele, não quer dizer que as opiniões apaixonadas contaminarão o seu trabalho. Jovair enxerga a mobilização popular como um dos principais avanços que o País registrou nesse período de turbulência.
“É óbvio que eu ouço a voz das ruas. Só se eu fosse cego, surdo ou hipócrita para dizer o contrário. Acho muito importante que as pessoas tenham deixado as suas casas para protestar porque, afinal de contas, o exercício da democracia não pode se restringir ao momento voto. Por outro lado, é importante lembrar que nós, deputados e deputadas, senadores e senadoras, temos que nos manter firmes no propósito de executar um julgamento sóbrio. Pautado apenas pelas provas do processo e pelo que manda a lei”.
Governo de conciliação
Jovair afirma que o relatório que ele deve apresentar nesta quarta-feira tem a pretensão de inaugurar um novo momento, marcado pela reconciliação do Brasil consigo mesmo. “Em breve, nós vamos ter que escolher se vamos caminhar com Dilma ou com Michel Temer de agora em diante. Independente do que acontecer, quem estiver na cadeira de presidente precisa entender que o País precisa de um governo de conciliação, de comunhão de forças, que traga a paz de volta ao cenário político”.
O deputado considera inadiável a tomada de medidas que façam a poeira baixar em Brasília porque, na opinião dele, se o País continuar em convulsão a economia vai entrar em colapso. “No setor privado, os investimentos estão suspensos há muito tempo. Os empresários e a economia, de modo geral, estão em compasso de espera. O desemprego atingiu patamares históricos e a inflação voltou a nos ameaçar. Se não vencermos logo a crise, ela nos vencerá”.
Prazo e STF
A base governista chegou a criticar a celeridade da Comissão do Impeachment e acusou o atropelamento de regimentos. Jovair nega qualquer tipo de truque e ressalta que tudo foi feito dentro dos prazos estabelecidos por lei e de acordo com o rito determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
“Fiz o relatório dentro do que estabelece o rito definido pelo STF. Passo a passo, para não cometer erros e suscitar dúvidas”. O relator explica que esse “rigor” é para evitar qualquer questionamento judicial. Jovair acrescenta que, mesmo assim, parlamentares da base aliada mantêm argumentos que questionam o andamento dos trabalhos da comissão e podem fazer com que a sequência do processo fique com a Corte Suprema.
Senado 2018
O posicionamento maduro e sereno na condução da relatoria do impeachment colocou Jovair Arantes no centro das atenções e na pautas dos principais jornais e telejornais do Brasil. Analistas e aliados acreditam que o deputado se agigantou durante o processo e á ganha cacife para disputar uma vaga no Senado em 2018. Com os pés nos chão, Jovair evita falar em projeto eleitoral.
“Concentrei todos os meus esforços neste trabalho da relatoria porque é um momento histórico do País e a sociedade espera uma resposta do Congresso. As eleições de 2018 ainda estão longe. Claro que disputar o Senado é desafio que seduz e seria mais uma forma de defender os interesses de Goiás. Na hora certa, com responsabilidade e maturidade, vamos definir o futuro”.