Buzinadas do crime eleitoral
Redação DM
Publicado em 29 de julho de 2016 às 02:01 | Atualizado há 1 anoFranco Buzina foi flagrado em vídeo distribuindo cestas básicas de porta em porta para os moradores da cidade, que fica a 76 km de Goiânia. No vídeo, Franco é acompanhado por candidatos a vereador que retiram de um caminhão os sacos com alimentos enquanto o político os oferece para os moradores. A família também realizou uma festa de aniversário em conjunto com um evento partidário onde realizou o sorteio de uma moto. Além disso, tem distribuído consultas médicas para os moradores da cidade.
As imagens da distribuição de cestas básicas foram captadas por um morador do município. Nelas, é possível ver uma camionete modelo D-20 e um caminhão carregados de cestas básicas que eram entregues a uma grande quantidade de moradores nas ruas. Quando os homens que estão na camionete se aproximam, é possível identificar o pré-candidato Franco Buzina e seus principais candidatos a vereador nesta eleição. Entre eles, Rogério Abraão, Durval da Usina, Roberto da VVS, Ercione Leão e Tião da Ambulância.
Nas imagens, datadas de 2 de maio, o veículo pode ser visto estacionado nas proximidades de estabelecimentos comerciais. Franco, então, pergunta pelo responsável. Ao ouvir que o mesmo não está, indaga aos presentes se aceitam uma cesta. Com a resposta afirmativa, ordena a Roberto da VVS que deixe os pacotes. Depois, Franco pergunta a um dos presentes onde ele mora. Após a indicação do local e depois do morador negar que já tenha recebido um dos pacotes, Franco duvida e enfatiza antes de autorizar a entrega: “Levei casa por casa lá”.
O assunto então passa a ser a eleição. Um dos moradores diz para Franco que, caso ele ganhe as eleições, não deveria esquecê-los, no que ele responde “para eu ganhar vocês precisam votar em mim. É um companheiro ajudando o outro” e a caravana segue pelas ruas entregando as cestas. Em outro vídeo, Franco aparece falando ao celular debaixo de uma árvore, enquanto uma camionete carregada com cestas está na rua e os candidatos a vereador de sua chapa distribuem os pacotes para os moradores. Franco e aliados não têm a menor preocupação em ser discretos. Eles entregam pessoalmente as cestas e ainda divulgam em redes sociais fotos do grupo com os pacotes de alimentos ao fundo.
O advogado eleitoral Leonardo Batista explica que a distribuição de cestas básicas é compra de voto e pode até motivar o indeferimento da candidatura ou a cassação de mandato caso Franco seja eleito. “Isso pode configurar compra de voto, artigo 41-A da Lei 9504/97. Embora não estejamos na fase de campanha, estamos em pré-campanha, período no qual é proibido o pedido explícito de voto, ainda mais em um caso que pode ser associado à captação ilícita de sufrágio com a entrega de bens em troca de voto. Isso significa que pode acarretar no indeferimento do registro de candidatura ou cassação do mandato caso seja eleito”, afirma.
PREMIAÇÕES
Outra estratégia utilizada por Franco Buzina para conseguir os votos dos moradores é a realização e patrocínio de festas na cidade. No aniversário da própria mãe, Franco Buzina sorteou para os moradores uma moto zero km. O anúncio foi feito pelas redes sociais, junto com imagens de inúmeros barris de chope que foram adquiridos para a festa. Durante a celebração, ficou clara a conotação política do evento. Faixas foram fixadas com dizeres como “Anicuns festeja o futuro com Avelinópolis. Parabéns Franco”.
Nos cartazes oficiais do evento, a família associa o aniversário da mãe a um evento do PR. “Chico Buzina, Ver. Gordinho e Elisângela Lima convida (sic) você e toda sua família para comemorar o aniversário de dona Lúcia e a grande festa do PR”, diz o banner. Leonardo diz que “as mesmas regras que valem na campanha, valem para pré-campanha, exceto que no último caso não pode haver pedido explícito de votos e despesas realizadas pelo pré-candidato, salvo se custeadas pelo partido. Se a festa for custeada pelo candidato, configura propaganda antecipada e o sorteio da moto pode configurar abuso de poder econômico. A propaganda irregular gera multa. Agora, abuso de poder econômico gera o indeferimento de candidatura e a cassação de mandato”.
CONSULTAS
Franco Buzina também viabiliza consultas médicas para tentar cooptar votos para as próximas eleições. Em mais vídeos realizados em Anicuns, um morador se direciona até a sede do PR, partido de Franco, para obter informações sobre consultas. As atendentes informam o local onde o morador deve ir para ser atendido.
Na clínica, as funcionárias pedem os documentos pessoais e informações sobre o endereço do paciente. No momento em que entra para atendimento, o assunto política vem à tona. O médico esclarece o motivo das consultas gratuitas: “Chico vai montar um hospital e o filho dele será candidato, então vamos aproveitar e já ir fazendo as ligações”.
Outro Lado
Procurado pela redação, o pré-candidato à Prefeitura de Anicuns, Franco Buzina, negou todas as informações contidas nos vídeos e imagens que deram origem à matéria. Quando questionado sobre a distribuição de cestas básicas contida em vídeo, Buzina afirma: “Esse vídeo… quem faz a distribuição de cesta é meu pai, toda cesta entregue foi para ação social. Não tem cunho politico”. Outro ponto apresentado pelas gravações são as consultas médicas. Sobre isso, o pré-candidato diz ser improcedente como instrumento angariador de votos, “inclusive o antigo hospital foi adquirido pelo meu pai e está em reforma, estão sendo analisados currículos de médicos para trazer especialistas”.
Após negar os fatos comprovados em vídeos e fotos, Franco Buzina confirmou que houve a festa para sua mãe, que lá havia sim faixa de seu partido, o PR, e a distribuição de brindes, mas que nada em relação à política. “Houve realmente a festa, mas não teve pedido de voto, ninguém é candidato ainda, nós sabemos as penas a que estamos sujeitos”. Franco Buzina encerra afirmando que todos os fatos são apenas denúncias do “outro lado”, e que em nenhum momento disse que seria candidato. “Inclusive eu não participo mais destas ações sociais, devido às convenções partidárias, desde fevereiro”.
Família Buzina: prática da política violenta

Conhecido como Chico Buzina, Francisco Alves Neto (pai do candidato) é frequentador assíduo do noticiário policial desde 1998, quando, junto com o irmão, ex-prefeito de Anicuns Valto Francisco Vieira, mandou matar o então vice-prefeito da cidade, Paulo Brito. O crime, no melhor estilo do antigo cangaço, foi em função da ascensão política de Paulo, jovem idealista que foi morto com sete tiros quando chegava na casa dos pais, no Setor Oeste, em Goiânia.
Buzina foi condenado e, depois de cumprir anos de cadeia, na penitenciária de Aparecida de Goiânia, passou para o regime aberto e está usando tornozeleira eletrônica e segue firme no propósito de reestruturar sua teia política, com candidaturas de parentes em pelo menos três municípios goianos: Anicuns, Avelinópolis e Nazário.
Relembrando o crime
Aconteceu na noite de 7 de janeiro de 1998. Chico Buzina havia concluído mandato de prefeito da cidade e, em campanha pela reeleição, simulou uma “desavença irreconciliável”, de acordo com os autos do Ministério Público de Goiás, com o irmão Valto, também candidato à prefeitura da cidade. Com a eleição de Valto, o vice Paulo Brito não demorou para entender que a suposta desavença não passava de uma grande farsa montada pelos irmãos. Daí ele instala uma espécie de governo paralelo e viu sua popularidade crescer. É quando os irmãos decidem matá-lo.
De acordo com o MP, Valto e Buzina contrataram como agenciador o policial militar reformado Izaías Clementino Barbosa, que pegou 15 anos de prisão pelo caso, em 2008. Izaías teria contado com a ajuda do irmão, o também policial militar Iraí Liberato Barbosa, condenado a 13 anos de prisão em 26 de março de 2009. Os PMs teriam agenciado o pistoleiro Joseano Batista dos Santos, que foi sentenciado a 8 anos de prisão. Chico Buzina, por sua vez, foi condenado a 17 anos de prisão. Ele já cumpriu parte da pena e está em regime aberto. Outro irmão de Valto, Valtuir Francisco Vieira, também era suspeito de estar envolvido no assassinato. Mas ele não chegou a ser julgado, pois a Justiça entendeu que não havia provas da participação dele no caso.