Candidatos fazem aposta errada em Goiânia?
Redação DM
Publicado em 31 de agosto de 2016 às 02:43 | Atualizado há 10 anosOs números não mentem. Certamente o leitor já ouviu esta frase de um professor de Matemática alguma vez na vida, assim como, provavelmente, pode ter ouvido que a estatística não costuma falhar. Feitas estas considerações, vale a pena refletir sobre os números da pesquisa Ibope publicada no dia 26/08 no jornal O Globo. O instituto fez entrevistas em 19 capitais brasileiras e constatou que a saúde é a principal preocupação dos brasileiros.
A pesquisa do Ibope não define se a preocupação dos brasileiros é exatamente com a saúde pública ou com a saúde em geral. Já levantamento realizado em dezembro pelo Instituto Datafolha, a pedido do Conselho Federal de Medicina (CFM), mostra que é ruim a avaliação dos brasileiros com a saúde privada prestada através dos planos de saúde: 42% dos entrevistados classificaram os serviços oferecidos pelas operadoras como péssimos, ruins ou regulares. “Isso mostra que a diferença entre os setores público e privado está cada vez menor e não por uma melhora do primeiro, mas devido a uma piora da saúde suplementar”, avalia o presidente do CFM, Carlos Vital.
Em Goiânia, no entanto, os principais partidos que disputam a prefeitura apostaram na segurança pública como mote de campanha. Este é o tema que estimula as candidaturas do delegado Waldir Soares (PR), da delegada Adriana Accorsi (PT) e que fez o ex-prefeito Iris Rezende (PMDB) escolher como vice o Major Araújo (PRP) e o deputado estadual Francisco Junior (PSD) ter como companheiro de chapa o coronel Pacheco (PTB).
Capitais
Ao responder à pergunta feita pelo Ibope: “Qual é a área em que, na sua opinião, a população da cidade está enfrentando maiores problemas”, 43% dos goianienses responderam que é a saúde, 23% definiram a segurança e 6% a corrupção. De acordo com a diretora do Ibope Inteligênica, Márcia Cavallari, enquanto outros temas, como inflação e desemprego, saíram do topo da lista de preocupações dos eleitores desde os anos 1980, a Saúde tem sido “um problema crônico”.
No Rio de Janeiro e em São Paulo, por exemplo, 54% do eleitorado apontaram o setor da saúde como problema mais grave. No Rio, o segundo lugar, segurança, teve 15%. Em São Paulo, a distância é ainda maior em relação ao segundo lugar, ocupado também pela segurança, com 9%. Mas a capital com a maior parcela de eleitorado crítico à saúde, entre os municípios pesquisados, é Aracaju, onde 61% dos eleitores entrevistados veem o setor como aquele com mais problemas, seguido da segurança, com 14%. A capital de Sergipe é seguida por Macapá, onde 59% dos eleitores do município se preocupam mais com a saúde; em segundo lugar no ranking das áreas mais críticas vem a segurança, com 10%.
Violência
Apesar deste diagnóstico, a violência é sim um tema que deve gerar debates e merecer atenção especial do futuro prefeito da capital, uma vez que Goiânia e Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana, aparecem juntas na 29ª posição do ranking das 50 cidades mais violentas do mundo, elaborado pela ONG Conselho Cidadão para Segurança Pública e Justiça Penal, do México. Dos 21 locais brasileiros que aparecem na lista dos mais violentos, Goiânia está na 11ª colocação.
Segundo dados divulgados pelo Observatório de Segurança da Secretaria da Segurança Pública e Administração Penitenciária de Goiás (SSP-GO), no ano de 2015 foram registrados 553 homicídios dolosos em Goiânia. Os números, entretanto, não levam em consideração as mortes inicialmente registradas como tentativa de homicídio, mas que evoluíram para homicídios em data posterior.
A estatística oficial também não considera homicídio o crime de latrocínio, que é o crime onde o bandido mata para roubar. Até outubro do ano passado, o número de latrocínios em Goiânia era de 18 ocorrências, o que mantém Goiânia entre as 30 cidades mais violentas do mundo.
Jovens e Mulheres
A triste estatística da violência em Goiânia abate mais jovens e mulheres. Entre 2004 e 2014, 53% (11.674) das vítimas de homicídio no Estado tinham entre 15 e 29 anos de idade, segundo o Atlas da Violência 2016. Nesse mesmo período foram executadas 21.742 pessoas no total em Goiás.
O estado de Goiás ocupa o 3º lugar no ranking de mortes violentas de mulheres no País, segundo dados do estudo “Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres”. Entre as capitais do País, Goiânia aparece na 5ª posição, com taxa de 9,6 homicídios de mulheres a cada 100 mil habitantes. Em 2003, as mortes violentas de mulheres foram 38. Já em 2013, o número chegou a 68.
Prefeitura
Se a população ainda não está satisfeita com o atendimento na área de saúde, a prefeitura ressalta que não tem faltado investimentos. Na semana passada (23/08), o prefeito Paulo Garcia inaugurou o Centro de Saúde da Família (CSF) Militão Rodrigues Araújo, localizado no Jardim Maria Helena, região Leste da Capital.
De acordo com o prefeito, esta é a 31ª obra na área de saúde entregue na sua gestão. Com o novo prédio, cerca de 12 mil pessoas de sete bairros serão beneficiadas. No dia 24/08, Paulo Garcia inaugurou outra unidade de saúde na região Oeste do município, no Bairro São Francisco. Fazendo um balanço, o prefeito lembra que foram reformadas ou ampliadas outras 20 unidades, que somadas às 31 inauguradas, correspondem a uma obra entregue a cada dois meses de trabalho.
Serviços
Como capital do Estado e cidade administrativa, Goiânia tem vocação para o setor de serviços de toda ordem, em especial, os serviços médicos. A capital de Goiás tem profissionais e unidades de saúde de excelência nas áreas de oftalmologia, traumatismo, cardiologia e neurologia e por isto os hospitais – públicos e privados – de Goiânia são procurados por pacientes de todo o Estado das mais diversas regiões do País, notadamente do Norte-Nordeste e Centro-Oeste.
É compreensível que a saúde apareça em primeiro lugar na lista das preocupações dos goianienses, que disputam espaços com pacientes de outras cidades e Estados nos Cais, Upas e nos hospitais estaduais como Hugo, HGG e HDT. A tarefa dos candidatos, portanto, será dupla: além de dar respostas para a escalada da violência, terão que apontar caminhos para a melhoria da qualidade dos serviços de saúde na cidade que pretendem governar a partir de 2017.
Tragédia
Enquanto fechava a edição desta matéria, o País tomou notícia da tragédia ocorrida na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde um pai de família teria assassinado a própria família e suicidado por problemas financeiros, dos quais o que mais lhe preocupava era não ter dinheiro para pagar o plano de saúde. Colunista da revista Época, a repórter Cristiane Segatto destaca um dos trechos da carta onde o pai fala sobre a aflição em relação ao plano de saúde. Para Cristiane, esta preocupação é comum para “1,5 milhão de brasileiros que deixaram os planos de saúde nos últimos 12 meses – a maioria porque perdeu o emprego”.
Para ela, ter um plano de saúde virou um dos principais objetivos dos brasileiros, mas “não deveria ser assim”. “Será que o Sistema Único de Saúde é tão ruim quanto parece? Será que os planos de saúde são tão bons quanto querem nos convencer?”, questiona a colunista. Repasso a mesma pergunta aos senhores e senhora candidatos a prefeito de Goiânia.