Congresso prepara sucessão de Temer
Redação DM
Publicado em 14 de dezembro de 2016 às 01:27 | Atualizado há 2 anos
O desgaste sofrido pelo presidente Michel Temer (PMDB) com as revelações contidas na delação premiada de ex-diretores da construtora Odebrecht e o agravamento da crise promoveram uma corrida nos últimos dias em Brasília para encontrar saídas negociadas e evitar um conflito civil. “Uma conflagração a gente sabe como começa, mas nunca como termina”, confidencia um dos mais destacados líderes do Congresso.
As notícias afloradas de que Temer pediu diretamente dinheiro para o presidente da Odebrecht agravaram a crise e mergulharam o governo ainda mais na areia movediça da política e da falta de credibilidade. Aliado a isso incorre o fato dos mercados não aceitarem as propostas do governo para que o País retome o crescimento e a estagnação seja a marca indelével desse final de ano.
Some-se a isso a possibilidade do Tribunal Superior Eleitoral aceitar as delações premiadas que incriminam Temer e a chapa com a presidente afastada Dilma Rousseff e declarar que a composição se valeu de dinheiro indevido para a campanha da reeleição de 2014. Isso agravaria ainda mais o quadro e tiraria toda a tênue sustentação que ainda existe para Temer e seus áulicos.
A retirada de apoio de partidos aliados provocaria um quadro ainda mais nebuloso para o governo, que não conseguirá – avaliam líderes aliados e da oposição – chegar inteiro à abertura do ano legislativo de 2017, que acontecerá em fevereiro. “A solução para isso será um acórdão geral para preservar instituições, a paz geral da nação e a governabilidade futura”, garante um deputado que ainda apoia o governo Temer.
Essa solução passaria por um acordo que já está sendo trabalhado nos bastidores e que contemplaria a manutenção do status quo para todos os envolvidos na distribuição dos nacos de poder em Brasília e preservaria a ordem institucional. “Todos deixam o governo e o Congresso faz uma eleição indireta já previamente acertada com um nome de consenso que aglutine as forças preocupadas com a governabilidade e com o bem-estar do povo brasileiro”, explica esse destacado líder do Congresso.
Conciliação
A saída, falam já com clareza alguns deputados, será uma renúncia coletiva dos ministros para uma composição geral que privilegie a governança pacificadora para o Brasil. Seria um “parlamentarismo à brasileira”, disfarçado e informal, mas que funcione para garantir a conciliação nacional e a volta à estabilidade política e econômica.
Essa eleição indireta firmaria o mandato definido até 2018, quando eleições gerais já convocadas constitucionalmente seriam realizadas e uma nova ordem política seja restabelecida.
A senha para isso foi dada por alguns e aprovada por outros líderes que formam opinião e decidem de forma antecipada como vai ser orientada a situação no Congresso, visando abafar a crise e manter a governabilidade que essa elite pensante do País deseja que vigore.
O nome que já surgiu nas especulações e que não teve arestas que possam inviabilizar esse processo de costura é um velho conhecido de Brasília: Nelson Azevedo Jobim, que tramita com desenvoltura em todos os setores dos poderes da República e já exerceu cargos relevantes que o credenciam para esse mister.
Nelson Jobim é gaúcho de Santa Maria, formado em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi advogado, dirigente da OAB-RS e professor universitário no Rio Grande do Sul. Foi deputado constituinte e reeleito deputado federal por seu Estado. Foi ministro da Justiça do governo FHC e indicado para o Supremo Tribunal Federal. Presidiu o Tribunal Superior Eleitoral e o próprio STF, por isso transita tão bem pelas esferas do Judiciário. Após se aposentar, foi ministro da defesa dos governos Lula e Dilma. Além de advogar em Brasília, atualmente é professor-adjunto da Universidade de Brasília. Jobim sempre pertenceu ao PMDB, mas era conhecido como o mais tucano dos peemedebistas, por isso tem trânsito livre com essas duas legendas. Por ter servido com alta performance ao governo Lula, ele circula bem na oposição e firmaria a percepção de que o PMDB não foi apeado do poder, mesmo que Temer seja defenestrado.
Um dos indicativos de que Michel Temer está caindo e que o Congresso já prepara sua sucessão de forma lenta e gradual é que a pauta mais nefasta está sendo feita agora, nesta semana. Além da PEC dos Gastos, será apreciada também a terceirização geral, inclusive do serviço público, e o projeto que amplia a criminalização para abuso de autoridade.
“É melhor preservar tudo, deixando ir os anéis para preservar os dedos”, sentencia um senador que já vê Temer pelas costas e na vala da história.