Direita resgata Carlos Lacerda em meio à crise política no Rio
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 3 de agosto de 2026 às 08:35 | Atualizado há 56 minutos
Carlos Lacerda volta ao centro do debate político como referência para setores da direita fluminense | Foto: Agência O Globo
Pré-candidatos e articuladores políticos vinculados à direita do Rio de Janeiro, mas não identificados com o bolsonarismo, têm evocado símbolos e o legado do jornalista e político Carlos Lacerda (1914-77), ex-governador da Guanabara, em meio à aguda crise institucional da política fluminense.
A crise envolve um ex-governador inelegível, substituído por um desembargador que ocupa a cadeira interinamente, e três parlamentares presos em sete meses sob suspeita de crimes, além de outros políticos investigados.
Reivindicar o lacerdismo, os apoiadores afirmam, é uma forma de resgatar o que entendem ser um período próspero do antigo estado e uma figura da direita brasileira que denunciou corrupção. Para opositores, Lacerda ficou marcado por respaldar conspirações e golpes, incluindo o militar de 1964, sobre o qual ele mudou de opinião tempos depois.
Projeto inclui relançamento da Tribuna da Imprensa
O resgate do lacerdismo envolve um projeto de relançar a Tribuna da Imprensa, jornal que ele fundou, além de menções a discursos e planos de gestão do ex-governador.
O candidato à Presidência Renan Santos (Missão) tem como programa de governo a “desfavelização”, que consistiria em remover ocupações ilegais e facilitar a aquisição de títulos de propriedade.
O partido chama a desfavelização de “A Batalha do Brasil”. O nome remete à campanha iniciada por Lacerda em 1948, em colunas no jornal Correio da Manhã: “A Batalha do Rio de Janeiro” envolvia a regularização fundiária e a urbanização de favelas.
Mais tarde, como governador da Guanabara entre 1960 e 1965, Lacerda liderou a remoção de famílias que moravam em favelas do centro e zona sul para outras regiões da cidade, principalmente a zona oeste. Assim foram fundadas comunidades como Cidade de Deus, Vila Kennedy e Vila Aliança.
“Lacerda é um cara de grandes obras de infraestrutura e um desfavelizador. A metodologia dele hoje em dia é polêmica, mas ele tinha uma visão de Rio de Janeiro que é bem próxima à visão do Missão”, afirma o candidato a deputado federal Victor Antoun (Missão).
Na campanha, Antoun defende a volta do estado da Guanabara. “É uma cidade que administra a decadência, às vezes melhor, às vezes pior, mas já não deixa a mesma marca que deixava para o Brasil, na comparação com os anos 1960 e 1970. Na minha campanha busco um pouco desta estética de época”.
Ex-integrantes do governo Castro fazem críticas
“O futuro se encarregará de demonstrar seu erro”, teria dito Lacerda ao então senador Daniel Krieger, quando este comemorou a prorrogação do mandato do presidente militar Castelo Branco até 1967. Era julho de 1964 e Lacerda, interessado em se candidatar nas próximas eleições diretas, morreria em 1977, ainda durante a ditadura, sem participar do pleito.
O advogado Bernardo Santoro, ex-presidente do IRM (Instituto Rio Metrópole) da gestão Cláudio Castro, se identifica com a frase.
O IRM, autarquia da qual Santoro foi presidente até 2022, foi alvo do Ministério Público estadual este mês, em denúncia contra 11 pessoas suspeitas de envolvimento em desvio de R$ 86,3 milhões. Seis foram presos. O governador interino Ricardo Couto fez auditoria no IRM e exonerou toda a cúpula na última segunda-feira (20).
“Tinha possibilidade de me reeleger presidente da autarquia. No entanto, pelo fato de não estar alinhado ao modo como Castro via o governo, com uma frouxidão moral e ética, acabei substituído por um presidente que, contra as regras da autarquia, foi eleito sem ter nível acadêmico compatível”, diz ele, candidato a deputado estadual pelo PSD.
O advogado Victor Travancas, ex-assessor de Castro que circulou em outras pastas do governo, é outro que afirma ter avisado ao então governador de erros que ficariam claros no futuro. Tratado como histriônico pelo núcleo duro do ex-governo, era ainda assessor na Casa Civil quando chamou um ex-secretário de “criminoso”. Meses depois, disse que o Palácio Guanabara seria “sede do crime organizado”.
Lacerda inspira discurso de pré-candidatos
Travancas se considera um lacerdista. Nos vídeos em que comenta a política fluminense, mostra ao fundo um quadro com retrato do ex-governador, comprado em acervo da família. Ele coleciona artigos relacionados ao político e usa óculos de armações grossas, ao estilo do jornalista.
“Penso na restauração da ideologia conservadora para o Brasil, baseado no que há de mais moderno nos partidos conservadores. Conservador em ideais, dentro dos princípios democráticos constitucionais. Não um conservador contra os direitos humanos, ou minorias. Isso é loucura”, diz Travancas.
Travancas virou advogado da campanha de Anthony Garotinho (Republicanos) ao Palácio Guanabara. O ex-governador é herdeiro do trabalhismo e foi seguidor de Leonel Brizola, opositor de Lacerda.
“O Garotinho está hoje muito mais parecido com o Lacerda do que com o Brizola, ou o Jango. Ele tem falado pouco de projetos sociais na pré-campanha, tem sido mais antissistema do que populista.”
Bernardo Santoro esteve com Castro ainda quando este era vereador e foi chamado para ser o vice do azarão Wilson Witzel (então PSC) nas eleições de 2018. Witzel fora eleito na esteira do bolsonarismo, mas sofreu impeachment e Castro assumiu a cadeira em 2021.
“Sinto alívio por não participar do governo e tristeza por Castro ter me traído e, mais ainda, ter traído os princípios do movimento de direita que o levou ao posto de governador do estado”, afirma Santoro.
Tribuna da Imprensa deve voltar a circular
Neto de Enaldo Cravo Peixoto, secretário de Obras da gestão de Lacerda à frente da Guanabara, Santoro comprou há alguns anos a marca da Tribuna da Imprensa, mantém o site de notícias ativo e planeja relançar o jornal até o ano que vem.
O diário fundado em 1949 serviu-lhe na ferrenha campanha contrária ao presidente Getúlio Vargas. Em 1962 Hélio Fernandes assumiu o periódico, que parou de circular em 2008. (Yuri Eiras/FOLHAPRESS)