Política

Ex-comandante da FAB relata pressão de Bolsonaro por apoio militar após derrota para Lula

Léo Carvalho

Publicado em 18 de agosto de 2026 às 13:53 | Atualizado há 53 minutos

Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da FAB relata bastidores do governo Bolsonaro em novo livro | Foto: Folhapress
Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da FAB relata bastidores do governo Bolsonaro em novo livro | Foto: Folhapress

ANA LUIZA ALBUQUERQUE / Folhapress – Ao fim de 2022, brasileiros seguiam normalmente com suas vidas sem saber que, em Brasília, reuniões a portas fechadas eram realizadas enquanto o então presidente Jair Bolsonaro (PL) buscava convencer os comandantes das Forças Armadas a apoiar uma ruptura institucional para reverter a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de outubro.

Os bastidores desses encontros são relatados pelo tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), no livro “Eu disse não – Uma trincheira antigolpista”, que será lançado no próximo mês pela editora Autêntica.

Já na reserva, Baptista Junior relata episódios ocorridos durante o governo Bolsonaro nos quais afirma ter se sentido desconfortável diante de tentativas de instrumentalização das Forças Armadas para objetivos políticos. Em um dos encontros após a derrota eleitoral de Bolsonaro, segundo o militar, o então presidente lhe disse: “BJ, eu já te dei dois cartões amarelos”.

Em entrevista por videoconferência, Baptista Junior afirmou que considerou iminente o risco de uma ruptura institucional após as eleições. Segundo ele, havia preocupação com a possibilidade de alguma iniciativa dentro do Exército que não estivesse alinhada à postura legalista adotada pelo então comandante da Força, general Freire Gomes.

O ex-comandante da FAB também negou que os comandantes das Forças Armadas tenham sido omissos diante dos protestos de apoiadores de Bolsonaro em frente aos quartéis. Segundo ele, a decisão de não retirar os manifestantes à força teve como objetivo evitar um possível confronto com derramamento de sangue.

Baptista Junior afirmou ainda que votou em Bolsonaro nas eleições de 2022. Segundo ele, a anulação das condenações de Lula antes do pleito representou uma quebra do Estado Democrático de Direito. Questionado se considerava necessária a condenação de Bolsonaro, porém, preferiu não avaliar a decisão judicial. “Esse é um problema do Judiciário e do mundo político, né?”, afirmou.

Ex-comandante da FAB relata pressão de Bolsonaro por apoio militar após derrota para Lula
Houve risco iminente de golpe, afirma ex-comandante da FAB no governo Bolsonaro | Foto: Isca Nóbrega

PERGUNTA – O senhor considerou em algum momento que havia um risco iminente de golpe?

CARLOS BAPTISTA – Achei. As Forças Armadas são muito grandes. Eu não sabia qual era a posição do almirantado. Eu sabia a posição do almirante Garnier [comandante da Marinha e, segundo ele, favorável ao golpe], a posição do Alto Comando da Aeronáutica, mas as pressões foram muito grandes em cima de todos os comandantes militares.

Eu temia por uma ruptura entre tropas, ou seja, alguma iniciativa que não estivesse alinhada com a decisão do general Freire Gomes, principalmente porque o Exército tem uma capilaridade muito grande.

PERGUNTA – O Exército não dispersou os protestos golpistas que se espalhavam em frente aos quartéis. E os comandantes das Forças publicaram uma nota condenando eventuais excessos dos manifestantes, mas fazendo críticas indiretas ao Judiciário. Por que os senhores não foram mais firmes naquele momento? Por que não acabaram com qualquer dúvida sobre a possibilidade de um golpe?

BAPTISTA – Nós demos diversas demonstrações de que não iríamos apoiar o golpe. A nota foi no dia 11 de novembro. Foi no auge do estresse. Foram diversas e cansativas reuniões tentando estudar uma maneira de um estado de exceção para não dar posse ao presidente eleito, sem que estivessem presentes os pressupostos básicos, seja para uma GLO [Garantia da Lei e da Ordem], para o estado de defesa ou para o estado de sítio.

Tínhamos informações de que poderiam tirar aquelas pessoas à força. Iria ter um mar de sangue lá. O objetivo foi evitar um derramamento de sangue, até porque nós sabíamos que já estava com uma probabilidade decrescente de pessoas, de mobilização.

Nós achamos que a nota estava no tom adequado para dizer: “Pode fazer manifestação pacífica. Não é para quebrar nada, não é para fazer arruaça”. E falamos para todos os lados: “Olha, eu acho que está na hora de todo mundo jogar o jogo da legalidade”.

PERGUNTA – Surpreende o senhor que agora, enquanto candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro coloque em xeque a lisura do processo eleitoral, repetindo o pai?

BAPTISTA – Não tenho dúvida. O populismo exige antes de mais nada a mobilização dos seus eleitores. É um erro do Flávio levantar esse aspecto. É reviver um problema que a sociedade discorda.

O presidente Lula, a mesma coisa, essa bandeira de soberania, de reduzir a relação diplomática com os Estados Unidos… Eu acho que são ferramentas perigosas para o processo eleitoral de uma sociedade já não bem informada, já muito calcificada em suas posições.

PERGUNTA – O senhor reclama no livro de ter recebido o rótulo de “o mais bolsonarista dos comandantes”. O senhor nunca se considerou bolsonarista?

BAPTISTA – Me considerei. Em primeiro lugar, eu achei que o cancelamento da ação que levou Lula à cadeia era uma quebra do Estado Democrático de Direito. Por outro lado, também achava que nós não tínhamos um candidato ponderado. E nós vínhamos de uma necessidade antissistema, com Lava Jato, com petrolão. O povo queria mudança.

Eu não fui o mais bolsonarista, mas votei no presidente Bolsonaro em 2018, por achar que a gente estava precisando de um banho de liberalismo, de liberdade econômica, de valores.

PERGUNTA – Em 2022 o senhor votou nele também?

BAPTISTA – Também.

PERGUNTA – O senhor disse que a anulação das condenações de Lula foi uma quebra do Estado Democrático de Direito. Mas, em 2022, já estava claro que Bolsonaro queria subvertê-lo. Ainda assim, o senhor achou que seria menos danoso votar nele?

BAPTISTA – Eu não tinha a certeza que você está dizendo, de que, se ele fosse eleito, iria subverter ou se tornar um ditador. Eu não tinha essa visão.

Eu acho que nós temos que sair desse círculo vicioso. Nós estamos escolhendo o que tem menos rejeição. Estamos escolhendo candidatos que não apresentam seus planos, que não sabemos o que querem.

PERGUNTA – Durante o governo Bolsonaro, o senhor curtia nas redes sociais mensagens de apoio ao ex-presidente ou críticas à esquerda. O senhor ainda avalia que essa postura foi adequada?

BAPTISTA – Em primeiro lugar, essas interpretações vêm de uma ferramenta que havia no Twitter de identificar quem curtia todas as mensagens. Isso foi tão danoso que o Twitter cancelou essa ferramenta.

As pessoas queriam interpretar por que eu curti. Eu poderia estar curtindo pela pessoa me responder, apenas por isso. Eu poderia estar curtindo pela pessoa estar se comprometendo a discutir um assunto.

Se fosse hoje, talvez eu não fosse curtir, mas eu tenho que ter liberdade para fazer isso. Eu tomava muito cuidado como comandante.

PERGUNTA – O senhor já considerou se fatores como esse endosso nas redes sociais, a nota que o senhor assinou em repúdio ao senador Omar Aziz [durante a CPI da Covid] ou uma certa proximidade mais informal com o presidente em momentos de crise institucional, como em um churrasco que o senhor narra no livro, podem ter contribuído para Bolsonaro acreditar que as Forças Armadas poderiam embarcar [no golpe]?

BAPTISTA – Eu nunca dei essa semente para o presidente ter alguma ideia de que eu embarcaria com ele. Isso eu estou muito tranquilo.

Eu nunca chamei o presidente Jair Bolsonaro de “você”. Eu tinha uma relação institucional. Churrasco, essas coisas, aqui em Brasília, nós temos eventos públicos que não querem dizer apoio a nenhuma quebra da lei.

Não tenho o menor arrependimento do que eu fiz. Nem de participar com ele. Fui um comandante de Força e um subordinado leal a ele em todas as tarefas que achava que deveria.

PERGUNTA – O senhor avalia que a pena do ex-presidente foi justa?

BAPTISTA – Me parece que, dos cinco crimes aos quais eles foram julgados e condenados, dois são muito próximos. Isso vale tanto para o núcleo como para os [condenados] do 8 de Janeiro. Acho que nós temos aí pela frente uma possibilidade de uma revisão dessas penas.

PERGUNTA – Mas a condenação do ex-presidente o senhor acha necessária?

BAPTISTA – Isso deixa para o Judiciário resolver, né?

PERGUNTA – Já resolveu, mas qual a avaliação do senhor?

BAPTISTA – Esse é um problema do Judiciário e do mundo político, né?

PERGUNTA – O senhor adota a posição de que os militares não formam um bloco monolítico. Mas, no fim, o STF condenou mais de dez militares da ativa e outros da reserva por envolvimento na tentativa de golpe. Como romper com a tradição de interferência das Forças Armadas na política?

BAPTISTA – Eu acho que isso vem sendo feito. A minha geração, que nasceu durante a década de 1960, por exemplo, não me parece disposta a ter para si essa responsabilidade sobre o Brasil, sobre o desenvolvimento, ou seja, ser o ator principal.

Acho que primeiro [é preciso] conhecer a história. Estudar e levar todo mundo a saber que não tem quebra da democracia por atalho. Logicamente, todos têm que estar dispostos a cooperar para isso. Às vezes, no Brasil, parece que tem gente que não está disposta.

Carlos de Almeida Baptista Junior assumiu o comando da Força Aérea Brasileira em abril de 2021, em meio a uma crise militar no governo Jair Bolsonaro. Deixou o cargo em janeiro de 2023, após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Baptista Junior ingressou na FAB em 1975 e foi promovido a tenente-brigadeiro em 2018. Seu pai comandou a Aeronáutica entre 1999 e 2003.

É autor do livro Eu disse não – Uma trincheira antigolpista, publicado pela editora Autêntica.


Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia