Herdeiros dos votos de Iris
Redação DM
Publicado em 27 de julho de 2016 às 02:03 | Atualizado há 1 anoIris Rezende tem uma marca invejável na política em Goiânia: jamais foi derrotado na capital. Em todas as eleições que colocou seu nome, sempre foi o mais votado na capital. Foi assim desde o início de sua carreira, quando foi eleito o vereador mais de Goiânia em 1958, o deputado mais votado na capital em 1962 e nas três eleições para prefeito em 1965, 2004 e 2008, quando venceu no primeiro com mais de 74% dos votos. Nas eleições para o governo do Estado (1982, 1990, 2010 e 2014) e para o Senado (1994 e 2002), Iris manteve o ranking de mais votado em Goiânia. Quem herdará este espólio eleitoral? O PMDB ou candidatos dos partidos adversários?
Chance de Vandelan
Alguns elementos indicam que o ex-prefeito de Senador Canedo Vanderlan Cardoso (PSB), pode ser o candidato natural a herdar o espólio irista. Assim como Iris, construiu uma imagem de bom administrador no período que governou o município vizinho. Assim como Iris é evangélico e fiel a este eleitorado – embora Iris, ao longo de sua carreira tenha transitado em todos os segmentos políticos, religiosos e sociais. Vanderlan também teve uma passagem no PMDB. Em 2010 disputou o governo pelo PR, com apoio do governador Alcides Rodrigues (PP). No segundo turno, seguiu Alcides no apoio a candidatura de Iris contra o senador Marconi Perillo (PSDB). No ano seguinte deixou o PR e filiou-se ao PMDB, objetivando ser o candidato do partido em 2014.
O namoro de Vanderlan com o PMDB durou pouco. Ele assinou a ficha do partido em 16 de junho de 2011 e deixou a sigla em 20 de junho de 2012, contrariado por não ter assumido o comando da legenda, como teria sido prometido na sua filiação. O empresário ficou sem partido até 2014, quando filiou-se ao PSB no dia 11 de maio de 2013 a convite do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, então candidato à presidência. Vandelan assumiu a vaga que era do empresário José Batista Júnior (Jr. Friboi) que trocou o PSB pelo PMDB, buscando candidatura ao governo do Estado pelo partido. E assim como Vanderlan, teve sua candidatura preterida na disputa interna do PMDB.
Independente do histórico conflituoso com o PMDB, Vanderlan precisa dos votos do partido, e principalmente do apoio de Iris para chegar à vitória nestas eleições. Nas duas disputas ao governo do Estado, o empresário canedense atingiu a marca de 24% dos votos na capital, concentrando o seu eleitorado nos bairros da região Leste, próximos a Senador Canedo. Vanderlan precisa dos votos de Iris na região Noroeste, onde o PMDB tem historicamente a maior votação a partir de bairros como a Vila Mutirão, Jardim Curitiba, Finsocial, Bairro da Vitória e adjacências. Não dá para vencer em Goiânia sem os votos da zona eleitoral 147 e também da zona eleitoral 136, as maiores da capital, com 164 mil e 186 mil votos, respectivamente.
Desafio de Waldir
O Delegado Waldir Soares (PR) não é ainda um político experimentado, mas também sabe fazer contas. Ele dividiu votos com Dona Iris na Região Noroeste, onde o seu discurso “bandido bom é bandido morto” foi bem recepcionado nas eleições para deputado federal. Seu desafio nestas eleições para prefeito é tentar manter a votação que teve em 2014 e atrair para si os votos do PMDB nestes bairros. Mas, diferente de próprio Iris, o Delegado Waldir não tem carisma. Ele é performático na internet, mas não tem a mesma performance no contato pessoal. Além de não ter a empatia de Iris, não tem a seu favor um histórico de bom administrador. O estopim curto também não ajuda. Na imprensa pipocam relatos de explosões de mau-humor do candidato, quando cutucado por quem não comunga com as suas idéias.
Política é feita para políticos. Waldir renegou o seu partido de origem, o PSDB. Saiu atirando no partido, nos dirigentes e virou as costas para o principal eleitor de sua antiga agremiação, o governador Marconi Perillo (PSDB). É muito difícil vencer atirando para todos os lados numa campanha curta como será esta. O pragmatismo que uma eleição exige, impõe ao candidato ao cargo majoritário a habilidade de fazer alianças. E isto parece ser algo além da capacidade de Waldir, que com o seu estilo de cavaleiro solitário promete fazer mais inimigos do que amigos neste pleito.
Dilema do PT
O PT do prefeito Paulo Garcia caminhou junto com o PMDB de Iris Rezende em duas eleições na capital, vencendo ambas em 2008 e 2012. A desistência de Iris pode fazer os partidos reatarem a velha aliança em Goiânia? Em tese sim, mas há um complicador: o processo do impeachment da presidenta Dilma Roussef (PT-MG) levado à frente com apoio da bancada do PMDB de Goiás. Prefeitável do PT, a delegada Adriana Accorsi foi a mulher mais votada em Goiânia. Dos 44 mil votos que teve para deputada estadual, 33 mil foram na capital, e destes, 70% nas regiões Noroeste e Leste, cujos bairros tiveram intervenções positivas durante a administração de seu pai, o saudoso prefeito Darci Accorsi (1993-1996). Do ponto de vista do eleitorado destes bairros, há muita convergência numa aliança entre os dois partidos. A capacidade política de superar adversidades é que será posta a prova até o dia das convenções.
Oportunidade para Bruno
Presidente Metropolitano do PMDB, o deputado estadual Bruno Peixoto, em tese, é o herdeiro natural dos votos de Iris Rezende. A história mostra, no entanto, que caudilhos geralmente não deixam herdeiros. Os votos de Iris são mais de Iris que do PMDB. Embora toda a sua trajetória política tenha sido construída no partido, a obra política do írismo extrapola o partido que lhe deu sustentação. Não fosse assim não teria sido possível Iris transitar em pólos tão distintos da política como em 1982, quando foi apoiado à esquerda pelo PC do B de Aldo Arantes e Euler Ivo e do PDS, recém desembarcado no PMDB, com o ex-governador Irapuam Costa Júnior e seu grupo. Em 1990, Iris recebia o apoio do PFL de Wolney Siqueira ao seu retorno ao Palácio das Esmeraldas e em 2008 fechava aliança com o PT.
Bruno Peixoto já foi vereador na capital, está no seu segundo mandato na Assembléia Legislativa e tem uma das máquinas partidárias com maior capilaridade em Goiânia. Mas numa disputa onde foram limitados o tempo e o dinheiro, o que conta é o conhecimento do eleitor sobre os candidatos. Neste quesito, Iris levava ampla vantagem sobre todos, pois era o nome mais conhecido do eleitor goianiense. Seus concorrentes, também estão melhor colocados, pois tiveram mais tempo de exposição na mídia como pré-candidatos. Bruno pode superar estas adversidades se conseguir convencer o ex-prefeito a subir no seu palanque e gravar declarações em seu apoio para o programa eleitoral de rádio e TV. A pergunta é: Iris vai se comprometer com algum candidato, mesmo que seja de seu próprio partido, o PMDB?
Recuo
A tendência é que Iris não suba no palanque de ninguém. Seu afastamento da política pode não ser definitivo, mas estratégico. Pessoas próximas do líder peemedebista atestam que sua desistência em disputar estas eleições se deu pelo cenário conturbado da política brasileira. Quem já disputou tantas eleições como Iris, Ronaldo Caiado, Marconi Perillo, Lúcia Vânia, Roberto Balestra, Vilmar Rocha e outros decanos, sabe de onde vem o dinheiro que financia as campanhas. No moralismo (ou seria morolismo?) da Operação Lava Jato, não escapa ninguém que disputou eleições desde a redemocratização.
Iris recuou de disputar a prefeitura de Goiânia para tentar outra vez o governo do Estado nas eleições de 2018? Esta é uma das hipóteses admitidas por muitos iristas. Em 2018 o governador Marconi Perillo não poderá ser candidato à reeleição. O marconismo terá completado 24 anos ininterruptos de mandonismo na política goiana. Será a oportunidade para a volta do irismo? É o que acreditam alguns iristas.
A tendência nestas eleições é Iris acompanhar de sua fazenda no Xingu (MT) o desenrolar dos acontecimentos em Goiânia. Os votos iristas terão que ser disputados um a um pelo candidato que tiver mais competência para entender o que pensa e o que espera este eleitor do próximo prefeito.


