Política

Igreja mostra que Deus combina com qualquer um

Redação DM

Publicado em 14 de julho de 2016 às 17:33 | Atualizado há 10 anos

Que existem homossexuais no mundo, isso não é segredo pra ninguém. E nem novidade, já que basta dar uma olhadinha na história da humanidade para perceber que esse comportamento é mais antigo do que andar pra frente. Na Grécia Antiga, por exemplo, o envolvimento de pessoas do mesmo sexo chegava a possuir função pedagógica.

Acontece que, e ainda comentando a história, com a assimilação do valor estritamente procriador do sexo, disseminado pela cultura judaica e com o fortalecimento do Cristianismo, a imagem negativa e pecaminosa do envolvimento amoroso/sexual entre pessoas do mesmo sexo foi tomando o imaginário popular de modo que o assunto se tornou um tabu.

Mas, como se sabe, não basta deixar de falar em algo para que a cosia deixe de existir. Assim, mesmo severamente repreendidos pelas convenções morais e religiosas da sociedade, os seres humanos continuaram se interessando por pessoas do mesmo sexo. Até porque a sociedade contemporânea não é mais dominada pelo medo de um Deus-carrasco, que irá levar ao fogo eterno aqueles que desobedeçam suas regras de conduta.

O fato é que a criminalização religiosa da homossexualidade comprometeu de algum modo o relacionamento desses indivíduos com a espiritualidade, com a religião e mesmo com o que entende-se por Deus.

Ao que tudo indica, entretanto, o jogo está, aos poucos,  virando. É o que se observa no Distrito Federal com o nascimento de igrejas evangélicas inclusivas que possuem discurso de acolhimento ao público LGBT.

Com cerimônia e rituais em nada diferentes das demais igrejas do mesmo segmento, essas aceitam a união de pessoas do mesmo sexo e o discurso dos pastores é contextualizado com a realidade dos frequentadores do local.

Acostumados a ser constantemente vítimas de julgamentos, humilhações e discursos de ódio embasados nas escrituras sagradas, consideradas a palavra de Deus, o público LGBT encontra nessas igrejas o oposto: ouvem que Deus as ama e que elas podem ter um relacionamento saudável com a divindade, sem se sentirem criminalizados ou marginalizados.

Ao contrário do que se pode imaginar, essas igrejas possuem discurso contrário à promiscuidade e prostituição, assim como as igrejas tradicionais, algumas até condenando o sexo antes do casamento.

Entretanto, outras igrejas do mesmo segmento, que tratam o homossexualidade como uma doença que deve ser eliminada, vêm criticando e negando reconhecimento às igrejas inclusivas. Os seguidores da vertente tradicional consideram que a igreja inclusiva desvirtua as escrituras sagradas do modo que julgam conveniente para acobertar interesses pessoais de seus membros.

Isso acaba por segregar o segmento protestante, já que as igrejas inclusivas,  que à priori apenas acolheriam, dentre os demais seguidores, também os homossexuais, acabam por se tornar igrejas “exclusivas” destes últimos, tendo em vista que o segmento tradicional não reconhece a identidade da nova igreja.

De um lado, pastores justificam com recortes da bíblia que a “pederastia” é pecado grave Do outro, pastores outros defendem que nunca houve, da parte de Deus, a ideia de exclusão e que Deus combina com qualquer um. Enquanto o impasse não se resolve, mais pessoas se identificam com o discurso das as igrejas inclusivas, que crescem em quantidade de adeptos e firmam o terreno da sua existência.

Religiões que acolhem as diferenças

Diferentemente do protestantismo, que é subdividido em vertentes várias, de acordo com a realidade e as crenças de seus seguidores, outras religiões, acolhem os homossexuais no seio de sua vertente principal, e estes convivem harmoniosamente com os demais seguidores.

Iury Sparctton, 25, professor, é um exemplo. Homossexual assumido e bem resolvido, Iury frequenta a religião Umbanda. No centro no qual desenvolve atividades mediúnicas todos sabem e respeitam sua condição. “Na umbanda nós  aprendemos a aceitar as diferenças, a religião prega isso”, explica ele.

Iury esclarece que Umbanda significa “manifestação do espírito em prol da caridade”, logo, renegar um irmão por ser homossexual seria contradizer a essência da religião. “Umbanda faz parte de uma comunidade oprimida, sua história por si só é de opressão. A umbanda e seus seguidores tem conhecimento de causa sobre o que é sofrer preconceito, dai por conta disso a gente evita praticar preconceito”, comenta ele.

Ele assegura que, por conta de a própria religião ser minoria social, os adeptos se unem em prol da caridade e do amor. “Isso é umbanda, uma banda. Um único povo, livre de preconceitos e padrões. Onde tem amor e caridade, tem umbanda”, finaliza.

Marcos Costa (nome fictício), também possui uma história de acolhimento por parte da religião. Ele e o marido frequentam um centro espírita kardecista da capital, no qual são bem tratados e acolhidos por todos. “Todos sabem que somos um casal, embora sejamos discretos. Nunca fomos repreendidos por ninguém ou sofremos qualquer tipo de preconceito dentro da casa espírita. No espiritismo nós entendemos que somos espíritos, e que o espírito não tem sexo definido, logo, nos apaixonamos um pelos espíritos dos outros, não pelo gênero. Além disso, desde quando amar é errado?”, avalia ele.

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia