Justiça

Padre é investigado por estupro de menor no DF

O jovem foi vítima de abusos durante seis anos e seis meses

diario da manha

O padre Delson Zacarias dos Santos está sendo investigado após acusação de estupro vulnerável de adolescente pela Polícia Cívil do Distrito Federal (PCDF) por meio da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA).

Os abusos começaram quando o jovem tinha apenas 13 anos e os episódios teriam acontecido entre os anos de 2014 e 2021. Segundo ele, os abusos eram quase que semanais e duraram seis anos e seis meses, até o momento que resolveu denunciá-lo.

Em 2014, o sacerdote começou a assediá-lo em uma festa de casamento, “Você se masturba ou assiste pornografia?”, questionou. Apesar do garoto responder “não”, o padre insistiu e pediu para que o jovem abaixasse as calças, neste momento o garoto ficou assustado e resistiu.

“[…] ele me disse para não ter medo, que ele não faria nada. Nesse momento fiquei assustado, mas confiei. Abaixei as calças e ele tocou no meu pênis. Ele notou que fiquei em choque e pediu que eu levantasse as calças. Depois, voltei a me sentar no sofá em que eu estava. Ele, então, me pediu desculpas e disse que eu não precisava contar nada para os meus pais e que aquilo não aconteceria novamente”, revelou.

O jovem ainda relembra que acreditou na sinceridade do padre de que não ocorreria novamente, e mesmo sabendo que o acontecido era um abuso na época não entendia como assédio.

Duas semanas seguintes, o sacerdote o convidou para o quarto de visitas e pediu que ele se deitasse na cama para que fizesse uma massagem. “Ele me prometeu que não faria nada. Confiei e deixei. Então, eu tirei minha camisa e deitei”, relatou o jovem. Disse que durante a massagem pegou no sono e quando acordou estava sem o short e o padre estava o alisando.

“Me dei conta e pedi para me vestir. Ele disse para eu tomar banho e ‘brincou’ dizendo que ia tomar banho comigo, mas eu disse que não. Depois me deu uma toalha limpa e sabonete lacrado e disse mais ou menos assim: ‘Vou tomar banho com você, hein? Estou brincando’. Após o banho me vesti e fui para casa, com um pedido dele: que não contasse a ninguém o que tinha acontecido.”

“Sem muitas insistências”

O jovem conta que nunca esteve confortável com os abusos, mas sempre se sentiu coagido à fazer o que padre pedia. “Por diversas vezes, eu dava um basta e pedia que a sessão de massagens e abusos parassem, o que na maioria das vezes era respeitado sem muitas insistências”, relatou.

As práticas de “massagem” chamadas pelo padre “papo bed” (papo na cama) evoluíram para a masturbarção no momento em que estavam sozinhos.

“Ele me colocava na cama, me molestava, abusava e fazia sexo oral para me excitar, o que era inevitável. Em certos momentos, picos de raiva subiam sobre mim, o que me faziam elevar meu tom de voz. Eu falava que não queria mais aquilo”, recorda.

Segundo Metrópoles, o rapaz o considerava como um pai, recebia presentes dele e o enxergava como “uma boa pessoa”.

“Por muitas vezes ele dizia que me tinha como um filho. Quando eu ficava irritado com os abusos e falava bem sério com ele, ele reconhecia sua falha e sempre me prometia que iria parar, mas sempre voltava a fazer”, contou o jovem.

Em 2017 o abuso ficou intenso, o padre começou a estuprá-lo. “Fiquei sem reação quando ele tirou as calças. Senti meu coração bater forte. Ele forçou a penetração, sem preservativos. Aquilo doía muito”, relembra o rapaz.

“No início eu pedia para parar, depois de um tempo não tinha mais voz para conter as ações e tudo o que eu fazia era deixar a consciência dele trabalhar e perceber o mau que estava fazendo. Eu deixava, não porque gostava, mas porque aceitar e ficar em silêncio era menos dolorido do que fazer força para dificultar o ato”, contou.

O rapaz ainda afirmou que às vezes acordava com o padre tirando fotos dele nu, “outras vezes passando o pênis no meu corpo, beijando meus lábios e me depilando. Ele me fez ejacular diversas vezes, e preservava meu esperma em um paninho de limpar óculos e meus pelos em um pote”, revela.

Já no início de 2021, em uma das sessões de massagem, o abuso se repetiu. “Ainda com roupa, ele passava a bunda dele sob meu pênis e insinuava uma penetração, tirou sua calça e continuou, mas quando tentou tirar minha calça eu me levantei. Ele me virou de bruços, tirou minha calça, eu coloquei o travesseiro sob minha cabeça e deixei que a consciência dele agisse”, disse.

Desde este fato, o jovem decidiu se afastar do padre e decidiu denunciá-lo à polícia. O caso está em segredo de Justiça.

O advogado do padre, Everton Nobre afirma não ter recebido formalmente as informações do caso. “No final da semana passada, ele foi informado, mas nada documentado, de que havia uma investigação e que iriam afastá-lo. Então, ele não está nas atividades da paróquia e está aguardando essa comunicação formal do que pesa contra ele, do que se trata isso, porque é difícil você se manifestar sobre algo que você não tem conhecimento”, disse.

Quando questionado sobre a declaração do padre diante das acusações, o advogado afirmou, “Eu não entrei nesse mérito com ele, porque eu só posso conversar com ele com relação a isso quando eu tiver acesso a quem é esse menor, quando que aconteceu, como aconteceu, quem seria, qual a localidade. Então, eu não tenho como prestar informações do mérito desse assunto se eu não tiver em posse do que pesa contra ele”.

O defensor diz que irá até a Delegacia de Proteção à Criança e do Adolescente (DPCA I) tentar obter cópia da ocorrência, para tomar conhecimento formal do caso.

Padre afastado do ofício

A Arquidiocese do DF afirmou que a igreja está prestando assistência protetiva e psicológica aos envolvidos, e que começou um processo de investigação. Também já decretou o afastamento do padre de seu ofício sacerdotal após vinte anos de atividade religiosa.

“O Sr. Arcebispo de Brasília, Dom Paulo Cezar Costa, ao tomar conhecimento da acusação de abuso sexual contra menor feita em desfavor do Pe. Delson Zacarias dos Santos, providenciou prontamente o seu afastamento cautelar da função paroquial, determinando o afastamento preventivo do seu ofício sacerdotal até o efetivo esclarecimento dos fatos impróprios apontados, e deu início à chamada ‘investigação prévia’, atualmente em curso.

Além disso o Arcebispo, recebeu a suposta vítima e seus familiares em audiência, acolhendo e manifestando sua proximidade de pastor, prestando assistência protetiva e psicológica aos envolvidos, zelando e expressando o compromisso da Igreja com a proteção de crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis, em consonância com as normas eclesiásticas promulgadas por São João Paulo II, e completadas pelo Papa Bento XVI e, mais recentemente, aperfeiçoadas pelo Papa Francisco, no Motu Proprio Vos estis lux mundi.

A Igreja de Brasília conta com uma Comissão Arquidiocesana de Proteção de Menores e Pessoas vulneráveis, presidida pelo Padre Carlos Henrique. Nosso compromisso é cuidar que os ambientes de nossas comunidades sejam seguros e confiáveis para as crianças e adolescentes, acolher as vítimas e as testemunhas de eventuais abusos com todo o respeito e cuidado. Nada mais para o momento.

Do Gabinete Episcopal
Sede da Cúria Metropolitana de Brasília-DF, 08 de julho de 2021″

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