Política

Marconi e a indigência teórica da oposição

Redação DM

Publicado em 23 de março de 2017 às 01:58 | Atualizado há 9 anos

Recentemente li um artigo interessante de Afonso Lopes analisando o fato de que a ausência de formuladores na base de apoio do governo Marconi esgotou o manancial de ideias e criatividade na capacidade de governar como nos primeiros anos de seu mandato e não o alimenta mais de propostas inovadoras além de um voluntarismo vazio. Não existe mais uma entourage capaz de turbinar seu governo e essa fonte de ideias acabou se concentrando agora nele mesmo, no próprio Marconi.

Duas pessoas que ele cita, Giuzeppe Vecci e Thiago Peixoto, que teriam essa capacidade de formulação, já não cumprem mais essa missão, estão em outras tarefas. Agora, é ele, Marconi, é que tem que se reinventar.

A analise do articulista em questão acerta no varejo e erra no atacado. Acerta no varejo porque aponta com propriedade esse processo que acabou acontecendo durante esses anos por concentrar em Marconi como a única pessoa capaz de formular politicas e projetos que renovam seu governo. Contudo, erra ao não cavar mais fundo indo mais além na matriz de pensamento que deu concepção e traçou os rumos dos primeiros anos do governo de Marconi: a concepção santillista de governar fruto de um intenso trabalho de formulação brotado nas hostes da Fundação Pedroso Horta. Erra ao acreditar que estariam na capacidade pessoal de Giuseppe ou do Thiago Peixoto forjar um processo de retomada na produção de ideias e propostas. Thiago Peixoto não tem e nunca teve um agrupamento de pessoas que lhe desse sustentação teórica e Giuseppe herdou o legado de uma matriz de pensamento engendrado pelos remanescentes da Fundação Pedroso Horta. Pode parecer estranho isso, pois, causa ojeriza ate hoje em algumas pessoas citar o nome da Fundação Pedroso Horta.  Muitos subestimaram o trabalho teórico deixado pela FPH. Como disse uma vez Batista Custodio sobre o governo Santillo: é preciso explicá-lo. A Fundação Pedroso Horta é preciso entende-la. Ambos concretizaram uma inflexão na politica de Goiás. Apesar de sofrer um bombardeio acirrado por parte dos iristas a Fundação Pedroso Horta que conseguiu aglutinar mais de 80 intelectuais de diversas áreas construiu um modelo teórico identificado com o pensamento de Santillo que deu direção a seu governo e acabou por moldar os primeiros anos do governo Marconi. Foi a única experiência em Goiás de agrupamento de intelectuais orgânicos que vingou, pois tinham militância partidária e inserção nos movimentos sociais, especialmente, no movimento comunitário em Goiânia. Em sua grande maioria estão participando do governo até os dias de hoje, haja visto a presença de Carlos Maranhão, Giuseppe, Nelson Guzzo, Julio Cesar, Jose Duarte, Marco Antonio Sperb, Faleiros e tantos outros que participam do governo, além, é claro, do proprio Marconi que também participava de seus quadros. É verdade que esse agrupamento vive nos dias de hoje uma marginalidade crescente no governo de Marconi não exercendo mais nenhuma influencia de relevania enquanto agrupamento na definição de seus rumos e, talvez seja exatamente por isso, que Afonso Lopes nota a ausência de um grupo de formuladores em seu bojo. Mesmo porque, esse afastamento se explica, pois,  enquanto no governo Santillo sustentavam proposta com conteudo politico mais a esquerda, agora, sob a batuta do PSDB as teses são outras, com forte influencia das políticas de corte neo-liberal. A gestão tomou lugar do planejamento. A inclusão social e correção dos desiquilibrios regionais de renda deu lugar para as  privatizações, conseções e Organizações Sociais na gestão dos serviços de incumbencia do Estado. Para renovar o pensamento e formular novas propostas dentro do contexto da ortodoxia neo liberal Marconi teria que forjar um novo agrupamento de pessoas. Aquele agrupamento de intelectuais orgânicos lá dos tempos de Santillo, no sentido grasmiciano, já não existe mais e, certamente, constitui  um dos grandes problemas da politica goiana. Essa ausência não é só em relação ao governo Marconi, mas, pode se sentir  com muito mais razão em relação  a própria oposição.

Na semana retrasada um fato inusitado aconteceu na politica em Goiás e, para surpresa minha, teve pouca repercussão: a direção estadual do PT se reuniu com o presidente do PMDB Daniel Vilela para retomar a politica de alianças visando as eleições de 2018. Ora, o PMDB não é o partido do golpe? Como pode o PT se juntar aos golpistas? Ultrapassaram os limites da moralidade e da ética! Não se faz politica mais tendo como referencias princípios! É puro oportunismo e fisiologismo!

O pouco que entendo de politica as alianças são feitas em cima de um projeto e nesse caso, como ninguem tem projeto de sociedade e nem projeto estrategico para o estado de Goias, o que vale, em ultima instancia é o projeto de poder mesmo. E só.

O PMDB sempre menosprezou os formuladores, os intelectuais orgânicos nunca tiveram espaço em suas hostes partidarias. No PT, acabou objetivamente por acontecer o mesmo, apesar, das expectativas terem sido outras. Também não deu espaço e não privilegiou a formulação de um projeto estratégico nem para as cidades que governaram, haja visto o que aconteceu em Goiânia e muito menos conseguiu formular um projeto para Goiás. Nessas circunstancias marchamos para as eleições de 2018 com um vazio estonteante de ideias e propostas. Nem a situação e nem a oposição vão apresentar nada de novo e vai com certeza prevalecer a indigência teórica como regra.  Sabe lá o que pode acontecer se não aparecer uma proposta alternativa e um novo agrupamento politico, certamente, vamos observar a degradação da politica ainda mais.

 

(Fernando Safatle, [email protected])

 

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