Nova vitória de Demóstenes
Redação DM
Publicado em 28 de março de 2018 às 02:32 | Atualizado há 8 anos
O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, concedeu ontem a chamada “tutela de urgência”, ou seja, uma liminar ao procurador de Justiça Demóstenes Torres. A decisão atende a reclamação de Demóstenes, que pediu para anular a resolução número 20 de 2012, na qual o Senado informava sua cassação. Ao STF, foi pedida a volta ao mandato e, alternativamente, o afastamento da elegibilidade – ser possível a candidatura ainda em 2018. Um dos argumentos para pleitear a liminar está em uma expressão em latim, periculum in mora, o perigo da demora: por integrar o Ministério Público, Demóstenes precisa tirar licença no mínimo a seis meses da eleição de 7 de outubro.
A reclamação foi protocolada no dia 1º de março. Nela, Demóstenes conta em que circunstâncias ocorreu a sua cassação: após 250 mil horas de gravações clandestinas, começou o vazamento de áudios do então senador com personagens das operações Vegas e Monte Carlos, entre eles o empresário Carlos Augusto Ramos, cujo apelido, Carlos Cachoeira, batizaria a Comissão Parlamentar de Inquérito aberta para apurar o caso. Não houve apuração alguma, o resultado da CPI coube num tuíte (280 caracteres) e Demóstenes acabou sendo a primeira vítima de fake news, o termo agora famoso na fermentação de notícias falsas.
Na peça que levou ao Supremo, é contada a via-crúcis de Demóstenes. Das 250 mil horas de áudios, alguns ficaram famosos e renderam ao então senador o número estimado de 1 bilhão de postagens. Demóstenes sempre disse não ter cometido qualquer crime nem quebrado o decoro parlamentar. Duvidava-se dele, até que o respeitado perito forense mais famoso do Brasil, Joel Ribeiro, divulgou laudo de análise de alguns trechos. O perito encontrou fraudes em todos os áudios. Já se passaram cinco anos e meio desde que Demóstenes, na Tribuna do Senado, leu o laudo do perito e ninguém o desmentiu.
Para seguir o calendário eleitoral, o Supremo precisa julgar o mérito da reclamação de Demóstenes para que, dependendo do resultado da eleição, ele seja diplomado e tome posse.
LEIA TRECHO DA RECLAMAÇÃO APRESENTADA AO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Se aqui nesta peça ele é o ora Reclamante, para grande parte do País, Demóstenes Torres é sinônimo de Senador.
Em detalhes importantes como esse, residem as causas de ter sido cassado, mesmo avisando centenas de vezes, inclusive para as Senhoras Senadoras e os Senhores Senadores, que estava sendo vítima de um erro.
A defesa então apresentada ao Senado argumentou acerca da ilegalidade do que os algozes chamavam de provas. Mas ao fim, após quase quatro anos (de 25/5/2008 até 27/2/2012) de escutas clandestinas e mais cinco anos de cobertura incessante em todos os meios de divulgação, triunfou a verdade, expressa pelo Supremo Tribunal Federal.
Mas as verdades são várias. Eis algumas:
- a) o País perdeu com a ausência de Demóstenes Torres no Senado;
- b) os acusadores, entre os quais alguns que pouco depois se revelaram personagens do maior escândalo de corrupção da História do Brasil, tiveram uma vitória de Pirro ao cassar alguém que não estava indiciado, processado e, mesmo assim, foi condenado no âmbito do Senado Federal;
- c) mesmo os mais cruéis acusadores, sedentos da ausência de Demóstenes Torres, jamais o acusaram de desviar dinheiro público, e ainda assim tentaram transformá-lo em vilão;
- d) mesmo após quatro anos de investigação clandestina, utilizando servidores e recursos públicos, nada se conseguiu provar contra Demóstenes, até porque não havia o que provar;
- e) após a quase meia década sendo investigado clandestinamente por forças públicas federais, foi a vez de órgão público regional, o Ministério Público de Goiás, esmiuçar a vida de Demóstenes Torres. Se autoridades federais usurparam competência, as estaduais poderiam muito bem se sentir autorizadas a usurpar paciência. Como novamente nada havia a ser descoberto, nada se descobriu. E não faltaram atenção aos detalhes, nem tempo, nem recursos públicos (imagine-se – e o único jeito é imaginar, pois não houve prestação de contas acerca dos custos desta perseguição – o volume de verbas gasto com essa ignomínia);
- f) não se revelou o número de agentes envolvidos na nova investigação, mas a conclusão não poderia ser outra: o padrão de vida, os gastos e o patrimônio de Demóstenes Torres e de seus familiares eram inferiores a seus rendimentos, conforme prova perícia realizada pelo Ministério Público de Goiás.
- g) na manhã de 12 de julho de 2012, um dia após o espirro de Pirro dos que cantaram vitória com a cassação de seu mandato, Demóstenes Torres foi à movimentada Estação Rodoviária de Goiânia. Andou pelo Araguaia Shopping. Foi tirar novas vias de seus documentos nas diversas instituições instaladas no VaptVupt, um órgão que concentra desde a Polícia Federal até companhias de saneamento e energia elétrica.
- h) Relembrando: Demóstenes Torres estava sendo massacrado pelos meios de comunicação havia 162 dias. As mídias sociais hegemônicas na época eram Twitter e Facebook. Não há mecanismo de aferição para emitir dados conclusivos, mas calcula-se que a palavra Demóstenes tenha “estrelado” mais de 1 bilhão de tuítes e postagens no Facebook. Um bilhão! Havia sido capa de milhares de revistas e jornais impressos e, mais ainda, de publicações virtuais, como blogs e sites. Se somado o tempo de cobertura de rádios e TVs, mídia indoor em lugares públicos como aeroportos e até cemitérios, daria para refazer Brasília com as horas gastas na cobertura da tentativa de execração de sua imagem.
- i) Somem-se os itens g e h e aparece uma pergunta: Demóstenes deve ter sido vaiado e xingado com todos os palavrões possíveis na rodoviária, no shopping e nos órgãos públicos, certo? Errado. Selfies já eram moda e Demóstenes posou para centenas delas. Deu autógrafos. Foi abraçado. Elogiado. E ouviu naquela manhã o que lhe repetiriam nos demais dias desde então: “O que fizeram com o senhor foi uma injustiça”.
- j) Injustiça, injustiça, injustiça. As pessoas repetem porque a injustiça perdurou até a decisão final da Suprema Corte. De 25/10/2016 em diante, não é mais apenas injustiça – agora, é desrespeito ao poder. Antes, era injustiça contra um homem; agora, é assalto à autoridade de um Poder. No início, autoridades sem atribuição ou competência usurparam a competência do maior Corte do País; agora uma Casa de Leis se faz de surda mais límpida e forte do ordenamento jurídico do País. Quando nem mais o Supremo Tribunal Federal é ouvido, a democracia se torna um mugido. Mas o alheio chora seu dono. Um lamento se ergue e vira música, cuja letra é o poema de loas ao Estado Democrático de Direito cujo título é “RHC 135.683/GO”.
- k) A injustiça faz o homem cumprir as etapas da Divina Comédia. Já se vive o Purgatório. O Paraíso está no respeito à Constituição, pois o anúncio do Inferno é o desrespeito a seu guardião, o Supremo Tribunal Federal.
- l) Só o talento de Dante Alighieri para descrever o sofrimento de um inocente ao ver a neta lendo na internet os excertos criminosamente vazados pelas mesmas forças oficiais usurpadoras de competência. A menina, que tinha no avô um espelho, era levada a dúvidas: a mesma voz que acalentava, a colocava para dormir, a ninava, estava ali num áudio editado pelos linchadores da honra. A menina nunca duvidou, pois conhecia o homem com quem seus pais e tia conviviam. Mas era impossível conter as lágrimas do avô ao observá-la lendo o que Dante certamente incluiria no Inferno caso em seu tempo existissem as fakenews.
- m) A fé em Deus, as orações com fiéis dos mais diferentes credos, a confiança da família, a solidariedade dos amigos e o afago constante do povo na rua fizeram com que Demóstenes superasse o que nem Dante conseguiria descrever: a sensação de que ser inocente não basta.
- n) A luz da razão está acabando com as trevas. A neta, agora pré-adolescente, já sabe que o avô é autor, coautor e/ou idealizador de 189 leis incluídas daquele livro que o tio acadêmico tem sobre a mesa, o Vade-mécum. Os filhos, tripé fundamental para sustentar a sanidade e a vontade de viver, acompanharam desde a primeira infância o protagonismo do moço que foi o mais jovem chefe de Ministério Público do País, o mais jovem presidente do Conselho Nacional de Procuradores Gerais de Justiça do Brasil, o secretário de Segurança Pública e Justiça que mais proporcionou ambas ao Estado de Goiás. Agora, os três filhos estão assistindo o sopro que faz das cinzas vida renascer o líder vocacionado para ser farol que guia, não a montanha que gesta ratos e afunda naus.
- o) Demóstenes Torres foi forjado na luta. A família migrou do interior para buscar Educação, a tábua que livraria a próxima geração das dificuldades enfrentadas pelos pais. Foi uma saga, com os contornos dramáticos que poderiam ser descritos para atenção do Supremo Tribunal Federal, mas que aqui são resumidos numa frase: “Tudo posso naquele que me fortalece”. Não se misturam Direito e Religião, Vade-mécum e Bíblia? Pois não se trata de um versículo, mas de um currículo em uma frase, registro de meia dúzia de palavras na Plataforma Lattes. Esqueçam-se os 2 mil textos em proposições que fizeram de Demóstenes o mais produtivo relator dos quase dois séculos de Senado. Esqueçam-se as 189 leis que ele escreveu sozinho ou em parceria, idealizou e passou para alguém apresentar, pois o governo não deixaria aprovar ideia de opositor tão ferrenho. Esqueçam-se a Reforma da Tranquilidade, a Lei Maria da Penha, a Reforma do Poder Judiciário, a criação dos Conselhos Nacionais de Justiça (CNJ) e do Ministério Público (CNMP), a Lei da Ficha Limpa, o Estatuto do Idoso etc. Esqueçam tudo o que a vítima proporcionou ao Brasil, mas não se esqueçam da força que impediu que sucumbisse às cinzas.
- p) O trabalho de Demóstenes no Senado foi um dos itens que o fizeram subir o cadafalso. “Já que não se tem nada na cabeça, corte-se o pescoço de quem tem”, seria o raciocínio. Separaram a cabeça do pescoço, mas não tiraram o cérebro da cabeça nem dele as ideias. E elas continuaram, sobreviveram com outros autores, enfim, muitas andaram. No caso de Demóstenes, não houve lentidão: queriam rapidamente descer a lâmina sobre a garganta que representou a população em mais de 800 pronunciamentos no Plenário e 2 mil nas comissões, apavorando a mente de quem tem. Basta analisar a velocidade da representação que levou à perda de seu mandato popular e a lentidão para analisar a tentativa de reparação do erro – que não está lenta, mas estacionada, por isso o caminho que restou foi o melhor e mais justo – este Supremo Tribunal Federal.
“O Brasil perdeu com a ausência de Demóstenes no Senado”