O “pato” Donald Trump
Redação DM
Publicado em 28 de julho de 2016 às 02:30 | Atualizado há 10 anos- Lincoln Secco [USP] diz que republicano executa performance ridícula de outsider na política dos EUA
- Perfil de adversário dos democratas é de um fundamentalismo de direita, avalia Flávio Sofiati [UFG]
- Já o doutor em História David Maciel vê um populista de direita que pode adotar neoliberalismo radical
O republicano Donald Trump executa uma performance ridícula de um outsider na política dos EUA, analisa o doutor do Departamento de História da Universidade de São Paulo [USP] Lincoln Secco. Isso não é novo, observa. Ronald Reagan era só um ator fracassado de ultradireita, por exemplo, explica ele.
Assim como no início dos anos 1980, Donald Trump representa uma inversão no ciclo político progressista, adianta o historiador. Ideais fascistas ressurgem no mundo inteiro, registra. O escritor, especialista em Karl Marx e Antonio Gramsci, afirma que, na América Latina,voltaram golpes de Estado em versão soft.
– Na Inglaterra, Áustria e Espanha a direita avança. Os direitos trabalhistas são duramente atacados na França!
Se for vitorioso nos Estados Unidos, Donald Trump serviria para divertir e estimular idiotas iguais a ele em todo lugar, diz, em tom de provocação à esquerda. Para o Brasil, os republicanos não são piores do que os democratas, sublinha. Qualquer um que governa os EUA atende ao complexo industrial militar, frisa.
– Democratas sustentaram a Guerra do Vietnã, por exemplo.
Direitas
A candidatura de Donald Trump não pode ser “folclorizada”. É o que afirma o doutor da Universidade Federal do ABC, especialista em Relações Internacionais, Gilberto Maringoni. Não se trata apenas da postulação de um celerado direitista que se coloca francamente contra a imigração, ele representa fenômeno bem mais profundo, diz.
– O republicano vocaliza um sentimento ressentido de trabalhadores empobrecidos contra a globalização e o neoliberalismo.
Donald Trump não apenas acusa estrangeiros de tomarem os postos de trabalho dos estadunidenses, como se coloca contra o Nafta, o TPP (o Acordo Transpacífico) e a exportação de postos de trabalho para além do rio Grande e para a China, frisa. Não quer mais gastos que considera supérfluos, observa o escritor.
– A sua fala exala um nacionalismo primário, mas eficiente, algo aparentado com o sentimento que levou setores populares da Inglaterra a darem vitória ao Brexit. O sinal dos tempos é o crescimento do sentimento nacionalista nos países do centro, vis a vis o enfraquecimento da agenda social dos Estados nacionais.
Doutor em Sociologia da Universidade Federal de Goiás [UFG], Flávio Sofiati avalia que o perfil do republicano é de “fundamentalismo de direita”. A sua eleição consistirá em um retrocesso para as lutas democráticas nos cinco continentes, destaca. É preconceituoso, mal preparado e sem estratégias, insiste
– Os EUA, hoje, constituem uma ditadura de dois partidos!
Sejam os republicanos ou democratas a ganharem as eleições, a situação será quase a mesma para nós que moramos na América Latina, pontua o sociólogo. “Apesar disso, Donald Trump comunga com as ideias mais conservadoras que se possa ter na sociedade civil. Uma visão reacionária da questão da imigração”, denuncia.
– Mais: ele aumentará a política violenta de intervenção militar no exterior.
O professor de Ciências Sociais afirma, porém, que nem tudo está perdido nos EUA. Já que um grupo significativo de militantes socialistas tem atuado no sentido de reorganizar as lutas sociais em um país marcado pela propaganda enganosa de um modo de vida que há tempos exclui parcela dos trabalhadores, atira.
Já o doutor em Geografia da UFG historiador Romualdo Pessoa Campos Filho é taxativo. “Donald Trump é filho desse tempo de incertezas econômicas que abala as estruturas da maior potência militar do planeta, em uma economia que definha como consequência de uma crise que não sinaliza para solução a curto prazo”.
– O seu discurso é o da intolerância!
O pesquisador de linhagem marxista aponta que os imigrantes, que outrora representavam ocupação para os postos de trabalho que os cidadãos locais não desejavam, agora são apresentados como responsáveis pelo aumento do desemprego e pela queda do nível de vida, empurrando os salários para baixo.
– Entre a classe média mais pobre. Algo que decorre da crise estrutural.
A sua retórica explosiva, que prega um combate supostamente implacável contra o terrorismo internacional, ao tráfico de drogas na fronteira dos Estados Unidos com o México e por mais políticas duras contra imigrantes ilegais, soa como uma orquestra aos ouvidos dos eleitores conservadores”Frederico Vitor de Oliveira,Jornalista
Fundamentalismo religioso
Especialista em Guerrilha do Araguaia, ele cita que o que também alimenta seus discursos reacionários é o “fundamentalismo religioso”. A propagar violência, disseminar ódio, como o que se espalha dentro dos EUA nas igrejas neopentecostais, cujo movimento conservador tem crescido assustadoramente, ataca.
– Além de espalhar ódio e intolerância!
Romualdo Pessoa Campos Filho lembra que trata-se de uma época de crise intensa do capitalismo. Que se reflete na sociedade nas formas de comportamentos e no ódio de classe, de gênero e racial, registra. “Caso ele venha a ser eleito, o que não é improvável, poderemos ter uma intensificação da repressão”.
– Em relação ao movimento negro nos EUA, à xenofobia. Com a possibilidade de ampliação dos investimentos em gastos militares, como pretexto para combater o terrorismo, mas, como sempre, para garantir mais poder às grandes corporações que atuam na indústria bélica. É o extremismo de direita explícito!
O doutor do Departamento de História da UFG, escritor David Maciel, frisa que a eleição de Donald Trump pode significar um endurecimento da política externa norte-americana em relação ao combate ao chamado terrorismo e aos países que questionam a supremacia norte-americana (China, Rússia, Venezuela).
Protecionismo?
O estudioso da Nova República [1985-1989], do impeachment de Fernando Collor de Mello [1992] e da Era PT no Palácio do Planalto[2003-2016] aposta na adoção de uma postura mais protecionista nas relações comerciais, assim como uma relação interna mais repressiva contra imigrantes, trabalhadores e minorias.
David Maciel analisa ainda ao Diário da Manhã que a reedição de um discurso interno reacionário, de valorização do american way of life, porém, talvez sirva para a execução de políticas econômicas menos liberais, mais intervencionistas e mais voltadas para a geração de empregos aos trabalhadores.
– É o que aposta seu eleitor branco, desempregado e ameaçado. Enfim, é um “populista de direita”, mas tão ligado ao establishment que pode mandar seu programa às favas na primeira oportunidade e adotar o neoliberalismo mais radical.
O jornalista e especialista em Geopolítica Mundial, Frederico Vitor de Oliveira, acredita que a eleição de Donald Trump à Casa Branca pode produzir uma “reviravolta” na política americana, mas com reflexo em todo o mundo. Apesar de nova-iorquino, o republicano tem grande apelo eleitoral no Sul, informa.
– Uma região com eleitorado majoritariamente conservador e WASP – acrônimo em inglês que significa White, Anglo-Saxon and Protestant (Branco, Anglo-Saxão e Protestante).
A sua retórica explosiva, que prega um combate supostamente implacável contra o terrorismo internacional, ao tráfico de drogas na fronteira dos Estados Unidos com o México e por mais políticas duras contra imigrantes ilegais, soa como uma orquestra aos ouvidos dos eleitores conservadores, ironiza ele.
– Mas o discurso crítico em relação ao comércio com a China e pelo endurecimento da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em relação à Rússia, deve mesmo se limitar às promessas de campanha e às bravatas políticas.
Donald Trump representa uma América agressiva que leva a cabo o mito do destino manifesto dos Estados Unidos como nação líder e excepcional, explica Frederico Vitor de Oliveira. Mas os tempos são outros e o mundo caminha para ser multipolar, com inconteste peso nas decisões mundiais de potências regionais, frisa.
– Com EUA, Rússia, China, Índia, Irã, Brasil e União Europeia.
Tensão no mundo
Interesses escusos acompanham a aventura do bilionário à Casa Branca, crê. Do monumental complexo armamentista ao conservadorismo das igrejas protestantes, aponta. A sua eleição deve representar mais tensão em um mundo já marcado por crises no Oriente Médio, Ásia, Leste Europeu e Norte da África, afirma.
Uma figura caricata, com um estilo de bonachão, tipo falso moralista e bilionário. Esse é o perfil de Donald Trump elaborado pelo professor de História em Goiânia Reinaldo Pantaleão. É misógino, homofóbico, racista e contra os direitos econômicos e sociais dos trabalhadores, pontua, revoltado.
– Os fascistas vão adorar.
Renato Dias, 48 anos, é graduado em Jornalismo, formado em Sociologia, especialista em Políticas Públicas, com curso de Gestão da Qualidade, e é mestre em Direito e Relações Internacionais. Escritor, lança, em setembro, livro sobre a crise na Grécia, a ascensão do Siryza e o papel da Troika.