Peemedebistas insistem na volta de Iris
Redação DM
Publicado em 15 de julho de 2016 às 02:25 | Atualizado há 1 anoOs manifestantes vão pedir a ele que reconsidere decisão de deixar a vida pública
Hoje, às 15 horas, manifestação popular em frente ao escritório político de Iris Rezende Machado, situado à Avenida T-9 quase esquina com a Avenida 85, no Marista. Os organizadores esperam o comparecimento de pelo menos 2 mil pessoas. Os mais otimistas acreditam que muito mais de duas mil poderão comparecer, haja vista o trabalho intenso de mobilização por meio das redes sociais e das entidades que apoiam o movimento.
O movimento em questão é o denominado Fica Iris!, lançado por um grupo de militantes de base do PMDB, liderados por Flávia Calil, Marcos Três Eme (3M), Andrey Azeredo e Eltinho Jotaká (JK). Segundo os organizadores, o diretório municipal do PMDB encampou o movimento.
Os manifestantes irão ao escritório de Iris fazer um apelo emocionado ao velho líder peemedebista para que aceite ser candidato a prefeito de Goiânia. Na última semana, Iris Rezende divulgou um manifesto afirmando que estava deixando a vida pública e que não seria mais candidato a nada. Iris, que é protestante, encerrou seu manifesto citando o apóstolo Paulo em sua segunda carta a Timóteo, em que ele, velho e aguardando a pena de morte, afirma: “Combati o bom combate; encerrei a carreira, guardei a fé”.
Os organizadores do movimento afirmam que Iris Rezende “é maior que o PMDB” e que o partido, sem ele, estará fadado a fracassar estrondosamente na próxima eleição para prefeito. Um fiasco eleitoral do PMDB para a prefeitura afetaria até mesmo a chapa de candidatos a vereador. Aliás, há pré-candidatos a vereador pelo PMDB que já manifestam desejo de desistir da disputa caso Iris se mantenha irredutível.
A decisão de Iris está ligada ao conflito que se instalou na sigla peemedebista há quase quatro anos com a emergência de um grupo de políticos jovens, liderados pelo deputado federal Daniel Villela, filho do prefeito de Aparecida, Maguito Villela. Esse grupo, que Dona Iris Araújo chama de “essa juventude”, não está em luta aberta contra Iris pelo controle da legenda, mas reluta em seguir suas orientações. Iris não lidera “essa juventude”. Já os liderados de Iris a encaram como uma facção desejosa de ocupar todos os espaços e “enterrar o Iris vivo”.
Origens do conflito
Nos meios políticos goianienses há quem duvide ser definitiva a decisão de Iris de não mais se candidatar. Há, inclusive, os que acreditam que sequer há uma decisão neste sentido, mas sim um jogo de cena. São teorias, hipóteses. Todos saberão se a decisão de Iris é mesmo para valer no último dia para solicitação de registro de candidaturas. Esgotado o prazo sem que Iris tenha protocolado sua solicitação, ele então não será mesmo candidato.
Mas a possibilidade de ser candidato permanece enquanto o calendário eleitoral criar condições para tanto. Os argumentos a favor de uma reconsideração de Iris baseiam-se num precedente aberto pelo próprio Iris cerca de dois anos atrás. Ele enviara carta à Comissão Executiva do PMDB informando que não seria candidato a governador. Não obstante, manejou nos bastidores para inviabilizar politicamente as pretensões de Júnior do Friboi. O dono do matadouro Friboi acabou desistindo e se mandou para a Flórida, onde mantém ancorado seu iate de luxo.
Enquanto Friboi cantava vitória, lideranças políticas de todo o Estado corriam em romaria ao escritório da Avenida T-9 para suplicar a permanência de Iris na disputa, afinal perdida para Marconi Perillo. Segundo esta linha de raciocínio, Iris estaria repetindo o estratagema de dois anos atrás, estimulando outro queremismo para se fortalecer como candidato.
A falha desta teoria é que, desta vez, Iris não tem competidor dentro do PMDB. É o candidato de consenso. Se Iris é nome de consenso, se está liderando as pesquisas de intenção de voto – apesar da perigosa aproximação do Delegado Valdir – qual a verdadeira razão para Iris recolher a bandeira? Saúde não é. O velho líder é forte como um touro. Atleta amador, estilo de vida sóbrio, sem vícios de qualquer natureza, já passado dos 80 anos ele continua lúcido, esbelto, lépido e fagueiro. Em matéria de saúde, ainda tem muito carvão para queimar.
Irismo versus maguitismo
Qual a razão, a verdadeira razão? Iris nem ao menos deu pistas em seu manifesto-despedida. Mas sua mulher, a ex-deputada Dona Iris Araújo, contou aos jornais que Iris estava se sentindo desrespeitado pela “juventude” do PMDB. Faltou dizer os nomes de Daniel Villela e Bruno Peixoto, os chefes da jovem guarda peemedebista.
Mas o que Dona Iris não explicou – talvez porque não lhe perguntaram – é o que seria este “desrespeito”. Que atos desrespeitosos foram esses que tanto desgostaram Iris a ponto de fazê-lo baixar a bandeira? Quem praticou tais atos? Dona Iris, na verdade, falou para o público interno. Aliás, para o círculo mais interno do PMDB, a elite do partido, aquela gente que sabe – antes dos jornais noticiarem – de tudo que se passa. Para este seleto auditório, um pingo é letra, sendo ocioso descer aos detalhes.
Este velho hábito peemedebista de sonegar ao público as verdadeiras razões políticas dos rompimentos ou das alianças, colocando-as como questões meramente sentimentais, faz do partido uma caixa de mistérios que se decifram apenas quando enfrentados pelos analistas mais argutos. Exige todo um complexo de regras de hermenêutica político-partidária para se chegar à exegese correta.
Apesar do esforço dos peemedebistas de manter entre quatro paredes suas brigas de família, alguma coisa sempre transpira. Uma informação aqui, um fato ali, e aos poucos o quebra-cabeça vai ganhando forma e fazendo sentido.
Juventude transviada
Tudo começou quando a jovem guarda do PMDB começou a levantar questões sobre as razões de o PMDB perder sucessivas eleições ganhas. A “juventude” começou a desconfiar que o problema atendesse pelo nome de Iris Rezende. Segundo esta visão, o mandonismo irista inibe as ações partidárias, tolhe as novas lideranças. O partido “não se renova” e velhos erros são neuroticamente repetidos.
Acreditou-se que haveria um sopro de renovação com o ingresso de Vanderlan Cardoso no PMDB. Mas Vanderlan não tinha a fibra necessária para abrir seu próprio espaço dentro da comunidade peemedebista. Depois do fracasso de Vanderlan, os “jovens” foram buscar Friboi. Patrocinaram a pré-candidatura dele a governador. Mas não contaram com a astúcia do velho Iris.
Com a derrota de 2014, a quinta seguida frente ao marconismo, a “juventude” começou a articular um movimento interno de apropriação das instâncias decisórias. O movimento resultou vitorioso com a eleição da chapa liderada por Daniel Villela para dirigir o PMDB estadual.
Os próprios seguidores de Daniel se apressaram, no entanto, em afirmar que Iris não foi derrotado no processo, já que teria se distanciado da disputa, malgrado o apoio declarado à chapa de Nailton Oliveira. A grande derrotada, segundo os próprios seguidores de Daniel, teria sido dona Iris Araújo. Ela é que teria patrocinado a chapa de Nailton, e vinha há tempos fazendo a caveira dos “jovens”. Agora, ela culpa os jovens, “essa juventude”, pela decisão de Iris de recolher o estandarte.
“Essa juventude” a que Dona Iris se refere é a versão atualizada do “maguitismo”. Há anos o maguitismo vem assombrando o irismo. Mas o que é o maguitismo? Como movimento organizado, nunca existiu. Não é uma corrente doutrinária. Na verdade, o maguitismo é só um ente metafísico. Enquanto fenômeno comportamental, não tem efetividade. Mas consegue irritar profundamente dona Iris Araújo e os iristas ortodoxos.
Maguito jura fidelidade absoluta a Iris Rezende. Não encontra palavras suficientemente abjuratórias para exaltar e glorificar o chefe. Mas, enquanto Maguito chama Iris de “meu irmão na política”, seus comandados atuam dentro e fora do partido solapando o prestígio do velho líder. Dona Iris Araújo não vai à conversa do maguitismo e se faz chefe da resistência antimaguitista.
Entre os peemedebistas antimaguitistas, a carta de Maguito a Iris, divulgada esta semana pelos jornais, seria uma obra prima de dissimulação e perfídia. Nela, Maguito declara – não sem antes exceder-se em lisonjas a Iris – que todos devem respeitar a decisão do velho líder de se aposentar. “Ele quer enterrar o Iris vivo”, comentou um militante antimaguitista. Para o irismo, aceitar como definitiva a decisão de Iris de se retirar da vida pública é crime de apostasia. Para o irista fiel e militante, Iris acabará por reconsiderar sua decisão. Com esta carta, aceitando a decisão de Iris, em vez de suplicar a ele reconsideração, Maguito se colocou como um estraga-prazeres.
Por fim, outro argumento a favor da tese de que Iris vai reconsiderar sua decisão baseia-se no fato de que ele não desativou seu escritório. De lá, ele continua despachando, acolhendo seus aliados, recebendo as homenagens de seus fieis vassalos. Se é para se afastar da vida pública, não tem sentido manter um verdadeiro quartel-general que virou o principal endereço político das forças oposicionistas de Goiás.
Outra linha de especulação sustenta que Iris teria se afastado da disputa por medo de ser derrotado pelo Delegado Valdir, que vem subindo verticalmente nas pesquisas de intenção. Os queremistas sustentam, no entanto, que não se trata de temer Valdir. Afirmam que Iris lidera as pesquisas sem ao menos ser candidato declarado. Sustentam que, ao assumir oficialmente a candidatura, os índices dele deverão aumentar. Esta desistência de Iris teria o efeito de um choque na militância, um toque de reunir para acordá-la da letargia. Uma injeção de ânimo, digamos assim.
Seja lá o que for, e como for, se saberá como as coisas vão ficar logo agora em agosto, quando o calendário eleitoral fechar o prazo do pedido de registro de candidaturas.