“Serei candidato ao governo em 2018”
Redação DM
Publicado em 14 de janeiro de 2017 às 23:55 | Atualizado há 2 anos
- Atualmente governador em exercício, ele se declara um municipalista, mas sem perder o “olhar estrutural do Estado de Goiás”. Cita ações voltadas para “o processo de formação do saber, inovação, tecnologia e fortalecimento de setores estratégicos da economia”
- José Eliton revela ao DM que aceitou a indicação feita pelo governador Marconi Perillo para a disputa do cargo e que atuará “com muita firmeza” a fim de consolidar o projeto, “obviamente, sabendo divisar entre as ações administrativa e política”
- Nesta entrevista, discute cultura, educação, redes sociais e ideias. Segundo analisa, a crise traz também oportunidades e prevê que a onda de radicalismo no Brasil e no mundo não prosperará. “Para mim, a política é construída a partir dos ideais”, diz
- “A passagem pela Segurança Pública me deu uma visão muito mais ampla da problemática e da complexidade que é essa área. Mas me deu, também, uma visão muito mais sensível dos problemas e das angústias sociais que impactam o dia a dia das pessoas”, afirma
“Eu serei candidato a governador no pleito de 2018”, revela ao Diário da Manhã o governador em exercício, José Eliton, ao declarar que atuará “com muita firmeza” para consolidar o projeto “obviamente, sabendo divisar entre a ação administrativa e a ação política”. Segundo afirma, “construímos uma base ampla, já temos conversado com muitos partidos, vou trabalharcom muita força nesse sentido”.
A indicação de Eliton para a sua sucessão foi feita pelo próprio governador Marconi Perillo no final do ano passado. “Eu refleti muito sobre essa questão, conversei com muitos amigos e tomei a decisão de aceitar”, afirma ele. “Nós vamos marchar rumo à construção sólida desse projeto, porque, mais importante que o indivíduo é o conjunto de ações que apresentaremos”, diz.
José Eliton destaca sua visão municipalista ao observar que “vamos atender às demandas das cidades sem perder o olhar estrutural do estado de Goiás”. Ele citou ações voltadas para “o processo de formação do saber, para a inovação, tecnologia e fortalecimento de setores estratégicos da economia, com uma política racional de incentivos fiscais que o governador já implantou e que temos que preservar”.
José Eliton prevê um novo salto no processo de desenvolvimento de Goiás, com fortes investimentos em vertentes estruturantes, ao citar osdesafiospara 2017. Deu ênfase à importânciada educação e de ações transversais no campo social para a construção de uma nova realidade e para o combate eficaz à criminalidade.
Otimista, o governador em exercício reafirma que a crise econômica traz também oportunidades e prevê que a onda de radicalismo no Brasil e no mundo não prosperará. “Nós vamos ter um avançar da era da razão, do conhecimento e da compreensão”, afirma. José Eliton critica o“debate raso” que predomina nos meios de comunicação, especialmente nas redes sociais, e disse que é preciso premiar o diálogo.
Diário da Manhã – O senhor recebeu recentemente nova missão do governador Marconi Perillo: a de coordenar, ao seu lado, os convênios com os municípios para a aplicação dos recursos provenientes do leilão da Celg e outras fontes, cerca de R$ 1 bilhão, que serão destinados a obras e serviços estruturantes nos 246 municípios goianos. Como encara mais esse desafio?
José Eliton – O Estado de Goiás tem, nesse momento, mais uma oportunidade de projetar sua estrutura econômica para um novo salto de desenvolvimento qualitativo. O governador Marconi Perillo tem feito um trabalho fenomenal na sua trajetória política, enquanto governador de Goiás. Afinal de contas, sair de uma economia com um PIB da ordem de R$ 15 a 16 bilhões e saltar para mais de R$ 160 bilhões, no prazo de uma década e meia, é referencial em qualquer lugar do mundo, um salto qualitativo. Mas, mais do que isso, ele promoveu a diversificação da economia do estado de Goiás. Éramos um estado com produção praticamente alavancada pelo setor primário. Hoje, temos polos de metal mecânica, de farmoquímicos, de mineração, de confecções. Ou seja, ainda somos extremamente impactados pelo agronegócio, pela produção primária, mas já temos uma economia com muitas outras vertentes. Justamente por isso, o governador definiu com muita propriedade que os recursos da privatização da Celg sejam utilizados em obras estruturantes que possam ter impacto no processo de crescimento do estado. Agora é a hora de um novo salto no desenvolvimento.
E que obras seriam estas?
Quando definimos, por exemplo, a conclusão do eixo rodoviário que liga Minaçu a Colinas do Sul, passando por Alto Paraíso, ligando Divinópolis à GO 118, e à BR 020, nós estamos ampliando um leque de entrada e escoamento de produtos, ligando o norte do país ao nordeste brasileiro, sem ser preciso vir para a capital do país ou para o sul. Quando duplicamos ou ampliamos a rodovia que liga Rio Verde a Montividiu, beneficiamos toda a região que é produtora de grãos, referência no país como um todo. São elementos logísticos que preparam o estado para um novo salto de desenvolvimento. Temos também a plataforma multimodal de Anápolis, com o aeroporto de cargas. Este ano, queremos concluir a primeira etapa do aeroporto e, com isso, disponibilizar um novo modal de recepção e despacho de produtos com alto valor agregado, o que abre novas perspectivas para o comércio e o intercâmbio de produtos. Portanto, a definição estratégica para os investimentos contempla esses programas de maior impacto.
E os investimentos em inovação? Como se estabelecem?
Goiás tem hoje o maior programa de inovação do país, o Inova Goiás, que lançamos em 2015 e que tem uma abrangência muito grande, que tem fontes de financiamento definidas, mas que terá um reforço desses recursos da Celg, pelo impacto que ele vai ter, não de imediato, mas que a população vai perceber daqui a uma década. Mas é preciso começar. Se você não tiver uma responsabilidade de preparar o estado para formar e produzir conhecimento, não só transmitir, você está fadado a ser um estado de segunda classe. Qualquer estado ou nação que se preze precisa ter a capacidade de produzir conhecimento e esse é o grande desafio do Brasil e também de Goiás. O investimento em inovação é fundamental para o desenvolvimento. Eu acredito que ao longo de 2017, 2018, com a alocação desses recursos, com a execução dessas obras, vamos ter um ciclo de muitas possibilidades para Goiás.
O estado de Goiás vem sendo preparado para este salto há alguns anos…
O governador Marconi Perillo se preocupou desde o seu primeiro governo em reestruturar a relação entre o governo e a sociedade, criou um ambiente de diálogo muito sólido, por intermédio dos fóruns de empresários e de trabalhadores, ampliou a discussão interna, restabeleceu as novas bases de programas sociais que se tornaram referência para o país, implantou as bases para a melhoria da educação. Em 1999, apenas 30% dos professores tinham formação superior, hoje temos 100% destes profissionais da rede pública estadual com graduação superior. Tínhamos pouquíssimas instituições e espaços de qualificação profissional, hoje temos uma sólida rede de Itegos e Cotecs que se atendem por todo o estado, com ações do Pronatec no âmbito federal e que garantem outra vertente de qualificação profissional. Todos esses elementos fizeram o estado de Goiás chegar até aqui.
No final de outubro do ano passado, o governador Marconi Perillo formalizou de maneira pública a indicação do senhor para concorrer pelo PSDB à sucessão em 2018. Como o senhor vai buscar oconsenso da base do governo para essa candidatura?
Eu refleti muito sobre essa questão, conversei com muitos amigos e tomei a decisão de aceitar a indicação. Eu serei candidato a governador no pleito de 2018. Vou atuar com muita firmeza nesse sentido, obviamente, sabendo divisar entre a ação administrativa e a ação política. Mas vou trabalhar com muita força nesse sentido. Temos uma base ampla, já temos conversado com muitos partidos. O PSDB, na sua integralidade, está marchando dentro desse projeto. O PP também caminha para essa coligação. Temos outros tantos partidos com os quais estamos a dialogar e a debater. O fato é que essa decisão está tomada e nós vamos marchar rumo à construção sólida desse projeto, porque, mais importante que o indivíduo é um conjunto de ações que vamos apresentar, demonstrando aquilo que fizemos e apresentar aquilo que queremos fazer a partir desse momento em que o estado de Goiás se encontra.
Qual será o combustível dessa caminhada?
Política é a arte de dialogar, de construir alternativas, de buscar o consenso, e nós vamos fazer isso constantemente dentro desse período. Afinal de contas, nós temos um projeto a representar, um projeto que transformou o estado de Goiás e que agora, neste novo momento, tem um novo ponto de partida para avançar, e é isso que vamos apresentar à sociedade. Eu tenho uma visão municipalista muito clara, temos uma base de prefeitos muito sólida no estado. Quero buscar ser um instrumento já nesse governo e, se eventualmente a sociedade entender que nosso projeto será o melhor, de ter uma relação extremamente próxima com os prefeitos, atendendo às demandas dos municípios, seguiremos em frente. Afinal, as pessoas vivem nos municípios.
Como conciliar os interesses dos municípios com o plano de desenvolvimento do estado?
Vamos atender às demandas dos municípios sem perder o olhar estrutural do estado de Goiás que exige ações voltadas ao processo de formação do saber, à tecnologia, ao fortalecimento de setores estratégicos da economia, com uma política racional de incentivos fiscais que o governador já implantou e que temos que preservar. Nós temos um diálogo muito intenso com o setor produtivo. Todos esses atores são importantes para a formação desse projeto. Vamos nessa caminhada com muita determinação. É claro, compreendemos algumas visões adversas de alguns partidos da base, mas nós temos tempo para ir dialogando.
Se você não tiver uma responsabilidade de preparar o Estado para formar e produzir conhecimento, não só transmitir, você está fadado a ser um Estado de segunda classe”
Em 1999, apenas 30% dos professores tinham formação superior, hoje temos 100% destes profissionais da rede pública estadual com graduação superior”
Política é a arte de dialogar, de construir alternativas, de buscar o consenso, e nós vamos fazer isso constantemente dentro desse período”
“Eu chego em 2017 como alguém que tem muita fé. Afinal, tive a oportunidade de viver até aqui”

Como chega José Eliton em 2017, após um ano à frente da Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária?
Eu chego em 2017 como alguém que tem muita fé. Afinal, tive a oportunidade de viver até aqui. A partir daquele incidente em Itumbiara (atentado que vitimou o ex-prefeito do município, Zé Gomes da Rocha, sendo que José Eliton fora baleado), tive obviamente uma reflexão muito maior sobre esse aspecto da vida também. Do ponto de vista de gestor público, a passagem pela Segurança Pública me deu uma visão muito mais ampla da problemática e da complexidade que é essa área. Mas, me deu, também, uma visão muito mais sensível dos problemas e das angústias sociais que impactam o dia a dia das pessoas. Se, por um lado, você tem uma vítima muito clara, que é aquela que sofre um furto, um roubo, um homicídio, por outro, você tem um desastre social completo que é aquele que pratica o crime, que tem que ser punido com pena dura; mas de quem você enxerga pouca possibilidade de recuperação. São dramas sociais que o Estado brasileiro precisa começar a buscar caminhos para a solução.
Quando esteve em Goiânia, a ministra presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, referiu-se a uma frase de Darcy Ribeiro que, na década de 1980, disse que se os governadores não investissem em escola, no futuro não teriam dinheiro para construir presídios. Para o senhor, qual a importância da educação e como reverter a situação de precariedade a que ela tem sido relegada?
Essa citação da ministra Cármen Lúcia é um exemplo de como o discurso fácil cai por terra no que se refere à segurança, como as justificativas simplistas de que a insegurança é grande porque não tem policial; que a insegurança é grande porque não tem estrutura; que a insegurança é grande porque não tem infraestrutura de serviços públicos que possam atender às expectativas da população. Quando lançamos o Pacto Social Goiás Pela Vida, o elemento fundamental na política de segurança não são as ações diretas de segurança, mas as ações transversais. Quando se reduz a evasão escolar, temos reflexos imediatos nos indicadores de crime. Então, é preciso ter uma visão mais ampla, entender a sistemática e a problemática da segurança pública, que tem muito mais a ver com a estrutura social e de serviços brasileira do que com o indivíduo em si.
Mas, a crise econômica não produz mais violência aogerar carências e conflitos?
Alguns querem atribuir o aumento da criminalidade à crise econômica. Mas, ser pobre nunca foi sinônimo de ser criminoso. Tem pessoas que levam vida difícil, têm dificuldades, vivem com recursos escassos, mas que são extremamente honradas, que trabalham com muita dignidade. O que temos, às vezes, é uma distorção na formação do indivíduo. Para ilustrar, temos em Goiás a expansão dos colégios militares. Por que as famílias querem colocar os filhos no colégio militar? O ensino é melhor, sim, mas não é esse o elemento que leva as famílias a colocarem seus filhos lá; é porque lá impõe a disciplina. As famílias abriram mão do seu pátrio poder e estão delegando ao Estado o papel de educar, não a educação formal, de saber ler e escrever, mas educar para a vida, educar com conceitos, abrindo mão de um dever que é de cada pai, de cada mãe. Quando você deixa de passar valores, princípios, você acaba por não formar consciências adequadas.
Mas temos também o ensino formal…
Lógico. Por outro lado, o Estado também precisa ter uma estrutura de formação adequada para que as gerações possam ter uma visão da realidade social, dos seus direitos e deveres, de discutir temas para uma cidadania plena. Então, acho que esses elementos como os serviços em saúde, educação, espaços de convivência e lazer, cultura, você acaba por impactar significativamente a segurança pública. Assim, a frase de Darcy Ribeiro é pertinente, mas não apenas e tão só em relação à educação, mas a uma série de conceitos que a sociedade precisa resgatar para si. Até meados do século passado, quem cuidava dos filhos eram o pai e a mãe e havia maneiras de se corrigir os filhos. São questões que precisam ser revistas pela sociedade.
Alguns querem atribuir o aumento da violência à crise econômica. Mas ser pobre nunca foi sinônimo de ser criminoso. Tem pessoas que levam vida difícil, têm dificuldades, vivem com recursos escassos, mas que são extremamente honradas, que trabalham com muita dignidade”
“Você não pode ter um Estado gastador que, em algum momento, não terá condições de investir”
A Proposta de Emenda Constitucional (PEC 241/2016) que limita gastos públicos por 20 anos pode comprometer investimentos nessas áreas consideradas prioritárias para se evitar o aumento da violência?
Em absoluto. A medida legislativa proposta pelo governo federal tem por objetivo justamente garantir ao estado a capacidade de financiamento de investimentos. Se você tem um descontrole fiscal, como o que vemos hoje no país, você acaba por punir toda a sociedade. Goiás é exemplo de que um ajuste fiscal reverte em benefícios para a população. Vamos começar o nosso plano de investimentos alavancado em parte com recursos da privatização da Celg, mas, em parte, também, com recursos derivados do ajuste fiscal, seja por intermédio de órgãos com forte capacidade de arrecadação, ou do ajuste fiscal que foi feito pelo governo. Se não tivéssemos mantido as contas em dia, talvez estivéssemos hoje como o Rio de Janeiro, o Rio Grande do Sul ou Minas Gerais, sem condições de ofertar serviços à população. É preciso que tenhamos em mente que a capacidade fiscal do estado é fundamental. O estado precisa ter capacidade de arcar com as despesas para a realização dos serviços. Você não pode ter um estado gastador que, em algum momento, não vai ter condições de fazer investimentos, e o que é pior, vai comprometer todos os serviços públicos. Ao contrário do que muitos dizem, que ao limitar o teto de gastos vai limitar investimentos, a proposta racionalizará os gastos. Tanto que, quando se compara o orçamento de 2017 em relação a 2018, você vê aumento nas rubricas de saúde e educação por parte do governo federal.
O estado de Goiás vai seguir nesta mesma linha?
O pacote de ajuste fiscal que o governador Marconi Perillo enviou à Assembleia Legislativa é inspirado, em grande parte, nessas questões que nós debatemos muito no ano passado e que levou Goiás a se projetar à frente de outros estados, porque teve coragem, sob a liderança do governador Marconi Perillo, de tomar medidas duras lá no final de 2014 e em 2015. Esse ajuste permite que hoje tenhamos condições de construir hospitais, de construir escolas, de ofertar serviços essenciais. Tudo isso tem sido possível graças ao equilíbrio das contas públicas.Assim é na casa de qualquer cidadão. Se uma família compra no cartão de crédito em um mês, vai ter tudo o que precisa, mas se no mês seguinte não paga o cartão, vai chegar o momento em que vai chegar em colapso a economia do seu lar.
Cultura, reflexões e redes sociais: Eliton revela paixão pela literatura
Formado em Direito pela PUC-GO, advogado especializado em Direito Eleitoral, com larga atuação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO), antes de assumir o posto de vice-governador de Goiás José Eliton compôs a comissão de juristas do Senado Federal para elaboração do anteprojeto de reformulação do Código Eleitoral Brasileiro. Ele faz uma reflexão sobre o confronto de ideias hoje no Brasil e no mundo. Segundo analisa, não basta a tese de um contra a tese de outro, “sem que se consiga construir uma síntese, uma convergência”.
Segundo o governador em exercício, “temos que recuperar a capacidade de debater e de compreender as diferentes visões”. Nesta entrevista, ao comentar o estágio dos meios de comunicação e das redes sociais, ele revela a paixão pela literatura. Cita autores como Honoré de Balzac, escritor francês, fundador do realismo na literatura moderna; Umberto Eco, escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano, e Émile Zola, considerado criador e representante mais expressivo da escola literária naturalista, além de importante figura libertária da França.
No discurso de despedida, o ex-presidente dos EUA Barak Obama disse que é difícil buscar o debate equilibrado numa sociedade em que pessoas se fecham em bolhas procurando opiniões semelhantes. O senhor acha que isso realmente acontece? Os debates não ajudam a formar consensos?
Infelizmente, vivemos tempos difíceis, não só no Brasil, mas no mundo. O debate profundo é, muitas vezes, relegado a um segundo plano e substituído por um argumento fácil, ou um discurso simples. Me parece que esse é um fenômeno mundial, em função de pobreza ou dificuldades na maneira correta de expor os fatos. A imprensa acostumou, ao longo das últimas décadas, a se pautar apenas não por retratar uma realidade existente, mas por discutir de maneira rasa temas que exigem profundidade na solução. Aí vemos um discurso simplista e fácil que muitas vezes se contrapõe às soluções que os problemas exigem, dada a sua complexidade. Temos por hábito apenas apontar culpados, mas, as discussões das soluções, dos caminhos para se chegar às soluções, simplesmente não existem. Balzac, na sua obra Ilusões Perdidas, cita os interesses que permeiam o jornalismo. Umberto Eco, no seu Marco Zero, também retrata com muita crueldade a imprensa; com cenários que, muitas vezes, chama este setor à reflexão. É claro que toda generalização é perniciosa, não é positiva, porque temos profissionais da imprensa, veículos da imprensa, que são altamente qualificados e que abrem espaços para debates da mais alta relevância. Mas, também, temos o outro lado.
Como o senhor vê o debate político nas redes sociais?
A política, como um todo, empobreceu muito ao longo dos anos. Na última década, tivemos um debate raso, em que as discussões sempre terminavam com insignificâncias. Houve toda uma distorção em que temas prioritários não alcançaram profundidade, ficaram na superfície. É preciso premiar a capacidade de diálogo, da dialética, da construção. O que nós vivemos no Brasil hoje, e que é replicado no mundo inteiro, é um debate de duas correntes em que o diálogo deixa de existir. É uma tese de um contra a tese de outro, sem que se consiga construir uma síntese, uma convergência. Para mim, a política é construída a partir dos ideais. Todos almejam um futuro melhor, condições melhores. As visões são divergentes em relação ao caminho que se deve trilhar para se alcançar esses ideais. Temos, então, diversas correntes ideológicas, diversas formas de pensamento, que buscam atingir, talvez, o mesmo objetivo a partir de caminhos diferentes. No Brasil, hoje, pensar diferente já virou algo terrivelmente difícil. Temos que recuperar a capacidade de debater e compreender as diferentes visões.
O senhor citou Balzac e Umberto Eco quando fez reflexões sobre as mídias. Que outros autores o inspiram na sua trajetória política e de homem público?
Foram vários autores ao longo de toda a minha formação, mas posso destacar aqui alguns que me impressionaram muito, como Robert Massie com a sua obra prima “Pedro, o Grande: sua vida e seu mundo”, um czar que modificou a Rússia no final do século 17 e início do século 18, um líder que abriu o país, quebrando paradigmas, cuidando de questões muito pontuais, mas que tiveram reflexos no mundo afora; Maquiavel, com o seu “O Príncipe”; Émile Zola, e o seu “Germinal”, que me deu uma visão ampla de como se deu a ascensão do pensamento de esquerda, entre inúmeros outros.
Que sentimentos a leitura e a convivência cultural despertaram no senhor ao longo deste longo período de crise na sociedade brasileira?
Tem gente que é pessimista. Eu acredito que os momentos de crise e adversidades são momentos de grandes oportunidades. Vejo que esse é um momento de reflexão da sociedade brasileira.
Qual o papel do conhecimento nesta caminhada?
Quando você abre horizontes por meio do conhecimento, você gera perspectivas individuais e, ao fazer isso, você cria uma sociedade muito mais complexa, mas muito mais compreensiva.Estamos passando por um momento de modificação, de catástrofe mesmo, mas eu acho que vamos ter o nascimento de um novo Brasil daqui para frente. Um Brasil que consegue debater melhor os temas. Essa onda de radicalismos, não só no Brasil, mas no mundo, vai passar e nós vamos ter um avançar da era da razão, do conhecimento, da compreensão. Vivemos um momento de transição que vai chegar no avanço da sociedade.
De que forma o senhor, como pai, forja em casa um cidadão para os desafios do mundo atual?
Tomo por referência a educação que recebi do meu pai, que, por sua vez, se reportava à educação que recebeu dos meus avós. Eu acho que a gente tem que ter uma relação de franqueza com os filhos, com a esposa, discutir e debater as questões, mas, nunca deixar de ter autoridade paterna e materna na criação dos filhos. Os filhos são muito o espelho dos pais. Acho que temos que ter capacidade de dialogar, conversar, construir em família, em conjunto, ouvir, compreender, abraçar e, quando necessário, buscar corrigir. Os sentimentos de amor e de fraternidade devem permear nossa conduta em família e nas relações sociais. Mas, jamais devemos abrir mão de apontar o caminho.
É preciso premiar a capacidade de diálogo, da dialética, da construção. Essa onda de radicalismos passará, e nós vamos ter um avançar da era da razão”
Os filhos são muito o espelho dos pais. Acho que temos que ter capacidade de dialogar, conversar, construir em família, ouvir, compreender, abraçar e, quando necessário, corrigir”
Livros marcantes citados por José Eliton
- Germinal, de Émile Zola

O livro conta a história de trabalhadores mineiros que entram em greve exigindo melhorias salariais e de condições de trabalho. O autor chegou a passar dois meses convivendo com mineiros e burgueses da região a fim de escrever um retrato fiel daquela parte da sociedade francesa do século XIX.
- Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac

O poeta Lucien de Rubempré sai do interior da França para tentar a vida como escritor em Paris, mas é surpreendido por uma realidade ainda mais voraz do que sua própria ambição. Descrevendo com maestria a França do início do século XIX, Balzac aborda o surgimento da indústria cultural e o papel do indivíduo na sociedade moderna.
- Número Zero, de Umberto Eco

No mais recente best-seller internacional do filósofo e romancista morto aos 84 anos em 19 de fevereiro de 2016 na sua residência, em Milão, na Itália, uma aventura amarga e grotesca que se desenrola na Europa do fim da Segunda Guerra até os dias de hoje. Uma vertente do jornalismo é o tema retratado na obra.
- Pedro, o Grande – Sua Vida e Seu Mundo, de Robert K.Massie

Sobre o pano de fundo da Europa e da Rússia nos séculos XVII e XVIII, desenrola-se a magnífica história de Pedro, o Grande. Ele encarnava as maiores forças e fraquezas da Rússia, enquanto ao mesmo tempo foi figura de proa do desenvolvimento de seu país.