Uma mulher feita de sonhos
Redação DM
Publicado em 29 de outubro de 2016 às 20:34 | Atualizado há 2 anosApesar de saber tudo sobre as trincheiras de uma campanha política, Dona Iris aprendeu muito com esta que termina hoje. Quando o marido, Iris Rezende, se declarou candidato, numa altura do campeonato em que todos achavam que ele já era carta fora do baralho, ela fez a coisa do seu modo. Reuniu um pessoal que havia mobilizado via redes sociais e teve a audácia de falar que o trabalho seria voluntário. Vários escorregaram rápido, mas muitos ficaram. No grupo, senhoras com mais de 70 anos e um time de jovens arquitetos que inclusive apresentou um projeto para o centro de Goiânia (ver box).
Com esse pessoal, maioria gente que Dona Iris via pela primeira vez, foi fazer a sua parte na base dos três “S” que ela inventou: sola de sapato, saliva e suor. Não ficou na cola do candidato o tempo inteiro, espalhou suas ações. Na propaganda da televisão não apareceu por decisão do marqueteiro, segundo ela. Mas acha que teria contribuído. “Poderia ter sido aproveitada. Tenho uma história de lutas e um nome. Infelizmente não fui chamada, mas não me ressinto disso. O importante é o resultado. E outra, o que eu não pude fazer na televisão eu fiz nas ruas”. E fez, muitas vezes de forma inusitada: em cima de um antigo Puma conversível vermelho, emprestado de um amigo, com um microfone sem fio.
Além de descer do salto para ganhar as ruas, ela também usou e abusou das redes sociais postando mensagens e pequenos vídeos sobre a campanha e temas políticos. Foi um grande canal de mobilização. Semanas a fio de uma rotina muito disciplinada: grava, posta, comenta, responde e compartilha. Mas Dona Iris sobreviveu. Devidamente maquiada e penteada, usando vaporosa e longa saia modelo indiano e camisa azul, ela me recebeu no movimentado escritório da T-9, na quinta-feira, onde carros ainda eram adesivados para push final.
Confira a entrevista
Britz – Como foi voltar para as ruas em campanha?
Iris – Quando Iris disse que seria candidato, fiz uma reunião e chamei uma turma, principalmente mulheres e jovens, que quisesse atuar comigo na campanha. O escritório estava lotado até de gente que eu não conhecia. A primeira coisa que eu disse esvaziou o recinto. “A campanha comigo será 0800”. Então fiquei com um grupo praticamente desconhecido, com uma quantidade expressiva de jovens. Juntei todos, com chamada e tudo, porque sou organizada. Eu comecei a trabalhar sem carro sem nada. Doei o meu e um amigo disponibilizou um Puma vermelho. A gasolina foi por nossa conta. E percorremos os bairros. Foi um tipo de campanha que eu acredito: andando e conversando com o povo, o legítimo corpo a corpo. Como eu sou conhecida podia falar em nome do Iris e pedir votos. Foi assim que dei o tom para o grupo, que não ganhou nem água. Fiz a campanha rigorosamente dentro da nova lei eleitoral. O grupo se tornou tão homogêneo que hoje todos são amigos. Eu consegui juntar gente dos 18 aos 80 com o mesmo objetivo. E todos vestiram a camisa do 0800.
Britz – E qual é o perfil dessas pessoas que trabalharam voluntariamente?
Iris – Como disse, havia gente de todas as idades, mas o que me chamou a atenção foi a quantidade de jovens formados, entre eles um grupo de arquitetos, Ariel, Gustavo e Fernando. Esse pessoal me apresentou um projeto interessante para o centro de Goiânia, o maior acervo Art déco da América Latina, que está abandonado. Levamos o projeto para o Iris, ele se entusiasmou e se comprometeu em assumir a causa, se eleito. Eu não conhecia o pessoal, foi uma coisa inédita.
Britz – Foi uma campanha atípica, diferente do que a senhora está acostumada a fazer…
Iris – Eu sempre fiz campanha nos bairros, mas era sempre o mesmo grupo de militantes. Desta vez trabalhei com uma turma que eu não conhecia. Pessoas que se integraram rápido ao meu sistema, ao pique da campanha. Fizeram campanha até em boate de madrugada. Uma turma encantadora.
Britz – O que a senhora aprendeu nessa campanha?
Iris – Aprendi que quanto mais a gente tem olhos para o povo, mas a coisa funciona. Achei que, com a limitação da lei, a campanha ficou mais democrática. Voltamos à prática da conversa franca com o eleitor. Antes era um faz de conta, com comícios animados por artistas e tudo. Hoje não. É o olho no olho. Não existiu na nossa campanha a figura do cabo eleitoral. Só voluntários que não ganharam nem copo d´água. Foi com esse pessoal e com as redes sociais que eu trabalhei.
Britz – Qual a estratégia que a senhora usou nas redes sociais?
Iris – Eu gravei vários vídeos sobre diversos temas, inclusive desmentindo a história de que o Iris vai deixar o mandato no meio do caminho. Uma bobagem. E ele vai fazer o quê? E foi também esse grupo de jovens que me ajudou a movimentar as redes sociais.
Britz – A exposição nas redes sociais pode ajudar a construir, mas também destruir uma imagem. Como senhora administrou isso?
Iris – Eu assumi o risco. Quando você entra nessa onda você deve estar disposto a expor o que você pensa, mas sabendo que virão críticas, pois estou nas redes há muito tempo. Eu recebo muitas críticas dos adversários, mas eu tenho bastante espírito público para não querer processar. E olha que já fui atacada moralmente, mas nunca quis processar ninguém. É aquela história: quem fala o que quer ouve o que não quer. O bate-apanha é normal. É aplauso e tapa mesmo.
Britz – Qual é o seu estilo de postagem: tipo tapa com luva de pelica?
Iris – Eu falo francamente o que sinto e o que eu pendo. Sou muito direta, sem rodeios.
Britz – Essa campanha deixou alguma mágoa digital?
Iris – Não, nada disso. Apesar de terem nos atacado com coisas muito baixas, eu relevei. Estava ciente do que poderia acontecer. Eu sou preparada. Quem apela, perde. O importante é que eu fiz o que eu queria fazer: expus o meu pensamento, critiquei o que deveria ser criticado, elogiei o que deveria ser elogiado – apesar de que hoje, pouca coisa esteja merecendo elogios.
Britz – O que mais a fascina nas redes sociais?
Iris – O que eu acho bacana é que até bem pouco tempo o povo não tinha uma válvula de escape. Não havia como expor o pensamento. Não havia ouvinte para a voz do povo, da massa. Então, acredito que, apesar de serem perigosas, as redes sociais são muito democráticas. Todos têm acesso.
Britz – Assim que passar a eleição, para quem a senhora vai mandar o primeiro What´s App?
Iris – Vou mandar para o Iris. Vou escrever e mostrar para ele ler, ao vivo, cumprimentando pelo belo trabalho durante a campanha.
Britz – Com quem a senhora compartilha a sua vida?
Iris – No dia a dia, compartilho com todos à minha volta. Eu não tenho vida particular, só pública. Eu venho todos os dias para o escritório, onde fica o meu estúdio. Às vezes chego de bobs na cabeça e faço reunião assim mesmo. Às vezes estou de cara lavada e cabelo molhado. Sou assim. Toda a família passa boa parte do tempo aqui. O nosso estilo de vida é aberto. Todos os que frequentam o escritório sabem tudo sobre a nossa família. É que aqui eu respiro, almoço e janto política. Até meus netos participam. Eles foram para as carreatas, acompanharam o avô em suas andanças e até nos debates. A política está no nosso sangue.
Britz – Se Iris chegar à Prefeitura de Goiânia a senhora será uma primeira-dama digital?
Iris – Eu continuarei nas redes sociais. Até porque vai me dar a oportunidade de ser olhos e ouvidos do prefeito. Acho importante que o administrador receba informações de toda ordem – verdadeiras e tendenciosas. Eu pretendo ajudar muito o Iris nesse sentido. Vou estar linkada nas redes para sentir o que acontece em toda a cidade. Como eu sou presidente da Fundação Ulysses Guimarães, eu comecei a percorrer os bairros em janeiro, num momento em que ele não seria candidato, levando os cursos. Terminada a campanha eu continuo com esse trabalho também. Isso vai me dar oportunidade de acompanhar in loco o que está acontecendo na cidade. Eu acho que, de certa forma, serei uma ferramenta com olhos e ouvidos bem abertos.
Britz – Um projeto que a senhora sonha encampar, se chegar a ser primeira-dama novamente?
Iris – A Casa de Vidro, que não foi feita. Eu consegui até o recurso de três milhões e meio. A ideia é construir um espaço para abrigar aulas de dança, música e outras atividades para crianças. A transparência do local seria uma forma de atrair as pessoas para o projeto. Um espaço nobre – no caminho para o Flamboyant – dedicado à cultura. Essa ideia minha é antiga. Só que infelizmente, depois de muitas idas e vindas, a Casa de Vidro não se concretizou. E eu quero resgatar esse projeto, se Deus quiser.


Voluntário apresenta projeto para Goiânia
“Eu e, o Ariel e o Fernando temos amizade desde a faculdade. Quando viemos nos juntar à Dona Iris, falei que faríamos o trabalho de rua, porta em porta, trabalhando no esquema dos três “S”. Num determinado momento, Dona Iris nos falou da preocupação com o centro de Goiânia. Daí apresentamos para ela um projeto elaborado na faculdade que visa melhorar o centro da cidade, começando pela recuperação do patrimônio Art déco. Também ampliar a infraestrutura existente no que se refere a cultura.Temos o maior acerto art déco da América Latina. No projeto, constam a implantação de polo gastronômico e uma agenda cultural que atenda a toda a população. E o candidato Iris abraçou o projeto na primeira reunião. Na verdade, não se trata de um simples projeto, mais um legado para a cidade de Goiânia, que vai beneficiar o comerciante e toda a comunidade, além de incrementar o turismo. Um projeto que está pronto, basta executar.”
Gustavo França, arquiteto