Dos casamentos e outros conúbios
Redação DM
Publicado em 20 de outubro de 2022 às 15:10 | Atualizado há 4 anosTodas as pessoas bem-informadas, estudadas sobre o funcionamento de nossa sociedade, devem admirar da produção literária, do cronista, jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues. Ninguém no Brasil retratou tão bem como ele sobre o comportamento social, o caráter, a intenção, os projetos demonstráveis ou secretos, os vícios, os gostos, os expedientes desse bicho chamado homem ou mulher. Agora, vamos aqui imaginar que Nelson Rodrigues viveu o seu auge intelectual e novelista em plena ditadura militar. Com ele não havia a observância do politicamente correto, quando os assuntos eram a sociedade de seu tempo. Com ele não tinha a fala mole, melíflua, estilo conservador, puritano e elegância pela simples elegância, para agradar esse e aquele grupo, essa ou aquela família ou em quem se ajustava a carapuça.
Nelson Rodrigues, em suas crônicas, tinha certa predileção por questões que mesmo em tempos de liberdade de imprensa e opinião, como em nossa democracia, soariam como impertinentes ou constrangedoras. As traições maritais e esponsais, as infidelidades conjugais, as taras, os deleites e orgias sexuais eram alguns de seus temas, lidos e relidos por seus milhares e milhares de leitores dos jornais impressos da época. Tempos idos em que se liam livros, revistas e jornais.
Casamentos, namoros, “casos” extraconjugais, encontros. Como escreveria Nelson Rodrigues em tempos digitais nas redes sociais? A ver. O que importa de fato é que esse homem, essa mulher, essa jovem e jovem rapaz, essas famílias não mudaram em seus intentos, em seu caráter, comportamento. A alma, a psique, o recôndito e os desejos das pessoas são imutáveis. Na era da internet, mais expostos, desavergonhados, sem pudor. Mudou-se o conceito de intimidade e privacidade. Será que Nelson Rodrigues faria o mesmo sucesso de então, se escrevesse para o público de hoje?
E as pessoas, as mulheres e homens desejam, forçam, representam, encenam e buscam o seu sucesso, qualquer destaque social. Não importa quem veja. Não importa o crivo de segmentos sociais e censura dessas e outras entidades, patrulhas ou lupas humanas, de onde vier e para quem apontadas.
Agora são outros tempos. Gonçalves, homônimo e não heterônimo de Nelson, é desses filósofos que faz das redes de amigos a sua ágora brasileira. E não se faz de rogado quando instado para emitir pareceres concernentes à nossa sociedade. Ele faz da observação diária o seu laboratório predileto. Porque de fato o é, para quem escreve, observa, analisa com esmero e fundamentos. Nosso agora Gonçalves não deixa nada escapar de suas lentes aquilinas. É tido e considerado um empirista nato e vocacionado, convincente e admirado.
Sobre casamentos, conúbios e arranjos conjugais, ele dá sua opinião incontestável pelos exemplos práticos e fracassos que nomeia. Muitos casamentos e uniões a dois não se fazem com fundamentos estritos no amor. Outros e magníficos gatilhos e recônditos intentos se afloram e ganham consistência nessas celebrações e pactos. Como proclamava alto e sonante o novelista Rodrigues, “dinheiro compra até amor verdadeiro”. Muitos são os pactos esponsalícios que entremeados com afirmações de amor são fomentados com fortes doses materiais, fortuna pecuniária, de função, posição social, bens moventes e semoventes.
Muitas são as pessoas, moças e moços, que se casam entre si. A dois, a quatro, a seis. Como assim? Pergunta um interlocutor ouvinte de suas prédicas. Porque entram no consórcio ou conúbio (convenção conjugal), os pais da moça, os pais do moço, da noiva e noivo. E com outros reparos entram bens não isonômicos de um lado e de outro lado. São as regras e tendências internas e secretas, da índole e têmpera dos homens e mulheres daqueles e de todos os tempos.
“Um homem não tem mais merecimento por nascer inteligente, que por nascer do conúbio de um duque com uma duquesa” – Santo-Tirso. Daí em tempos digitais, e de amplos direitos e prerrogativas, se pode consignar referido veredito, sem contumélia, sem invectiva. Nada que é humano, me é alheio porque sou humano – Terêncio, poeta romano.