O enjoo seco de quem repousava
Redação DM
Publicado em 15 de julho de 2022 às 17:15 | Atualizado há 4 anos
Por Marcela Iossi
Não há qualquer necessidade de que se teça um texto longo e cheio de considerações para que qualquer mulher no Brasil atual compreenda o medo e a insatisfação que nossos corpos gritam. Não há que se falar do grito mudo que engolimos diariamente ao sair de casa e nos deparar com notícias como a de ontem. As palavras cantam uma melodia estranha e triste: “um anestesista”, “durante o parto” “sedada”. O juramento de Hipócrates rasgado “Aplicarei os regimes de vida para a utilidade dos doentes de acordo com a minha capacidade e meu juízo, abstendo-me de qualquer malefício ou dano (injustiça). Não porei nenhum veneno em mãos de ninguém, … Passarei a minha vida e praticarei a minha arte pura e santamente (…)”. Ah, mas teríamos um juramento de hipócritas, o corporativismo torpe que defende aos seus se esquecendo daqueles que juraram proteger.
Como eu disse antes, toda mulher já entendeu a dor, a angústia, o medo, o enjoo que nasce do âmago, que nos esgota, que nos faz esmorecer e quase perder a esperança. Mas para aqueles que não carregam a doçura e a fortaleza de ser mulher, cis ou trans, hetero, bi ou homossexual, para aqueles que não nos enxergam ou simplesmente ignoram nosso existir, para esses sigo.
Imagine se deitar pleno, cheio de alegria porque dará a luz a um pedacinho seu, porque vem chegando o fio de alegria que pode ou não ter planejado, mas que vai te fazer sorrir quando chorar, imagine que você quer compartilhar isso tudo por toda sua vida, e pela dessa criança. Mas você acorda, aquele gosto amargo, o hálito que você já sentiu outras vezes, mas talvez em bons momentos, talvez em momentos que até te fizeram sorrir e que levaram ao nascimento dessa criaturinha que agora repousa ao seu lado. Você ignora, acredita que seja efeito da sedação, afinal, você estava protegida, médicos e enfermeiros ali, cuidando de você, enquanto você passava por esse momento de vulnerabilidade. Está tudo bem…
Mas ei, o que a delegada faz no hospital? Por que a polícia está aqui? Algum criminoso por aqui? Por que falam com o médico que me atendeu? Será que cometeu um erro médico? Pobre dele, ninguém mais respeita os profissionais. Um momento, o que o policial quer comigo? …
…
…
Desculpe, precisei de um tempo pra entender que de agora pra frente todas as vezes que olhar para o meu filho, vou lembrar desse momento, que de agora em diante nunca mais confiarei em outro homem sem questionar, que de agora em diante todo homem é sim “um potencial estuprador”. Não venha o senhor, “cidadão de bem” reclamar do desabafo, é que todo estuprador falava que era cidadão de bem. O chefe da menina quando abusou dela no estágio era pai de família, honrado, que ia na igreja e era membro de uma sociedade de homens poderosos.
O pastor que abusou da “ovelha” batia no peito para dizer que era representante do todo poderoso. O homem que se dizia “de Deus”, cobrava favores sexuais para curar mulheres, usava a fé como arma. O pai e o avô que abusavam da menina, gritavam por decência, criticando a saia curta da vizinha e os hábitos etílicos da prima. O jogador de futebol se diz cristão, mas mesmo casado quis manter relações com uma mulher completamente embriagada. O médico… ah o médico… a roupa dela não era curta, ela não se insinuou, nem quer havia oportunidade, mas ele se julgava protegido. Salve as mulheres, enfermeiras, bravas, que mesmo correndo risco deixaram o celular para fazer prova do inenarrável, do abominável. Salve as mulheres!!!!
Marcela Iossi é Advogada. Mestre em Direito Agrário. Professora nas cadeiras de Direito Penal e Prática Penal dos cursos de Direito da UNIARAGUAIA.
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