Política

Uma voz a favor do camponês

Redação DM

Publicado em 28 de agosto de 2018 às 02:45 | Atualizado há 8 anos

“Para resumir, em uma frase, a razão de pleitear um manda­to de deputado federal, e a cau­sa maior a ser defendida no Con­gresso Nacional, afirmo que será a luta contra todas as formas de desigualdade que oprimem o ser humano”– afirma José do Carmo Alves Siqueira, o Zé do Carmo, ou, como também gosta de ser cha­mado, “Professor José do Carmo”.

Embora toda definição ideo­lógica seja um tanto arbitrária, eu ousaria definir Zé do Carmo como um socialista cristão. Apesar de ter sofrido forte influência de um pensador brasileiro marxista, ele é essencialmente um cristão. Não porque, ao contrário de um cer­to candidato à presidência, ande com Jesus no coração. Mas porque fez e faz dos ensinamentos éticos de Jesus, contidos nos evangelhos, o seu guia para a ação.

O cristianismo, em suas ori­gens, conforme apontou Karl Kautski – que foi nomeado por En­gels o continuador da obra mar­xista – foi uma forma radical de igualitarismo. As primeiras comu­nidades cristãs, quer as fundadas por Cefas, quer as fundadas por Saulo de Tarso, eram comunistas. É claro que essas ideias perigosas seriam abandonadas lá na frente por igreja que leu Platão e se estru­turou hierarquicamente. E até en­viou cruzadas sanguinárias con­tras Albigenses e o Cataros, pelo pecado de pregarem o igualitaris­mo em nome de Jesus.

Mas não há como desvincular do ideário cristão o clamor por igual­dade. De uns tempos para cá, até o papa, este que aí está, o Francisco, vem cada vez mais realçando as ten­dências socialistas do cristianismo.

O autor marxista brasileiro que influenciou Zé do Carmo, confor­me ele diz, foi Caio Prado Júnior. Este intelectual paulista, já faleci­do há muito tempo, foi o primeiro historiador brasileiro a investigar o Brasil através das categorias mar­xistas de análise econômica. Em seus livros sobre a formação eco­nômica do Brasil, Caio Prado de­monstra que nosso atraso histórico tem raízes nos conflitos sociais en­gendrados pela gênese e desenvol­vimento do capitalismo entre nós. Não se trata de uma maldição bí­blica nem de uma anomalia cau­sada pela miscigenação, que teria nos legado a suposta indolência do índio e a folclórica malandragem do negro, a que se poderia acres­centar a ignorância de certo ge­neral candidato a vice-presidente.

Nascido na velha Vila Boa de Cora Coralina, naquele ano pavo­roso que foi 1968, o professor Zé do Carmo jogou bola na rua e começou a trabalhar com o Zé Capilé, aos 12 anos de idade. Alfabetizado em casa e no Mobral, estudou no Colégio Es­tadual Dom Abel,depois no Colégio Sant´Ana, em seguida começando a vida de professor de Matemáti­ca, História, Ensino Religioso, des­de 1984, a convite das irmãs Rita, Revy, Stela e Noêmia.

“A Igreja de Dom Tomás Bal­duíno foi uma das minhas esco­las fundamentais”, conta José do Carmo, que foi mais que amigo, um discípulo do bispo que mar­cou toda uma geração de idealis­tas como referência de luta pela reforma agrária, pela democracia, em defesa dos índios e de sua cul­tura. Adolescente, atuou na funda­ção o Partido dos Trabalhadores – PT, na cidade de Goiás. “Nunca fui de outro partido. Só saí de Goiás, com 19 anos, para continuar a es­tudar em Goiânia. Cursei Direi­to, na Universidade Católica de Goiás (1988/93), enquanto traba­lhava no Setor de Documentação da Violência no Campo da CPT Nacional. Terminei a graduação, recebi minha Carteira de Advoga­do da OAB-GO e parti para o Ma­ranhão, onde me tornei advoga­do da CPT, da Fetaema, SMDDH, e de tantas pessoas do campo e da cidade. Foi na Prefeitura de São Luís/MA que comecei a atuar na Advocacia Pública, em 1997, ano em que me casei com a professora Ebe Maria de Lima”– conta.

É vasto o currículo acadêmico de José do Carmo. Entre suas reali­zações, está a proposta e coordena­ção da primeira Turma de Gradua­ção em Direito para Assentados da Reforma Agrária e Agricultores Fa­miliares, numa parceria entre Mo­vimentos Sociais do campo, Incra/ Pronera e UFG (2007/12). Nesse período, no governo do presiden­te Lula, houve a maior expansão da Educação Superior no Brasil, que “foi quando pudemos consolidar a presença da UFG em Goiás, criando novos cursos como Serviço Social, Filosofia, Arquitetura, Administra­ção, Educação do Campo”.

José do Carmo acumulou expe­riências de assessoria e de consul­toria jurídica a projetos nacionais como o do Combate ao Trabalho Escravo, Campanha pela Refor­ma Agrária, criação do Programa Nacional da Agricultura Familiar, Proteção a Defensores de Direi­tos Humanos. Atuou como con­sultor nos atos jurídicos prepa­ratórios para as realizações dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos e da Copa do Mundo no Brasil.

“Me dediquei muito, também, à cidade de Goiás. Participei de vá­rias eleições locais. Já fui até candi­dato a prefeito em 2004. De lá para cá, participei ativamente das articu­lações políticas e na defesa jurídica das candidaturas e dos mandatos da professora Selma, nas eleições de 2008, 2012 e 2016, sendo estas duas últimas vitoriosas. Acredito, respeito e valorizo a democracia, a participa­ção, o planejamento e a transparên­cia no exercício de qualquer cargo público. Colaborei com alguns pro­jetos importantes para Goiás, como a criação da Efago e a implantação da UFG. Também, ajudei a viabi­lizar apoios e recursos do governo federal para a nossa cidade – épo­ca em que Goiás recebeu os maio­res investimentos públicos federais. Apoiei o projeto e, hoje, sou asses­sor jurídico voluntário da Associa­ção Mulheres Coralinas. Fui cofun­dador e sócio da Escola Letras de Alfenim (1999-2017)”, conta.

REFORMA AGRÁRIA

Com toda sua experiência pro­fissional e acadêmica, José do Carmo não titubeia em afirmar que a reforma agrária continua uma questão atualíssima, a des­peito de quem diga que trata-se de uma agenda ultrapassada.

“Não se pode pensar a reforma agrária meramente como entrega de um pedaço de terra, lá longe, para algum agricultor que vai fi­car lá isolado, sem recursos, sem meios para prosperar”, afirma. Para José do Carmo, a peque­na propriedade rural familiar tem força para fornecer ali­mentos com fartura e ba­ratos para todo o País, além de absorver gran­de mão de obra. Mas é preciso, diz ele, criar toda uma base de apoio credití­cio, técni­co e institu­cional aos pequenos agriculto­res, organizá-los em cooperativas e associações, com uma legislação adequada, para dar-lhes condições de desenvolver um trabalho rentá­vel, altamente produtivo”, diz ele.

Para José do Carmo, “somente na atuação política podemos ge­rar oportunidades para melhorar a vida de todo mundo”. José do Car­mo ocupa um espaço eleitoral pri­vilegiado. Os católicos progressistas sempre elegeram dois deputados federais em Goiás, pela legenda do PT. Com a desistência de Pedro Wil­son e de Marina Santana de dispu­tar a eleição, o espaço passa a ser ocupado por José do Carmo. Ele desponta, assim, como o puxador de votos do PT, com grande possibilidade de ser eleito.

Sabemos que um de­putado federal atua e decide matérias le­gislativas para todo o Brasil, mesmo sendo eleito por um Estado ou pelo Distrito Federal. Mas, além de ser do País e do Estado de Goiás, nasci e fui criado na cidade de Goiás, onde moro e trabalho na UFG. A nossa cidade precisa retomar a sua impor­tância no Estado e no País. Desde 1986, a cidade de Goiás nun­ca mais teve um representante local na Câmara Federal”, afirma.

 



Somente na atuação política podemos gerar oportunidades para melhorar a vida de todo mundo”

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