Política

“Nojo” de José Eliton cria estremecimento na base governista

Redação DM

Publicado em 9 de junho de 2018 às 02:11 | Atualizado há 8 anos

  • “Nada mais retrógrado, nada mais ultrapassado, nada mais vil, nada mais leviano, nada nos enoja mais do que ser obrigado a ter esse debate no cenário político, cruel debate”, ressaltou o tucano

 

O discurso do governador José Eliton no Teatro Ba­sileu França, na última segunda-feira, na abertura de um seminário sobre Educação, trouxe mais turbulência para a já inquieta base governista – sob tensão, hoje, diante das pesquisas que apontam para uma disparada do senador Ro­naldo Caiado, em 1º lugar nas inten­ções de votos e com possibilidade de vencer no 1º turno.

“Nada mais retrógrado, nada mais ultrapassado, nada mais vil, nada mais leviano, nada nos enoja mais do que ser obrigado a ter esse tipo de debate no cenário político, cruel debate”, desabafou o governa­dor, numa alusão às pressões rece­bidas do PP, não mencionado, que estaria exigindo cargos como a presi­dência da Saneago para fechar apoio à candidatura de José Eliton.

Mas o discurso acabou ganhan­do amplitude além dos interesses do PP e foi visto como uma manifesta­ção contra a própria política. Afinal, foi Marconi Perillo, em seus anos de governo, quem montou uma densa e complexa base aliada, abrigando políticos e partidos nas secretarias e outros órgãos públicos de importân­cia. Nesse mister, Marconi foi bem sucedido e governou sem crises, dei­xando um legado de equilíbrio polí­tico que durou pouco após a sua de­sincompatibilização.

Desde que assumiu, em 7 de abril último, que José Eliton repete diaria­mente que está concentrado na ad­ministração, que vai continuar as­sim no mínimo 20 de julho e que só aí cuidará dos assuntos políticos com vistas á próxima eleição. Desa­fios se acumulam na base governis­ta, entre eles a já falada saída do PP para apoiar a candidatura de Daniel Vilela; a divisão interna do PSD, cujo presidente, Vilmar Rocha, tornou­-se o maior crítico do governador; e a acirrada disputa pela 2ª vaga ao Senado entre Lúcia Vânia e Demós­tenes Torres, sabendo-se que quem perder deve passar para o lado dos adversários, levando um ou mais partidos importantes (Lúcia Vânia o PSB e o PPS do seu sobrinho Marcos Abrão e Demóstenes o PTB).

BALDE DE GASOLINA

Na definição de um dos deputa­dos estaduais do PSDB, com gran­de peso na Assembleia, o discur­so de José Eliton jogou um balde de gasolina numa fogueira que já crepitava perigosamente, amea­çando a estabilidade do edifício – a ampla coligação de partidos lide­rada pelo PSDB – construído pelo ex-governador Marconi Perillo ao longo dos seus últimos dois man­datos. Se havia insegurança quan­to à eleição, ele agora é ainda maior.

AGENDA DA MODERNIDADE

O problema é que o discurso, vis­to inicialmente como um desaba­fo contra as pressões que o governo vem sofrendo do PP do ministro das Cidades, Alexandre Baldy, e do de­putado federal Heuler Cruvinel, que claramente insistem em mais espa­ço na administração estadual, pare­ce ir além disso e encontrar coerên­cia com tudo que José Eliton vem falando desde que tomou posse como governador. Ele lembra e re­lembra, diariamente, que faz a po­lítica do bem, que procura a con­vergência dos interesses a favor de Goiás, que está preocupado com os goianos que mais passam dificulda­des e que seu mandato-tampão será voltado para uma agenda de moder­nidade e de promoção social.

Isso pode significar que o go­vernador se desligou da realidade miúda do dia a dia da política e dos interesses partidários para se con­siderar investido em uma missão superior de levar Goiás a uma re­denção, como uma espécie de líder divino superior às pessoas comuns e, principalmente, à classe política, que seria marcada por interesses pequenos e individuais. “Nós pen­samos no coletivo”, pontua José Eli­ton a cada discurso ou entrevista. “Eu estou aqui para ajudar quem precisa”, acrescenta.

Só que, no mundo prático da po­lítica, ninguém pensa assim. Exis­te uma disputa acerba pela sobre­vivência: deputados, por exemplo, têm que se reeleger e para isso ne­cessitam de todo reforço possível, capítulo em que nacos do poder es­tadual adquirem relevância espe­cial. É por isso que o grupo do mi­nistro Baldy e do deputado Heuler Cruvinel reclama do que conside­ram pouco espaço no governo – a Agehab e a Secretaria de Meio Am­biente, que, segundo os dois, tiveram os títulares indicados por eles, mas só, quer dizer, o restante das duas pastas é ocupado por indicados de outros partidos e na prática esvazia o controle do PP nessas áreas.

O discurso de José Eliton tam­bém está sendo analisado do ponto de vista de uma evidente contradi­ção: ele tem praticado o que agora diz condenar. Ao assumir, recriou uma secretaria – a do Trabalho – para atender ao grupo do deputa­do federal Lucas Vergílio e seu pai Armando, além de quase uma cen­tena de cargos com salários eleva­dos para abrigar prefeitos e aliados (gastos de R$ 6 milhões/ano), com considerável impacto na folha de pagamento do Estado. Além dis­so, confirmou a Secretaria de De­senvolvimento – agora e porteira fechada – para o PTB, que indicou um desconhecido ex-vereador de Anápolis para o cargo.

CRÍTICAS DE DANIEL

Daniel Vilela, do MDB, também candidato a governador, veio na fu­maça: nas redes sociais, promoveu um barulhaço atacando José Eliton como hipócrita, já que condenou o uso de cargos públicos como moe­da de troca para conquistar apoio, “mas abriu um balcão de negócios no Palácio das Esmeraldas”. Segun­do Daniel, o atual governador “tem uma prática política atrasada, ba­seada na concessão de cargos e se­cretarias para angariar alianças, em detrimento da qualificação técnica e gerando prejuízos para a população”.

As críticas do emedebista tive­ram repercussão, mas não são o fun­damental: é dentro da própria base governista que o discurso de José Eliton provocou inquietação. A 120 dias das eleições, há problemas gra­ves aguardando solução, o ex-gover­nador Marconi Perillo continua de­saparecido (estaria em uma viagem ao exterior), os deputados estaduais ainda não tiveram resolvida a ques­tão do “chapão” e, pior de tudo, a fal­ta de desempenho positivo nas pes­quisas, sem uma reação à vista, é que abala o moral das tropas governis­tas e causa um princípio de pânico.

 

O QUE DISSE O GOVERNADOR

No Basileu França, na última segunda-feira, para palestra, o go­vernador José Eliton (PSDB) con­denou, durante discurso, “práticas partidárias ultrapassadas que vi­sam assegurar espaços no gover­no”. Na ocasião, ele lamentou que ainda exista a discussão e ocupa­ção de espaços de governo para se discutir formação de composi­ções partidárias. “Nada mais retró­grado, mais ultrapassado”, criticou.

Na ocasião, ele acrescentou que os “tempos tristes da política brasi­leira” exigem novas práticas políti­cas e defendeu que o momento é de uma agenda nacional e estadual muito mais focada em resultados.

Para José Eliton, tal tipo de dis­cussão é para aqueles “que acham que a sociedade não muda, não avança” e não observam “a nova realidade”. Sobre tal entendimen­to da ocupação de espaços, o go­vernador garantiu que a a prática será abolida.

“Aqueles que quiserem se unir, pensar e sonhar um estado me­lhor, o farão por convicção, não por moeda de troca”, assegurou, dizen­do que os governantes tem que ter a coragem de mudar “mesmo que isso tenha ‘efeitos danosos’ do pon­to de vista política.”

Depois, em entrevista coletiva, o governador José Eliton (PSDB) vol­tou a falar sobre o assunto, depois de ser questionado se suas afirma­ções eram um recado aos partidos políticos para o processo eleitoral deste ano.

“Não, acho que esse é um pen­samento que eu tenho muito forte. Não é possível você construir uma base programática, com base em uma política arcaica, do passado, que visa apenas, e tão só, ocupa­ção de espaços”, disse. “Acho que é importante você ter compromissos ideológicos, compromissos com projetos, alicerçado em bases pro­gramáticas sólidas”, frisou.

“Quero construir uma base de governabilidade importante, que dê sustentação política – porque no modelo republicano que nós temos é importante – mas, acima de tudo, uma base que dê resulta­do para as pessoas, que atue em fa­vor dos cidadãos”, finalizou.

 

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