Política

“Em julho, base aliada pode trocar José Eliton”

Redação DM

Publicado em 12 de abril de 2018 às 02:44 | Atualizado há 8 anos

O ex-titular da Secretaria de Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos, Ci­dades, Infraestrutura e Assuntos Metropolitanos (Secima), o ad­vogado Vilmar Rocha, presiden­te estadual do PSD, não pretende baixar a guarda diante do afuni­lamento natural da base aliada.

Ao contrário, pretende mostrar do ponto de vista lógico e demo­crático que algo de errado ocorre no grupo político capitaneado pelo ex­-governador Marconi Perillo.

Em entrevista ao Diário da Manhã, o ex-deputado federal por cinco mandatos e dois esta­duais, com extensa carreira no magistério de direito, diz que a base deve rever a candidatura de José Eliton (PSDB) caso não dese­je ver uma debandada em junho.

A tendência, diz Vilmar, é que a inércia da base se mantenha nas intenções de voto apresentadas até agora, com pouca variação.

Um dos quadros mais expe­rientes da base aliada, Vilmar aponta as deficiências que têm desnutrido o marconismo – caso da falta de renovação de quadros e insistência em obras – e alerta: seu grupo político também pode migrar para a oposição.

Em esclarecida entrevista ao DM, ele alerta que o “Tempo Novo” está exaurido e que precisa se rees­truturar de forma completamen­te diferente. Pré-candidato na base a um cargo majoritário (ao Sena­do, de preferência), Vilmar observa com seriedade o desdobramento dos atos que ocorrem nesta segun­da fase da disputa eleitoral.

Passada a fase dos personagens que desejam disputar as eleições se acomodarem em suas cadeiras, Vil­mar explica que chegou a hora do grupo de Marconi perceber a in­versão que está no ar. Ele alerta que cantou a pedra meses atrás, quando indicou um nome ao governo “mais sociedade civil” e menos “governo”.

A situação crítica está revelada nos números, sugere o presidente estadual do PSD: José Eliton está com 6,7 das intenções de votos. Me­ses anteriores, nesta mesma situa­ção, Alcides Rodrigues (que ven­ceu as eleições em 2006, lançado por Marconi), aparecia com 11%. E o detalhe era que Marconi Perillo, na época, tinha um governo apro­vadíssimo. Na atualidade, Marconi está distante dos 40% de aprovação – limite considerado na sondagem de pesquisas, que indica capacida­de de reeleição ou eleição de algum indicado pelo mentor. Para efei­to de comparação, em 1998, Ma­guito Vilela deixou o governo com aprovação popular de 72% (Data­folha) entre ótimo e bom. E mes­mo assim o MDB perdeu as elei­ções para o jovem Marconi Perillo.

 

ÍNTEGRA DA ENTREVISTA

 

O senhor será candidato a governador ou senador?

Sou candidato à eleição ma­joritária. Ou seja, é governador e senador. Não desejo a eleição pro­porcional, por exemplo. Agora essa decisão só vamos tomar na conven­ção. Primeiro, nosso partido vai es­colher democraticamente de qual aliança ele pretende participar. E vou perguntar qual é a melhor op­ção para cada integrante. No meu caso, o natural seria ser candidato ao Senado Federal, já que disputei este mandato nas últimas eleições. E também são duas vagas.

O PSD perdeu um deputado federal, Heuler Cruvínel. Faz falta?

Perdemos ele e ganhamos dois estaduais, o Lucas Calil e Simey­zon Silveira, que têm nosso per­fil, ideal ao PSD, são novos, con­temporâneos… Lamento a perda do Heuler, pois ele teve todo espa­ço com o PSD. E nós do PSD de­mos todo apoio para ele, inclu­sive nas eleições para prefeito de Rio Verde. Mas e agora? O que tí­nhamos para Heuler é um espa­ço para que pudesse disputar a candidatura de deputado fede­ral. Parece que este não é o projeto dele. Lamentamos a perda, mas bola pra frente. Vida que segue.

DM–Ele saiu devido ao fato de seu partido ter como opção também não apoiar a base?

Eu acho que esse pode ter sido, sim, um dos motivos. Pois essa posi­ção nossa, do partido, é muito cla­ra e transparente. Já repetimos: só vamos decidir esta opção na con­venção, que deve ocorrer entre julho e agosto. Não sabemos ainda qual aliança iremos fazer. Agora, muita gente pergunta assim: “Vilmar, o se­nhor é da base?”. Digo: sou da base. Todos nós, pois esta base, este atual go­verno, foi eleito por nós. Pois ajudamos a eleger e ajudamos a governar. E temos compromisso com esse governo até dia 31 de dezembro deste ano, ou seja, 2018. Temos feito isso. Por exemplo: na Assembleia Legisla­tiva, nossos três deputados esta­duais continuarão apoiando os projetos do atual governo. É um compromisso nosso. Estamos fir­mes até o fim, ou seja, repetindo: até 31 de dezembro. Isso é uma coisa. Outra diferente é aliança que nós vamos fazer neste ano para as eleições cujo governo vai iniciar em 2019. Isso é diferente.

Deputado Thiago Peixoto e outros já anteciparam posicionamento do PSD a favor da candidatura à reeleição de José Eliton.

Acho isso normal. Pois não vamos censurar ninguém que de­seja manifestar sua opinião pes­soal, sua avaliação, etc. Todos são livres. Acho normal mesmo. Agora tenho uma ressalva: não é uma de­cisão do partido. Repito: pelo par­tido fala seu presidente. Até porque o partido não são apenas os depu­tados… São os prefeitos, vereado­res, militantes… O fato que precisa ser dito é claro: a decisão ocorrerá apenas na convenção, pois é o pro­cesso mais democrático.

Wilder Morais sentiu ingerências no PP e preferiu não pactuar com isto. Deixou a legenda. O senhor não terá este problema?

Isso não se discute. A decisão será nossa, aqui, em Goiás. Asse­guro que vamos ouvir todos. E to­maremos nossa decisão.

O ex-governador Marconi Perillo tem tentando interferir no PSD?

Ele não tem condições de pro­vocar interferências. Pode ter a opi­nião dele, mas não interfere. Nem ele nem ninguém de fora terá in­fluência. A responsabilidade desta decisão será nossa. E vamos tomá­-la apenas na convenção.

O senhor declarou no DM que o “Tempo Novo” acabou. E o governador atual lançou o “Novo Tempo Novo”. Concorda com o slogan? Isso representa a mudança?

Primei­ramente, este slogan é me­ramente retó­rico. Sem con­teúdo. Éapenas umslogansem base na reali­dade política ou da história política de nos­so estado.

Mas o slogan representa mudança?

Não. Não representa nada. A mudança tem que começar por pessoas, mas por mudança real na prática política e na gestão. Tenho orgulho em dizer que participei dos 20 anos do “Tempo novo”. Inicial­mente como deputado e ultima­mente como secretário. Fui um dos sustentáculos políticos desse movi­mento. O “Tempo Novo” foi muito positivo para Goiás, avançamos na economia, na área social. O salto é positivo. Só que agora precisamos fazer uma mudança.

DM – Então o “Tempo Novo” morreu?

Ele esgotou. Este ciclo chegou ao fim, esgotou. E nós temos que aproveitar agora este período de pré-campanha para formular um programa, uma agenda para o fu­turo. Vou dar um exemplo concre­to: tirar o foco da infraestrutura e dar foco para a gestão, a profis­sionalização do serviço público, ao ser humano. Por exemplo, na área de saúde o foco não é mais construir novos hospitais. O foco é melhorar a qualidade do aten­dimento. É colocar tecnologia e informática neste atendimento. É oferecer rapidez e qualidade. Isso é gestão. Isso não é areia, ci­mento, nem tijolo. A infraestrutura já está razoável em Goiás. Vamos fazer obras, mas qualificar mais. Na educação, saúde e segurança.

O senhor e o PSD mantêm o diálogo com o MDB?

Temos conversado. Espero con­vidar também o senador Ronal­do Caiado nas próximas semanas para conversar. Converso com in­tegrantes da base, todos integran­tes. Nesta fase, não temos precon­ceito. Eu, como dirigente, tenho que estar aberto para falar com todos.

O senhor superou as diferenças com Ronaldo Caiado?

Todos conhecem nossas di­vergências. Estes dias soube que em uma entrevista, em uma rádio de Goiânia, o senador teria dito que não ficou nenhum ressentimento desta nossa “luta”. É verdade. Se não ficou da parte dele, não ficou também da minha. Sabe o moti­vo? Pois sempre enfrentamos nos­sa luta cara a cara, de frente, olho no olho. Tínhamos e temos diver­gências políticas, visão diferente da sociedade, mas o ressentimento pes­soal é zero da minha parte. E zero da parte dele. É por essa razão que não temos dificuldade de diálogo.

O senhor estaria melhor do que Zé Eliton nas pesquisas?

Não seria legal falar meu caso. Mas eu, há um ano, defendi que o candidato da base deveria ter um perfil diferente do candidato do PSDB. Qual era este perfil? Tinha que ser alguém que não fosse do go­verno. Que fosse alguém da socieda­de. Ou alguém que tivesse sido esco­lhido pelo conjunto da base. Assim todos nós apoiaríamos este candi­dato. Esta pessoa deveria ser mais vinculada à sociedade do que ao governo. E não foi o que aconteceu.

De zero a dez, qual a chance do PSD apoiar José Eliton?

5.

Foi antidemocrático o ex-governador, ou seja lá quem for do PSDB ou da base, impor o nome de José Eliton, Lúcia Vânia e Marconi ao Senado? Política não é militância?

É…eu fiquei sabendo disso pelos jornais. Não sei se foi feito o acerto ou não. Mas nunca me chamaram para discutir nada. Talvez não chamaram, pois sa­bem da minha posição crítica a esta forma de escolha e ao candi­dato do PSDB. Exatamente pelo que ocorreu com o PP e Wilder é que optamos em ter uma decisão final apenas em agosto. Não que­remos que o PSD tenha estas revi­ravoltas. Isso desqualificaria, se­ria um ponto negativo para nós. Vamos esperar o momento certo para ter uma decisão definitiva.

A chegada de Demóstenes Torres nos 45 minutos do segundo tempo é legítima?

É legítima. Não sei se ele será candidato do ponto de vis­ta jurídico, agora todos que têm direitos políticos são legítimos e podem, sim, tentar participar.

Chegará algum momento em que a base poderá decidir pela troca da candidatura de José Eliton, diante do resultado pouco satisfatório nas pesquisas?

Acredito: se chegar no final de junho e a candidatura não esti­ver com expectativa de vitória, falo da candidatura de José Eliton, do PSDB, haverá um forte movimen­to na base. E se isso não acontecer ocorrerá uma grande dispersão dos integrantes da base aliada para os candidatos que na época tiverem perspectiva de vitória.

O senhor é um jurista. O Supremo Tribunal Federal (STF) tem atendido as expectativas da população?

Tenho feito muitas palestras a respeito dos 30 anos da Constitui­ção Federal. Como professor e po­lítico, acompanhei todo processo. O Supremo é hoje causa de insta­bilidade política e de inseguran­ça jurídica. É incrível como o Su­premo é causa de problemas tão graves. A quem caberia controlar o Supremo? No sistema de pesos e contrapesos, todos os poderes são controlados um pelo outro. Então, caberia ao Senado da República fa­zer isso. Mas ele não cumpre seu pa­pel institucional. Hoje, em geral, os senadores são super-deputados fe­derais. Eles não cumprem sua fun­ção. Não é o Senado que aprova os ministros do Supremo? Pois bem. Controlar e mostrar que o Supre­mo é causa hoje de grande insta­bilidade seria uma função do Se­nado. Outra coisa: os ministros do Supremo são mais midiáticos do que os artista da Globo. Eles en­saiam falas para dar entrevistas na tevê. Nenhum país do mundo existe isso. O Supremo deveria ser um poder moderador. Como vai moderar se está politizado, parti­darizado? Essa insegurança atin­ge a todos, pega toda a cadeia, jus­tiça estadual, federal, etc…

Diante da crise constitucional, os militares da reserva admitem uma reação com armas e tomada do poder. Como o senhor vê isso?

Acho gravíssimo. Nós estamos retomandoaumaanarquianomeio militar. Isso é prova de um gover­no institucionalmente fraco e frá­gil. Poder Judiciário e Legislativo também se revelam frágeis nesta situação. Isso que leva a manifes­tação dos militares. Inclusive um dos avanços institucionais que ti­vemos foi a criação do Ministério da Defesa. Eu era deputado fede­ral…Pois bem: isso foi tema de con­versa minha mais seis deputados federais, ao lado de Fernando Hen­rique. E decidimos: o Brasil teria que colocar um ministro civil no comando dos militares. E foi feito.

Existe risco de golpe ou de enfrentarmos um presidente populista?

Temos risco no país: a volta de um presidente com perfil po­pulista. Já tivemos Jânio Quadros, Fernando Collor, Lula e Dilma e corremos o risco em ter Bolsona­ro, que é claramente um político populista que não está prepara­do para ser presidente do país. Conheço ele, pois estivemos jun­tos durante 20 anos no Congresso Nacional. Ele não tem qualifica­ção política, intelectual e de ges­tão. Sei que ele empolga a socieda­de, mas será um grande equívoco.

O senhor tem uma vida política sem processos, denúncias, reportagens nacionais que mancham sua reputação e do estado de Goiás.

Existem dois políticos: uns são pragmáticos. Eles querem chegar no poder e se manter a qualquer custo, com desvios, irregularida­des, deslealdades… Eles são prag­máticos. Ele faz tudo para conse­guir o que desejam. Mas existem outros que agem com princípios e valores. Esta opção parece ter­rível, pois para o pragmatismo vale tudo. E acaba que ele tem mais efeito e melhores resulta­dos. Mas nunca quis fazer as­sim. Sempre tive uma vida ba­seada em coerência, valores, etc. Agora tem uma coisa: estes po­líticos que fazem as escolhas er­radas costumam ter vida curta. Pois o tempo é senhor da razão. E com o tempo, a verdade apa­rece. Sou exemplo deste segundo grupo, já que estou há 35 anos na vida pública. E estou aqui, gra­ças a Deus com espaço político. As vezes demora mais. A verda­de, às vezes fica submersa, mas sempre vem à tona.

A Justiça não é seletiva e atinge só o PT? Ela vai também chegar ao PSDB?

Não é seletiva. Ela vai che­gar para eles também. Para quem cometeu irregularidades.

O senhor é crítico ao trabalho de Sérgio Moro?

De jeito nenhum. Sérgio Moro e a justiça de Curitiba têm cum­prido muito bem seu papel. Ad­miro Moro. Recentemente estive em Portugal, Lisboa, em que ele foi convidado para uma mesa e eu em outra. E tive oportunidade de dizer: admiro o trabalho dele.

 

O Tempo Novo chegou ao fim. E nós temos que aproveitar agora este período de pré-campanha para formular um programa, uma agenda para o futuro”

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