Entretenimento

Entre a luz e a escuridão

Redação DM

Publicado em 28 de março de 2018 às 01:19 | Atualizado há 1 ano

  •  Queridinha do turismo local, no evento, que atrai cerca de 25 mil pessoas e consagrou os farricocos, a ideia da Igreja Católica é conseguir com que os fiéis reflitam a paz e desigualdade social

 

Rica em tradição e religiosida­de, a cidade de Goiás guarda uma das programações mais movimentadas do estado duran­te a Semana Santa. Isso, tanto para aqueles que desejam viver um mo­mento de fé e reflexão como para quem procura entender as origens da arte do Estado, já que muitas obras sacras de Veiga Valle saem dos museus para as ruas, nas pro­cissões. E um evento que une tanto a fé cristã como a cultura local é a famosa Procissão do Fogaréu, que acontece na madrugada de hoje – às 00h, na antiga Vila Boa.

Nela, há a presença dos famosos farricocos, homens encapuzados que representam os soldados roma­nos, que prenderam Jesus. O ponto de partida é a Igreja Nossa Senhora da Boa Morte. À meia-noite as luzes da cidade se apagam, o som da mar­cha percussiva corta o silêncio. Par­te do centro histórico fica iluminado apenas pelas tochas dos 40 farrico­cos e dos participantes do evento.

De acordo com o diácono Hel­der Rezende, um dos conselheiros fiscais da Organização Vilaboen­se de Arte e Tradição (Ovat) – a or­ganizadora de boa parte da progra­mação da Semana Santa da cidade de Goiás –, aproximadamente 3 mil pessoas geralmente acompanham junto aos farricocos esta marcha apressada pelo som dos tambores.

Já apenas observando este mar de fogo percorrer as ruas de pedra da cidade é que deve ficar a maio­ria dos moradores e turistas. A quar­ta-feira santa, data em que ocorre a Procissão do Fogaréu, é o dia mais movimentado da Semana Santa na antiga Vila Boa. Muitas pessoas do entorno da cidade encaram um “bate e volta”, para conferir o espetá­culo. Por isso, Helder conta que é es­perado que hoje lotem as ruas da ci­dade, um número semelhante com o carnaval deste ano na cidade: cer­ca de 30 mil pessoas.

ENCENAÇÃO

A atração é sim muito turística, entretanto o tom de todo cortejo é trágico e não é por acaso: o Fogaréu representa a perseguição de Cristo, que depois desta busca foi crucifi­cado. Por isso neste clima de pres­sa e perseguição, da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, a procissão passa rapidamente em direção à Praça do Coreto e, quase ignorando belezas como a Cruz Anhanguera, o Rio Vermelho ou Casa de Cora, a procissão segue rumo à Igreja Nos­sa Senhora do Rosário.

Neste local, os perseguidores en­contram apenas a cena da última ceia e há um diálogo encenado com o dono da hospedaria onde aconte­ceu o ritual mais importante da Igre­ja Católica. Neste momento o Coral Solo, da cidade de Goiás, também entoa composições do século XIX e, a marcha continua rumo à Igre­ja de São Francisco de Paula – que representa o Monte das Oliveiras.

Este é o ponto alto da procissão, onde acontece a prisão de Cristo – que é representado pelo estandarte de dupla face de Veiga Valle. Após o famoso toque de silêncio entoa­do pelo clarim, vindo do único far­ricoco vestido de branco, o bispo da diocese de Goiás, Dom Eugênio Ri­xen, do alto das escadarias da igre­ja, faz tradicionalmente uma pales­tra sobre o tema da campanha da solidariedade vigente, que este é a Superação da Violência e o lema é: “Somos Todos Irmãos.”

“Queremos transmitir a paz tan­to no ambiente familiar, como nas comunidades. Atualmente há mui­ta violência. A paz acontece através do diálogo e é também um fruto da justiça. Então, vou falar muito sobre a superação das desigualdades so­ciais, para termos uma sociedade em que todos possam ter uma vida digna e os jovens esperança”, diz o bispo Dom Eugênio Rixen, ressal­tando que hoje acontece ainda na cidade a Missa do Crisma na Ca­tedral Sant’Anna e, às 20h30, será realizada a 19ª Via Sacra, que con­ta com direção de Sérgio Praia e é encenada ao vivo e tem início na Praça do Coreto.

ATRAVESSANDO GERAÇÕES

Na cidade de Goiás também acontece hoje o chamado Foga­reuzinho, um evento à tarde no qual crianças representam a pro­cissão que começa no início da madrugada. Logo, observa-se uma preocupação notória da po­pulação vilaboense em manter viva a tradição desta procissão. Como membro há muitos anos da Ovat, Helder Rezende comenta que sempre observou que o “pos­to” de farricoco é disputado no município. “Mas acaba que virou um costume que passa de geração para geração”, assume.

Um feito bem interessante para um evento que começou há muito tempo, em 1745. No começo Hel­der explica que tudo era diferen­te. Ele informou, por exemplo, que em um remoto livro da Irmanda­de dos Passos aparece um regis­tro no qual o acontecimento tra­zia consigo apenas um farricoco. E da procissão não podia participar mulheres e crianças. “Lembro-me que quando criança me escondia perto da janela da casa dos meus pais para observar a procissão”, re­corda o diácono.

Apesar de intenso e hoje em dia entranhado dentro da cultu­ra goiana – e ainda influenciar o artesanato local e artistas goianos como Cristiane Rezende –, Hel­der Rezende disse que a procissão quase se perdeu nos anais do tem­po. A salvação do acontecimento foi que um grupo de intelectuais e artistas – do calibre de Heber Ca­margo dos Passos, Goiandira do Couto, Antônio Carlos Costa Cam­pos, Ecival Alves de Castro e Anto­lina Bahia Borges (a famosa Tia Tô) – criou a Ovat, que revitalizou a tra­dição na década de 1960.

DE ONDE VIERAM FARRICOCOS?

Donos de um figurino histriô­nico e pouco comum, o figurino dos farricocos sabe ser exótico, com o capuz pontiagudo e sua tú­nica longa, marcada por uma fai­xa na cintura. Uma curiosidade é que a indumentária peculiar, usa­da por estes personagens, asse­melha-se com as roupas até hoje comuns nas celebrações da Se­mana Santa, na Espanha. Daí, no­ta-se as origens da procissão, que chegou à cidade de Goiás com a influência de um padre espanhol, que aqui estava no século XVIII. Sabe-se ainda que tal roupa tem origem medieval e era costumei­ramente utilizada por penitentes, que assim podiam revelar seus pecados, revelar publicamente sua identidade.

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