Fim da história: a Celg, agora, é Enel
Redação DM
Publicado em 26 de março de 2018 às 23:03 | Atualizado há 8 anos
Com a mudança da logomarca da Celg para Enel, creio ser oportuno revivermos o que representou essa empresa para um Goiás que vivia nas trevas, naqueles distantes anos de 1930 e 1940. Voltemos, pois, no túnel do tempo, para observarmos as manchetes dos jornais da época.
Primeira: Goiânia às escuras, a partir do dia 12 deste (1938)
“Estando anunciado que a cidade ia ficar às escuras ainda esta semana e devendo realizar-se no dia 11 deste um grande baile na Faculdade de Direito, uma comissão de alunos daquele estabelecimento, chefiada pelo professor André Pena, entrou em entendimento com o senhor Felismino Viana, um dos proprietários da empresa, conseguindo a permanência da luz até o dia 11 do corrente, para não atrapalhar a animada festa que deverá realizar naquela data, em comemoração ao aniversário da fundação dos cursos jurídicos no Brasil.”
Segunda: Fechadas as comportas da usina do jaó (setembro de 1938)
“O assunto que mais preocupa a população desta capital é a ligação da nova usina hidroelétrica. Goiânia, que já possui uma população superior a 10.000 habitantes, vive momento de ansiedade em torno do assunto do dia. São inúmeras as festas sociais que foram adiadas, é grande o número de indústrias que estão paralisadas, enorme e justo é, portanto, o empenho de nosso povo para que se converta logo em realidade esse vultoso melhoramento de que muito se ressentia a nossa bela capital.”
Terceira: Goiânia há 18 meses sem luz (26 de setembro de 1946)
“… ultimamente, porém, adquiriu o Estado um conjunto termoelétrico muito desgastado que abastece precariamente diminuta parte da cidade enquanto a quase totalidade das ruas permanecem às escuras.
Além disso, esse conjunto, dado seu grande uso, funciona irregularmente passando periodicamente, dias e dias em conserto […]”. Mais adiante a reportagem concluiu: “o povo goianiense, tendo à frente a classe estudantina, conduzindo velas de sebo, promoveu uma grande passeata pelas ruas da capital protestando contra a indiferença com que os responsáveis têm encarado o problema. A população de Goiânia, desiludida de qualquer providência, não mais sabendo a quem dirigir seus infrutíferos apelos espera a atenção do presidente da República.”.
Posto isso, voltemos ao que tenho a dizer.
Foi num ambiente de absoluta carência da sociedade pelo insumo energia elétrica que surgiu, em 1958, a Celg. Governava Goiás o esforçado e correto Juca Ludovico. Sob o comando estatal, a maior empresa goiana iluminou Goiás e o recém-criado Distrito Federal.
Sob a égide estatal, Goiás cresceu e desenvolveu-se; a agropecuária modernizou-se; a indústria consolidou-se. A Celg tornou-se não só exportadora de energia elétrica, mas também a sexta melhor empresa de energia elétrica do país.
Os bons governos que tivemos nos anos de 1950 a 1979 provaram que uma empresa estatal, quando bem-administrada, mantém-se estatal. Por sua vez, os sucessivos maus governos de 1980 em diante provaram como as políticas de clientela destroem a solidez de uma grande empresa, como foi a Celg até 1979.
Obras sobredimencionadas, empréstimos bancários exorbitantes, privatização da usina hidroelétrica de Cachoeira Dourada (aliado a um criminoso contrato de compra de energia a preços majorados) e a dependência tecnológica evidenciam a quem a, então, maior estatal goiana serviu a partir da década de 1980: aos clientes que sobre ela passaram a ter influência. Dentre esses clientes, destaco os empreiteiros e suas obras sobredimencionadas.
Assim venderam a Celg quando essa, mesmo em frangalhos, poderia ter sido recuperada. Faltou vontade política. É o tal negócio: a política com P maiúsculo é para poucos, muito poucos.
A Celg, agora, é Enel. O que significa dizer que a ex-estatal goiana é um ponto integrante num universo global. Um perverso pacto de dependência do centro-periferia revela: de um lado, a promessa da energia de qualidade, após um ano da Enel, em Goiás, ainda não chegou. Por outro lado, os lucros oriundos dessa eficiência, quando ela vier, terá destino certo: o centro do capitalismo, no caso, a sede da empresa na Itália, que, por curiosidade, insiste em lá se manter estatal.
Sem a Celg, o Estado tornou-se não só patrimonialmente mais pobre, mas também dependente de uma empresa privada no processo de implementação de suas políticas públicas no tocante ao setor energético. De exportadora de energia nos anos da década de 1970, a Celg passará a exportar dinheiro para a metrópole capitalista. Mas isso pouco importa, afinal de contas, com o fim da história, a Celg, agora, é Enel.
(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético. É autor, entre outras obras, de A Energia na Região do Agronegócio)