Entretenimento

Reinventando imagens

Redação DM

Publicado em 21 de março de 2018 às 23:54 | Atualizado há 1 ano

O ano é 2018 e temos nas mãos as pinceladas de Van Gogh, a poesia de Camões, a dureza de João Ca­bral de Melo Neto, a arquite­tura grega e a beleza da cozi­nha oriental. O ano é 2018 e tanto a nossa volta diz: já está tudo feito. O artista, natural­mente, questiona o que pode trazer de novo para este mun­do onde tudo parece dito. O desejo de trazer algo inova­dor, para que a sociedade e ele mesmo não se sintam morto, é algo constante e ao mesmo tempo o que faz deste artista contemporânea uma figura inquieta. Uma técnica utiliza­da por artistas visuais conse­gue sintetizar essa realidade, tanto no processo produtivo quanto o produto final: a co­lagem. Utilizando do recorte de imagens de revistas, propa­gandas e fotos, o artista com­põe um trabalho novo, como uma colcha de retalhos muito bem elaborada.

O processo de colagem é aparentemente simples, mas o artista que consegue compor nesse formato consegue ino­var. Em Goiás, Wolney Fernan­des, artista visual e designer gráfico, é um dos adeptos da técnica. Misturando estilos, uti­lizando de referências do cam­po das artes, ele consegue criar um universo poético, justamen­te pela simplicidade das ima­gens que escolhe. Uma espécie de garimpo, folheando revis­tas velhas, muito papel que se­ria jogado fora ou esquecido, mas que ganha vida e nova for­ma a partir da interferência de Wolney. “Quando lanço mão de imagens recortadas em li­vros antigos e as misturo com figuras que encontro em revis­tas contemporâneas, há nessa operação uma certa pretensão inicial, mas ela nunca está total­mente fechada porque depen­de daquilo que vou encontran­do pelo caminho”, diz.

Nesta quinta-feira, Wolney Fernandes apresenta uma série de colagens que realizou a con­vite do escritor português Valter Hugo Mãe. As imagens surgem a partir dos poemas inéditos de Valter, que também serão divul­gados em um evento na mesma data. chamado “Quintas de Lei­tura”, no Teatro Municipal Porto, em Portugal. Em Goiânia, a ex­posição ocorre na Plus Galeria de Arte, a partir das 19h

 

 

CONFIRA ABAIXO ENTREVISTA COMPLETA COM WOLNEY FERNANDES:

DMRevista– O que há de específico na técnica de colagem? Conte como se aproxi­mou deste processo e o que vê de especial, particularmente, neste modelo de trabalho.

Wolney Fernandes–Desde menino sem­pre fui fascinado pelos ajuntamentos. Das tampinhas de garrafa aos álbuns de fi­gurinhas, me encantava a possibilidade de reunir partes diversas em um mesmo conjunto. Creio que este meu fascínio re­verbera agora em minhas colagens por­que o princípio é o mesmo. O que há de específico na técnica é a possibilidade de organizar o mundo a meu modo mistu­rando partes distintas, vindas de diver­sas fontes (revistas de moda, enciclopé­dias, atlas, livros de anatomia, etc) em uma mesma imagem para dar conta da narrativa que eu desejo contar. Uma das operações que envolve as etapas de se fa­zer uma colagem é a montagem, pois an­tes de fixar as partes recortadas, há um movimento combinatório que permite misturar estilos variados, épocas distin­tas, diferentes categorias e significações.

Quando lanço mão de imagens recor­tadas em livros antigos e as misturo com figuras que encontro em revistas contem­porâneas, há nessa operação uma certa pretensão inicial, mas ela nunca está to­talmente fechada porque depende daqui­lo que vou encontrando pelo caminho. Como minhas colagens são analógicas, a busca por estas imagens acaba por ser uma etapa do trabalho que toma mais tempo e onde as pretensões iniciais podem se diluir por completo. Há nesta prática um fazer que está atrelado à configuração gráfica de um pensamento fragmentado, mas que é capaz de construir significa­dos à partir da constante movimentação destes fragmentos. Cada pedaço de ima­gem, portanto, torna-se um memorando de ações que são planejadas, abandona­das e reorientadas num constante work in progress.

DMRevista – Olhando seus trabalhos disponíveis na internet, é possível notar uma poética profunda, devido às cores, ima­gens e movimentos. Quais “sentimentos” suas imagens transmitem ou traduzem? O que você procura quando inicia os recortes para compor um quadro?

Wolney Fernandes–As bases criativas para a criação das imagens vem sempre da minha história de vida que me rein­venta sempre. Minha infância é um lugar que eu visito constantemente na hora de criar. Acho que minha constituição como pessoa está muito vinculada a este perío­do que, para além das brincadeiras de quintal, foi muito permeada por proibi­ções e outros limites que eu me proponho a investigar quando estou criando. A lite­ratura também é uma fonte inesgotável por onde meus desejos criativos transi­tam bem. É difícil falar sobre os sentimen­tos que minhas imagens transmitem por­que muitas vezes eu não tenho domínio sobre o que as pessoas irão depreender da­quilo que estão vendo e, exatamente por isso, procuro deixar um espaço para que as pessoas coloquem também ali suas ex­periências. Eu interpreto, sintetizo, apro­fundo e estabeleço relações formais e sim­bólicas, mas a narrativa é sempre aberta para outras relações sejam criadas. De modo geral, um sentimento que eu cos­tumo buscar na hora da criação é o de­sejo de encontrar paisagens interiores– as minhas próprias e as das pessoas que entram em contato com as obras. Eu di­ria que minhas colagens são um modo de me mostrar sem as camadas formati­vas que a vida foi colocando em cima de mim para estabelecer um diálogo franco com novas realidades.

DMRevista – O que você leva mais em consideração na hora de produzir: cores, expressões, sentimentos, histórias, movi­mentos etc?

Wolney Fernandes–A pergunta defla­gradora é sempre essa: que história em quero contar? O desejo de contar histó­rias pode nascer de uma inquietação interior, de um livro que eu leio, de uma cena de filme que eu vejo ou até de um passeio que eu faço à padaria. Quan­do eu decido que história contar, busco referências (formais e simbólicas) para dar conta de fazer uma síntese desta his­tória. Ao fazer esta busca eu tenho o cui­dado de entrelaçar significados, relacio­nar cores para ir delimitando um espaço de criação. Por trabalhar com imagens advindas de uma série de fontes diferen­tes, eu preciso fazer escolhas muito cons­cientes para que a ideia não se perca. Ela pode até se transformar, mas nun­ca se perder. Para tanto eu uso estilos, movimentos ou cores que me ajudem nisso. Por exemplo, como eu uso bas­tante imagens de corpo eu prefiro traba­lhar com fotos mais antigas de impres­sos que remontem ao passado porque eu percebo nelas um movimento mais ex­pressivo do que nas revistas contempo­râneas. Muitas vezes a cor também me ajuda na junção das diversas partes da colagens para que ela pareça unificada e não fragmentada já que o olho percebe a potência das peças em separado, mas faz um movimento de busca que se am­plia ao conectar aquela peça a outras que estão no seu entorno.

DMRevista–”Pela Fortuna dos Versos” foi montado para compor os poemas do escritor português Valter Hugo Mãe. Você já realizou algum trabalho que mescla ima­gem e texto? Para você, existe uma relação entre a palavra (poesia) e a imagem?

Wolney Fernandes–No meu trabalho existe sim. Como mencionei acima, a li­teratura é um terreno fértil por onde é possível entrever possibilidades criati­vas. Os poetas/escritores tem uma capa­cidade de dizer tantas coisas de modos tão peculiares que desdobram o mundo em outras significações. A colagem tam­bém faz isso quando retira o significa­do primeiro de uma imagem para des­locá-la para outro campo semântico e, assim, atribuir-lhe novos simbolismos. Tenho sempre buscado essa relação en­tre a palavra escrita e a imagem porque me interessa muito os processos criati­vos envolvidos na tradução de uma lin­guagem para outra.

DMRevista – Neste trabalho em parce­ria, você recebeu os textos e produziu as imagens ou o texto surgiu das imagens? Como é tentar traduzir um trabalho artísti­co para outro “canal” de transmissão?

Wolney Fernandes–Eu recebi os textos do Valter Hugo Mãe e trabalhei as ima­gens na tentativa de não “representar” os poemas, mas de me aproximar deles segundo minha própria experiência de vida e do meu conhecimento da obra do autor que eu já admirava há muito tem­po. Li todos os seus livros e isso de certo modo me fez perceber algumas recor­rências como a relação com o sagrado ou mesmo uma certa tristeza no modo como as relações entre suas personagens são construídas. No entanto, as tristezas reveladas por Valter Hugo Mãe funcio­nam como camadas que se misturam a cotidianidades e a destinos muito pró­ximos da realidade de qualquer ser hu­mano. Sua prosa é fortemente marca­da pela poesia e os poemas inéditos que eu tive contato estão marcados por ter­mos e expressões muito potentes no que diz respeito a vislumbrar uma vivên­cia, uma ambiência, um espaço e, con­sequentemente, uma narrativa. Apesar de haver a indicação do uso de silhuetas de retratos do próprio autor, a série de imagens criada para esta parceria bus­cou elementos que pudessem fazer uma tradução que respeitasse os versos sem, necessariamente, se fixar neles apenas.

SERVIÇO

O quê: Pocket Expo “Pela Fortuna dos Versos” , Wolney Fernandes para Valter Hugo Mãe

Quando: Quinta (22 de março de 2018), das 19h às 23h

Onde: Plus Galeria (Rua 114 nº 70, Setor Sul, Goiânia-GO)

Entrada: R$ 10. Obras de arte, bebidas e comidas à venda.

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