Cotidiano

Os vendilhões do Templo

Redação DM

Publicado em 20 de março de 2018 às 02:06 | Atualizado há 1 ano

A prisão de padres envolvi­dos em um suposto esque­ma de desvios de dízimos e taxas de casamento realizados em cidades do Entorno do Distrito Fe­deral manchou mais uma vez a ima­gem da Igreja Católica. Moradores de Planaltina, Formosa e Posse – no nordeste goiano – estão chocados com as investigações: o movimen­to dos veículos de polícia, as prisões e a falta de contato com os detidos deixaram os fiéis assustados.

O grupo de religiosos respon­de por 33 paróquias, custeadas por R$ 12 milhões. Conforme al­guns adeptos da igreja ouvidos pelo DM, a igreja arrecada entre R$ 14 e R$ 16 milhões, sendo que o restante é aplicado em um fundo descentralizado da igreja.

Os denunciantes estimam que foram desviados R$ 2 milhões, mas é possível que seja maior o rombo nas contas da igreja. O DM tentou contato na diocese com advogados e defensores dos deti­dos para ouvir suas versões, mas não obteve retorno.

O escândalo foi noticiado na­cionalmente na manhã de ontem na imprensa e redes sociais e ace­lerou as investigações contra a ins­tituição mais antiga na história de Goiás: estão presos cautelarmen­te suspeitos de desvios de recur­sos dom José Ronaldo Ribeiro (bis­po de Formosa), além de quatro padres, um monsenhor e vários funcionários administrativos da instituição. No total, treze pessoas foram detidas e levadas pela Po­lícia Militar do Estado de Goiás.

Existe a suspeita de que o bis­po foi transferido da Diocese de Janaúba (MG) por motivos seme­lhantes. Após ser transferido, di­zem os promotores, acabou insti­tuindo o mesmo esquema.

A prisão dos religiosos é mais um capítulo de tramas que cir­cundam os religiosos católicos de Goiás. Passagens nebulosas dos religiosos envolvem assassinatos e denúncias de violência sexual.

É importante ressaltar: até o momento todos envolvidos na operação deflagrada ontem são apenas suspeitos de praticar cri­mes. Não existe ainda nenhum processo criminal contra os tre­zes presos.

Ao fim da apuração, é possível que a cúpula da Igreja Católica de Planaltina, Formosa e Posse seja denunciada pela apropriação de dinheiro oriundo de dízimos, doa­ções, arrecadações de festas reali­zadas por fiéis e taxas de eventos como batismos e casamentos.

NAS RUAS

Nos municípios, o escândalo tornou-se tema de discussão nas ruas. Uma moradora, vizinha da Diocese de Formosa, disse ao DM que os religiosos são queridos na comunidade e “centrados” na ce­lebração da fé católica. “Foi uma surpresa para todas (pessoas). Não vejo como eles possam ser culpa­dos”, disse por telefone.

Para a fiel, existe sempre um grupo que questiona “qualquer coi­sa” dentro da igreja. “Eram muito críticos”. Mas ela espera que a “Jus­tiça dos homens seja feita”.

Em Planaltina, a costureira Maria do Rosário também dis­se que acredita na igreja, ape­sar de esperar a “poeira baixar” para voltar a conviver com os fiéis. “Vou agora aguardar os fatos. Sa­bia que tinha algo acontecendo. Todo mundo falava. Já estava in­comodando. Agora vamos tirar a prova dos nove, não é mesmo?”.

Conforme o Ministério Públi­co, a denúncia partiu realmente de um grupo de fiéis. Eles notaram aumento significativo em gastos e despesas da casa episcopal.

De acordo com o MP-GO, a primeira denúncia foi protoco­lada em 2015, quando o órgão acionou o Centro de Inteligência para auxiliar nas investigações. Dez promotores de Justiça parti­ciparam da investigação.

ADVOGADO

Os fiéis fizeram questão de acompanhar os gastos e se orga­nizaram, inclusive através da no­meação de um procurador jurí­dico para acompanhar o conflito instalado com os religiosos. A dis­puta entre católicos e a cúpula da igreja passou a ser pública.

Após ser procurado pelo DM, em 2017, o bispo se negou a falar com a reportagem, mas reiterou sem gravar sua inocência nas acu­sações. No final do ano, os mes­mos fiéis intrigados com os gastos apresentaram dados referentes ao aumento das despesas.

Antes de José Reinaldo assumir a igreja, a unidade gastava R$ 5 mil na casa episcopal, onde mora o bis­po. Meses depois, as despesas pu­laram para R$ 35 mil, o que passou a preocupar o grupo de católicos.

Na operação dos promotores, foram cumpridos 14 mandados de prisão e 10 de busca e apreen­são em três municípios: nove de prisão e cinco de busca e apreen­são em Formosa; três de prisão e quatro de busca e apreensão em Posse; e um de prisão e uma de busca e apreensão em Planaltina.

 

MP diz que religiosos usavam dinheiro para comprar fazenda e carros

O grupo que seria chefiado pelo bispo dom José Ronaldo pode ter desviado R$ 2 milhões dos dízimos dos fiéis. Conforme o Ministério Público, suspeita-se que o dinhei­ro teria sido usado para comprar fazenda com gado, casa lotérica e carros utilizados pelos religiosos.

Para o MP-GO, as provas mais significativas se configuram na movimentação financeira e nas escutas telefônicas realizadas após autorização da Justiça.

Os policiais e promotores en­contraram dinheiro em um fun­do falso no guarda roupa de um dos envolvidos, o que ampliou a busca nas dependências da casa religiosa.

EVIDÊNCIAS

Para o Ministério Público, o vi­gário-geral de Formosa Epitácio Cardozo Pereira disse que o di­nheiro encontrado no fundo falso foi obtido por meio das doações e dízimos dos integrantes da igreja. Mas o MP-GO questiona o valor de R$ 100 e R$ 50, que seriam eleva­dos para os pagamentos.

Os promotores questionam também uma coleção de relógios caros encontrados com os padres. Para eles, a ostentação indica fluxo fácil de dinheiro e gasto com inte­resses não religiosos.

PRESSÃO

Os promotores também afir­maram que os demais padres fo­ram pressionados a conseguirem bater metas de valores de arreca­dação dos dízimos. Ou seja, a gran­de preocupação das paróquias era dinheiro e não fé. Diversos padres que prestaram depoimentos te­riam relatado a obrigação finan­ceira que recaía neles e nos fiéis.

Uma das comprovações de que ocorreria tal pressão pode ser observada na gravação de um diálogo entre José Ronaldo Ri­beiro e outro religioso. Ele teria uma lista de padres a ser afas­tada da diocese exatamente por não cumprir as metas impostas.

 

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