Entretenimento

Mansão cápsula do tempo

Redação DM

Publicado em 27 de fevereiro de 2018 às 01:07 | Atualizado há 1 ano

Cem anos intacta – assim fi­cou a casa de Louis Mantin, um ex-funcionário público que recebeu uma herança milio­nária do pai aos 42 anos. O dinhei­ro possibilitou que Louis pudesse abandonar o emprego e passar o resto da vida viajando e adquirindo artefatos e antiguidades. Ele tam­bém pôde construir uma verdadei­ra mansão na cidade de Moulins, na França Central. Antes de morrer, em 1905, o milionário escreveu uma espécie de testamento onde decre­tava o destino de sua casa. Sem dar orientações específicas quanto à conservação do interior da casa, ele pediu que ela ficasse trancada por um século, até ser reaberta como um museu. Em 2005, uma sobri­nha-neta de Mantin, que nunca teve filhos, se encarregou da restauração, e abriu a casa ao público em 2010.

O desejo de Mantin era poder apresentar às gerações futuras “um exemplar de casa burguesa do sécu­lo XIX” – e foi esse o destino da casa, conhecida como Maison Mantin. A história da casa e de seu dono foi contada por Ian Harvey, em arti­go publicado no último dia 26 no site The Vintage News. “Louis Man­tin nasceu em Moulins, no ano de 1851. Trabalhou como servidor pú­blico até herdar milhões de seu pai quando tinha 42 anos. Ele não pre­cisou mais trabalhar, e viveu uma vida dedicada às viagens, ciências, arte e conhecimento”, conta Harvey. O autor também expõe que poder do tempo sempre foi uma das gran­des fixações do milionário. “Mantin nunca se casou ou teve filhos, e era obcecado pela passagem do tempo e por sua eventual morte”.

O maior legado de Mantin para sua cidade começou a ser idealiza­do assim que ele recebeu a heran­ça. “Ele encomendou uma mansão que deveria ser construída no cen­tro da cidade, onde antes havia um palácio pertencente aos Duques de Bourbon, antigos governantes da re­gião”, expõe Harvey. Tudo isso acon­teceu próximo à virada do século XIX para o século XX. Mantin en­tão começou a transformar sua casa em uma grande exposição de obje­tos comprados em várias partes do mundo. “Desenhada pelo arquiteto René-Justin Moreau, em colabora­ção com seu pai, Jean-Bélizaire Mo­reau, a mansão foi completada em 1893. Assim que ficou pronta, seu dono a preencheu com sua coleção de arte, antiguidade e tapeçarias”.

MODERNA

A mansão de Mantin mostra um período histórico de grandes mu­danças, como a chegada da eletrici­dade à vida urbana, uma novidade que ainda causava estranhamento à população, ainda acostumada à vida rural. Ian Harvey, em seu texto, O castelo francês intocado por um século tornou-se um museu cáp­sula do tempo, descreve ainda as regalias e o luxo que a herança de Mantin foi capaz de reunir em sua casa. “A casa recebeu fiação elétrica completa, um novo conceito que as­sustava muitas pessoas pois não era algo completamente compreendi­do. A mansão tinha ainda piso aque­cido, uma comodidade que perma­nece rara até a atualidade. Também havia uma sala coberta com couro pintado com ouro e prata”.

Vários estilos arquitetônicos e decorativos se misturavam harmo­nicamente na casa de Mantin. O museu hoje conta com uma sala de projeção audiovisual, além de várias pinturas, livros, fotografias, objetos em miniatura, bichos empalhados, cerâmica, minerais, esculturas e ob­jetos incomuns reunidos pelo anti­go dono. A ornamentação traz um caráter bastante peculiar ao museu. “O banheiro, preenchido com aces­sórios modernos, como vaso sanitá­rio com descarga, água quente ou fria, e um chuveiro arquitetado no estilo Art Nouveau, completo com vitrais e pinturas”, descreve Harvey. “O piso superior possui artefatos egípcios, ferragens medievais, fer­ramentas pré-históricas e lâmpa­das de óleo do período neolítico”.

RESTAURAÇÃO

Apesar do desejo de manter o lugar intocável por mais de 100 anos, Mantin–nem ninguém–po­deria previnir a mansão dos toques do tempo, que deterioraram alguns detalhes da construção. “Embora a propriedade tenha sido poupa­da por duas Guerras Mundiais, a casa e seu conteúdo se deteriora­ram gradualmente. Insetos e pe­quenos animais destruíram parte da luxuosa mobília, papéis de pa­rede e tapeçaria, enquanto os ci­dadãos de Moulins aguardavam a passagem do tempo para poder ver o museu, explica Harvey. “O mofo também cobriu algumas das pa­redes e tetos devido à falta de ca­lor no interior da casa”, completa.

Uma sobrinha neta de Man­tin passou a intervir na preserva­ção da casa às vésperas da morte de seu tio avô completasse cem anos. “A senhorita Chavagnac não tinha a intenção de possuir a casa, mas sabia que algo teria de ser feito an­tes que a propriedade chegasse a um nível de deterioração irrever­sível. Era importante para ela que seu ancestral tivesse o último de­sejo realizado”, conclui Harvey. A sobrinha neta de Mantin demo­rou cerca de quatro anos para con­seguir deixar o museu o mais pró­ximo de como a casa foi deixada pelo tio, em 1905. Em novembro de 2010, ele foi aberto ao público.


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