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EU, TONYA

Redação DM

Publicado em 23 de fevereiro de 2018 às 05:43 | Atualizado há 1 ano

A vida de Tonya Harding está longe de ser aque­la história motivacional, com momentos de superação e vi­tória. Além das dificuldades com dinheiro, as brigas violentas com o marido e a relação conturbada com a mãe – outra pessoa nada fá­cil de conviver –, Tonya conseguiu tempo, e condições, desde peque­na, de aperfeiçoar seu talento nato para patinação no gelo. Foi a pri­meira mulher norte-americana, e a segunda do mundo, a conseguir realizar o salto triplo axel em com­petições oficiais. Mas sua vida era aquele típico caso onde o pessoal conseguiu se sobressair ao profis­sional e se tornar mais evidente. Foi condenada judicialmente a aban­donar para sempre a patinação no gelo após seu ex-marido, Jeff Gil­loly, conspirar contra a patinado­ra concorrente de Tonya, Nancy Kerrigan, que foi atacada durante uma sessão de treinamento e teve sua perna machucada. O caso ain­da é envolto de muitas dúvidas se Tonya sabia, ou não, do ataque fí­sico, já que o plano inicial era ape­nas amedrontar Nancy com cartas.

Toda a trajetória de Tonya, do seu ex-marido Jeff, de sua mãe La­Vona e dos demais personagens que participam da trama, são com­postas de trágicos momentos não apenas profissionais, mas de rela­cionamentos. O grande mérito des­ta cinebiografia dirigida por Craig Gillespie é justamente tratar tudo com ironia, e rir da cara dos perso­nagens sem menosprezá-los ou tor­ná-los desprezíveis – ainda que, em sua essência, todos sejam.

O humor é encaixado com efi­cácia e unido a uma edição cria­tiva que traz agilidade e ritmo. A constante quebra da quarta parede acontece de maneira fluida e sem precisar parar a trama para explica­ções. Ela é autoexplicativa durante a ação. Explico: a personagem está fazendo algo e subitamente vira em direção a câmera e complementa a fala de quem está narrando. Exis­te uma harmonia entre o persona­gem narrador e o personagem em cena, o que não só deixa envolven­te, como ainda mais chamativo o filme. Resultado: um trabalho de edição primoroso que foi, inclusi­ve, indicado ao Oscar de Melhor Montagem este ano.

“Eu, Tonya” conta também com um elenco primoroso. Margot Rob­bie naturalmente é muito mais bo­nita que a verdadeira Tonya, mas já se mostrou em outros filmes, e, prin­cipalmente neste, que não é apenas um rosto e corpo bonito. Pelo con­trário, Robbie tem se mostrado uma das melhores atrizes atualmente, e seu trabalho como Tonya Harding é criterioso, dedicado e extasiante. Foi merecidamente indicada ao Os­car de Melhor Atriz.

Allison Janney ensoberbece a tela quando aparece na pele da mãe de Tonya, LaVona Harding. Ofensiva, grotesca, mal educada e pouco emo­tiva, LaVona é uma força da natureza que não tem receio de entrar na bri­ga e falar o que pensa. Janney usa e abusa das oportunidades e é a gran­de favorita ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Com razão.

Outro digno de aplausos é Sebas­tian Stan, que apesar de menos reco­nhecido, me surpreendeu com uma atuação que vagueia entre o cara ca­rismático e o machista repulsivo e imbecil. A mudança de humor do personagem exige bastante dedica­ção de Stan, que entrega com louvor uma ótima performance.

“Eu, Tonya” é tão eficiente, envol­vente, divertido e empolgante que as quase duas horas de duração pas­sam rápido. Uma obra que além de ser um filme com momentos de pa­tinação, não é um filme sobre o as­sunto, mas uma mescla de gêne­ros como drama, policial, esporte, comédia e suspense. Um conjunto cujas peças funcionam harmoniosa­mente, e o resultado é simplesmente imperdível. Recomendado!

 

Indicado a três Oscars

— Melhor Atriz (Margot Robbie)

— Melhor Atriz Coadjuvante (Allison Janney)

— Melhor Montagem


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