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The post – a guerra secreta

Redação DM

Publicado em 27 de janeiro de 2018 às 21:57 | Atualizado há 1 ano

Nada mais oportuno ao nos­so momento atual do que um filme como The Post – A Guerra Secreta, no qual lida com questões pertinentes ao papel da mulher no âmbito profissional de uma sociedade essencialmente pa­triarcal, e a liberdade de imprensa. Esta última o cerne do debate em torno da trama principal.

Baseado em uma história real, aqui temos Katherine (ou Kay) Graham (Meryl Streep), uma dona de casa, esposa, que recebe a res­ponsabilidade de dirigir o jornal The Washington Post após a morte do marido – que, aliás, havia herdado a empresa do próprio sogro. A res­ponsabilidade é grande, já que por ser mulher, Kay é vista pelo Con­selho da companhia como inex­periente e incapaz de tomar as de­cisões necessárias para manter o jornal aberto. O período torna-se mais conturbado quando o seu editor-chefe, Ben Bradlee (Tom Hanks), recebe documentos sigi­losos do governo norte-america­no que revelam as mentiras acer­ca do papel, e objetivo, dos EUA na Guerra do Vietnã. Quem primeiro publicou os documentos foi o The New York Times, mas este foi pro­cessado pelo então presidente Ri­chard Nixon, e impedido de conti­nuar a divulgar os arquivos. Ao cair nas mãos de Bradlee, Kay precisa escolher: publicar e arriscar o futu­ro do jornal e de seus funcionários – e defender a liberdade de imprensa –, ou não bater de frente com o go­verno dos EUA e aceitar a censura.

Steven Spielberg estava traba­lhando na pós-produção de seu próximo filme, o blockbuster “Jo­gador Nº 1” – que sai em março nos cinemas –, e recebeu o roteiro de Liz Hannah e Josh Singer através da produtora Amy Pascal. Ficou encan­tado com os paralelos entre aque­le período e a atualidade dos EUA – com Donald Trump agindo de modo semelhante com a imprensa. Mas seu encanto foi essencialmente com a jornada de amadurecimen­to de Kay Graham, e sua trajetória em um universo dominado por ho­mens. A produção de The Post du­rou 9 meses – desde filmagens até pós-produção –, um exercício de velocidade para Spielberg entregar o projeto ainda este ano e à tempo da época de premiações.

The Post é uma homenagem ao jornalismo e à essência do compro­misso com a verdade. É uma trama de bastidores, da busca pela histó­ria e da luta pelo o que é verdadei­ro. Spielberg filma com dinamismo e tensão, e instiga o interesse em ce­nas de reuniões, conversas e deba­tes. Acerta também ao decidir mos­trar todo o processo de publicação de um jornal. Ele acompanha a che­gada da notícia à mesa de impres­são e nos apresenta cada passo rea­lizado para o jornal chegar às ruas. Não me lembro de um filme de jor­nalismo que tenha feito isto, o que traz mais um ponto a favor do pro­jeto. Aliás, naquela época o siste­ma era bastante manual, e não digi­tal como atualmente. Portanto, The Post é uma aula sobre as etapas de impressão de um jornal impresso.

Outra característica nos filmes de Spielberg é o elenco de gigantes, tanto protagonista quando coadju­vante. Os atores de suporte são im­portantes, e essenciais à dinâmica da trama, e o roteiro aproveita to­dos sem desperdiçar ninguém, e os usa em favor da narrativa e na cons­trução daquele ambiente agitado, e frenético do mundo jornalístico. Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Alison Brie, Carrie Coon, Sarah Paulson são apenas alguns nomes do exce­lente grupo de atores coadjuvantes.

No time de protagonistas, temos ninguém menos que Meryl Streep e Tom Hanks. Pela primeira vez atuando juntos, a química entre os dois flui naturalmente e a constru­ção dos personagens, unido ao ca­risma habitual de cada um, resul­ta em um trabalho harmonioso e perfeito. Hanks como Ben Bradlee é ávido, imponente e um líder nato – editor-chefe, ele é o responsável por tudo que é publicado. Streep é sutil, profunda nas emoções e encanta o público tanto nos momentos onde sua personagem está insegura, e indecisa, até quando encontra sua voz como mulher, e dona do jornal.

“The Post – A Guerra Secreta” é a reunião de três gigantes da indús­tria do cinema. Três pesos pesados unidos em um projeto para defen­der não apenas a liberdade de im­prensa, ou a capacidade da mulher como um todo, mas, principalmen­te, o direito nosso à verdade.

Para complementar a ótima ex­periência que é assistir The Post, re­comendo que veja em seguida To­dos os Homens do Presidente (1976), clássico filme de jornalismo – estre­lado por Robert Redford e Dustin Hoffman – sobre o caso Watergate que acontece logo após a polêmica com os documentos da Guerra do Vietnã. E Spielberg faz questão de deixar o gancho pra essa história na última cena de The Post. Filmaço!

(Matthew Vilela, jornalista, crítico de cinema do DM e do Blog do Matthew Vilela)

 


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