Caminhar (flanar) pelas ruas de Paris – ontem (década de 1980)
Redação DM
Publicado em 18 de janeiro de 2018 às 00:13 | Atualizado há 8 anos
Em Paris, alguns anos atrás, não me lembro, com certeza, da data, só sei que era uma época em que eu vivia a procura de ilusões e era verão; caminhava, imitando um “flâneur” (caminhar por diversão) na companhia de Marília, minha mulher, pelo Boulevard Saint-Germain; suas ruas largas e cheias de luminosidade nesta época do ano transformam o caminhar em verdadeiro prazer.
Normalmente o turista ao caminhar por Paris define com antecedência a rota a ser seguida; o “flâneur” não se submete a esta orientação, sua caminhada não depende de destino, às vezes, durante esta jornada, resolve parar em um café e fica observando o que ocorre na rua à sua frente.
Sabíamos que a Rua L’Odeon deveria estar naquelas imediações, dobramos a esquerda e entramos na procura do local onde existiu, até o inicio da segunda guerra mundial, a livraria “Shakespeare and Company” cuja proprietária era a norteamericana Sylvia Beach.
Não tínhamos pressa; o compasso das nossas passadas era ditado pela nossa ociosidade, discutíamos os acontecimentos ocorridos naquela livraria nas décadas de 1930 e 1940, principalmente a presença constante de incontável número de escritores e pintores, tais como Hemingway, James Joyce, Gertrude Stein, Sherwood Anderson, Picasso, e muitos outros; ao passarmos em frente ao número 12, ecoou, vinda da eternidade da existência, a voz de Hemingway, descrevendo a citada livraria:
“Em um frio vento de rua, este era um lugar quente e alegre com um grande fogão no inverno. Mesas e prateleiras de livros, livros novos na janela, e fotografias na parede de famosos escritores mortos e vivos (Paris, Uma Festa móvel) ”.
A temperatura estava começando a diminuir, pois o sol já se escondera por detrás dos prédios; continuamos nossa caminhada e entramos na rue St. Sulpice e, instintivamente, sentamos a uma mesa colocada na calçada de um “café”; sentimos que estávamos em porto seguro, pois o tempo não conta naquelas paragens, desde que o freguês consuma alguma coisa, às vezes um simples café, será o suficiente para se ocupar uma mesa por quantas horas se deseje.
Pedimos meia garrafa de champanha para Marilia e eu, uma dose de wisky!
Ficamos durante algum tempo em silêncio observando as pessoas que subiam e desciam a rua, do outro lado da calçada; encostados em uma mureta, um casal de namorados trocavam carícias, davam risadas e, de vez em quando se beijavam, indiferentes ao mundo que continuava, para eles, multicolorido; um pouco mais distante, uma pequena praça toda arborizada , onde conseguimos ver várias senhoras idosas que caminhavam a passos lentos em sua direção, o sino da igreja de St. Sulpice começou a badalar chamando-as para as preces das 18 horas.
Sentaram-se ao nosso lado (costume francês, os fregueses sentam-se na mesma mesa, com o uso de apenas a palavra mágica – pardon!) – de repente olhei para Marília, com olhar zombeteiro e lhe disse:
– Será que a “fulana” (uma senhora nossa amiga de Goiânia) está aqui em Paris?
Sim, disse Marília, entrando na brincadeira, e acho que está na companhia de Simone Beauvoir!
Sobre o que elas estariam conversando? Marília quis saber, instigando minha verve de ficcionista. Seguramente conversam sobre Jean Paul Sartre!
Um homem magro, alto, portando um chapéu de aba estreita, porém, com a copa muito alta, bigode espesso que tentava entrar nas suas narinas, trajando um terno surrado, porém, bem alinhado, sentou-se a uma mesa bem do nosso lado; tenho “quase que certeza”, disse a Marilia, ele é a figura pintada por Paul Cezane (Os jogadores de Cartas, 1839-1906) que vimos ontem no Louvre; ao retirar o chapéu, expôs a calvície que tomava conta de todo o topo da sua cabeça; ao acender o cachimbo, inexplicavelmente de cor branca, “não tive mais dúvida” , era ele, realmente, o modelo pintado por aquele artista.
Ficamos ali por algum tempo, quanto tempo? Não sei! Porém este detalhe não tem importância dentro da circunstância do momento vivido; quando resolvemos ir embora, o personagem de Cézanne continuava “bebendo” a mesma xícara de café, completamente absorto na leitura do livro que tinha nas mãos. Será que ele nos viu?
A vida, repetindo Hemingway (Paris é uma Festa) “me parecia tão simples naquela tarde! Mas Paris era uma cidade muito antiga”, éramos, naquela época, jovens e nada ali era simples”.
Só aquele momento foi simples e não mais se repetirá, pois o minuto que passou não volta mais!
Como os amigos leitores devem ter observado, falei quase que só do passado, porém, Marília e eu voltamos agora à rua L´Odeon para conversar com os fantasmas (Hemingway, Picasso, James Joyce, Gertrude Stein e muitos outros), que ali habitaram na década de 1920, quando a americana Sylvia Beach abriu a livraria Shakespeare and Company naquela rua.
Prometo voltar ao assunto ainda nesta viagem!
(Hélio Moreira. Academia Goiana de Letras Academia Goiana de Medicina Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)