Cotidiano

A morte da moralidade

Redação DM

Publicado em 18 de novembro de 2017 às 02:45 | Atualizado há 9 anos

Jovem sofria bullying com teor racista, principalmente na escola. Polícia investiga autor das imagens do corpo da garota

 

A jovem Karina Saifer Olivei­ra, aluna do primeiro ano do en­sino médio em Nova Andradina, cidade situada a 300 Km da capital Campo Grande, se matou depois de receber ameaças de ter suas fo­tos íntimas divulgadas nas redes sociais. A adolescente de 15 anos, no entanto, teve o seu corpo foto­grafado mesmo depois de morta e as imagens foram vazadas atra­vés do WhatsApp, seja em grupos ou em chats privados. “O bullying e a perseguição que ela sofria não acabaram nem mesmo depois que ela se foi”, lamenta a mãe.

Angela Saifer, de 46, se encon­trava no trabalho quando recebeu uma mensagem da filha, no What­sApp. “Posso sair de casa hoje para fazer um trabalho? Preciso de nota”, dizia o recado. No entanto, quando perguntou onde seria, Karina não respondeu mais e, mesmo preocu­pada, Angela imaginou que ela já tivesse saído. Foi seu último con­tato com a filha. A menina, no en­tanto, não saiu, ela havia se enfor­cado na varanda de casa.

Quandosuamãechegou, elasen­tiuumclimaestranhonacasa.“Oce­lular dela estava em cima da cama. Chamei:‘Karina!’. Elanãorespondeu. Eu vi a porta do fundo aberta. Deixei minhamochilaemcimadamesa. Na hora que eu cheguei no fundo, onde fica a varanda, deparei com aque­la cena. Jesus Cristo! Eu não dese­jo isso para mãe nenhuma. A gen­te não sabe o que passa na vida da gente. Se eu soubesse…”, contou An­gela, sem conseguir conter o choro.

A menina não dava nenhum sinal evidente do que se passava com ela, mas a mãe notou uma certa diferença de comportamen­to da filha. “Ela sempre foi muito meiga, mas ultimamente ela sen­tava no meu colo, jogava as per­nas para o lado, ficava passando a mão na minha cabeça. Eu pergun­tava se estava acontecendo algu­ma coisa, só que ela dizia que não. ‘Só tô te abraçando’, ela dizia. Eu não sabia de nada”, relata Angela.

A jovem tinha os desejos e so­nhos de uma garota normal, seus planos de se tornar bem sucedida só mostrava o quanto era esforça­da e o quanto tinha bom caráter. Inspirada pelo pai, que é bacharel em direito, Karina queria ser dele­gada e, mesmo separados, apoia­vam igualmente a filha.

Mas a perseguição na escola era inevitável, e ela vivia um inferno pessoal há mais de um ano. Quan­to tinha 14 anos, ela teve uma bre­ve relação com um rapaz de 17, fi­zeram sexo e, sem Karina saber, ele tirou fotos íntimas da adolescente. “Faz dois meses ela veio conver­sar comigo, me disse que estava se sentindo uma pessoa vulgar por­que tinha acontecido isso com ela. Eu disse que não tinha nada a ver, mas só soube o que aconteceu de­pois que o rapaz já não estava mo­rando na cidade”, conta Aparecido, pai da jovem.

BULLYING

Mas seu problema pessoal es­tava longe de ser o único que mas­sacrava sua infeliz consciência. Ka­rina herdou a pele branca da mãe e os cabelos crespos do pai negro, que alisava por acreditar que as­sim ficava mais bonito. “Ela era muito perseguida na escola. De­pois que ela morreu, nós pegamos mensagens de alunos no WhatsA­pp dela, de ódio, de alunos que de­bochavam do cabelo dela por ser meio afro, porque ela usava chapi­nha. Vinham provocando minha filha há anos”, relata o pai.

“Não sabíamos o que esta­va acontecendo. O problema do bullying é o silêncio”, afirmou o di­retor da escola, Acácio Sampaio. “Vimos que ela estava triste, com o olhar distante. Até que uma colega contou que ela havia tomado até um veneno. Isso faz uns 15 dias. Nós a chamamos e ela se abriu, contou do bullying, dos proble­mas. Chamamos o pai dela, que estava de férias, e conversamos. Ela não se sentia bem com seu ca­belo. Não identificamos quem fa­zia o bullying mas temos conver­sado com todos os alunos.”

“Ela não gostava do cabelo por­que as pessoas ficavam criticando o cabelo dela. Isso é racismo”, dis­se Aparecido. “Porque o bullying é uma coisa transitória. Racismo é quando você mexe com uma coisa que você não pode mudar, como o cabelo, a cor da pele”, afir­mou ele. O pai também contou que, por causa da tristeza da filha, chegou a planejar uma mudança de cidade para contornar a situa­ção. Mas não deu tempo.

VAZAMENTO

Uma das irmãs de Karina re­cebeu uma foto do corpo da ado­lescente em um grupo de What­sApp, o que revoltou familiares. Era a cena do suicídio. “Só quem entrou lá em casa foram o perito e a polícia. Eu fico me perguntan­do quem foi que vazou essas fo­tos. Não entrou ninguém de estra­nho lá”, lamenta a mãe de Karina.

A família prestou queixa do vazamento das imagens no 1º DP de Nova Andradina, que investiga a morte da adoles­cente. O delegado Luiz Qui­rino Antunes Gago afirmou que apura se houve quebra de sigilo funcional de quem trabalhou no acompanha­mento do caso, mas negou que o vazamento tenha sido por parte dos policiais.

O delegado afirmou que nos próximos dias os laudos de necropsia devem confir­mar o suicídio por enforca­mento de Karina. Ele dis­se que as investigações das denúncias feitas pelo pai, de bullying, dificilmente te­rão efeito penal. “Até existe um crime no Código Penal, que é o artigo 122, de insti­gação ao suicídio, mas se­ria uma coisa de causa dire­ta. No caso do bullying, tem um efeito simbólico sobre o suicídio, mas não fala di­retamente para a pessoa se matar”, conclui Luiz Quirino.

Na sala de aula, os 32 cole­gas de Karina terão uma aula com uma psicóloga para falar sobre luto e bullying. O dire­tor e as coordenadoras já ti­veram com os alunos o que Acácio considerou “conver­sas pesarosas”, em que os alu­nos falaram sobre como po­deriam ter ajudado a colega. “Os alunos ficaram com uma sensação de impotên­cia. Estamos falando tam­bém sobre as fotos da mor­te, para não compartilhar, porque isso é crime e faz a família sofrer ainda mais.”


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