No inferno
Redação DM
Publicado em 30 de junho de 2017 às 23:20 | Atualizado há 9 anos
Eu sonhei que morri e fui parar no inferno. Lá chegando, dei a bronca:
– Ora! Por que me truxero pra cá?
– Afinal, aqueles seus pecadões não o recomendavam para o céu, você não acha? Explicou-me o capeta.
Tá certo que cometi muitos pecados. Mas o seo padre me perdoou, na hora da confissão!
Não valeram nada as minhas relutâncias. Estava mesmo condenado a ficar torradinho por ali. “Seo” Lúcifer me chamou pra dentro e eu tive que acompanhá-lo porque, atrás de mim, vinha um outro capeta me espetando .
– Vamos procurar um par de chifres que sirva pra você – falou-me “seo” Lusbel véi de guerra.
Pegou vários pares de chifres e os experimentou na minha cabeça. Nenhum serviu. Ainda bem. Não era à toa que meu pai sempre me chamava de cabeçudo…
– Ô, pai – disse uma capetinha linda, dirigindo-se ao capetão – deixe-o sem chifres mesmo! Esse cara vai dar um lindo capetinha. Olhe só que panca ele tem.
– Filha, cale a boca! Ele veio parar neste inferno por causa de umas “capetinhas” salientes como você. e nada de assanhamento com ele!
– Que calor! Reclamei. Num tem ventilador por aí?
– Não.
– Nem uma Fanta gelada?
– Anh, anh!
– Inferno michuruca esse, poxa!
– O que nós temos para servir aos colegas, aqui, é aquilo, olhe. E apontou-me uma capetona feia, velha e gorda, que espetava com um tridente uma porção de pessoas que conheço, e que borbulhavam dentro dum caldeirão imenso e fumegante. Quando eu vi de perto a tal gordona, ah, senti que o inferno era pior ainda do que eu imaginava: a velhona era a jararaca da minha sogra!
Foi então que eu virei aquele inferno de cabeça pra baixo! Fiquei numa raiva infernal, só de ver aquela capivarona me perseguindo até ali. Quebrei a cara do capetão e da capetada toda! Peguei uma capetinha jeitosa que havia lá, fui dar um beijinho nela mas queimei a boca!
– #§/#§/. Disse nomão horroroso de arrepiar os pelos da “capetaria”! Num era pra menos a minha raiva.
– Com essa sogra rinoceronte, aqui, eu num fico!
Depois do labacê que eu aprontei no inferno, os capetas me expulsaram. Falaram que lá não era lugar para um sujeito mais encapetado que eles. E me chutaram, tão entendendo? Me chutaram de lá! Eu vim caindo… Caindo e, quando acordei, sentada na beirada da minha cama, estava a “broaca” da minha sogra…
(Iron Junqueira, escritor)