Tatuagem
Redação DM
Publicado em 29 de junho de 2017 às 02:40 | Atualizado há 9 anos
Outro dia, andando distraidamente por uma grande avenida, próximo a um movimentadíssimo shopping, numa típica tarde de verão, ensolarada e abafada, tão quente, mas tão quente, que até a água do coco fervia no pé.
Bem à vontade, bermuda, camiseta cavada, boné, “de boa” com minhas eternas acnes e tatuagens bem visíveis, tranquilamente, entre fumaça de óleo diesel e as queimadas assassinas típicas da estação.
Quando do nada, feito uma guerreira ninja, numa espécie de ectoplasma, uma senhorinha daquelas que no popular chamamos de “papa hóstia”, que passam mais tempo na igreja rezando, que praticando o que insistem em não aprenderem nas escrituras, surpreendeu-me.
Depois de ver minhas tatuagens, com uma voz fina e estridente, bobs e lenço na cabeça, dirigiu-se a mim de forma incisiva e naquele habitual tom proselitista e condenativo, agredindo-me com um discurso intolerante e em “nome de Deus”, pelos desenhos na minha pele. Numa demonstração explícita de como a vida alheia é fascinante!
Sei que é meio deselegante e pode parecer desrespeitoso, mais sem dúvida alguma, sua ladainha chamava mais atenção que minhas tatuagens! Por um instante, fiquei em dúvida se ela falava realmente como “representante” de Deus ou do Diabo – sem querer ofender o Diabo, nem Deus, claro!
Disse-me num ar quase profético e apocalíptico, em rústico português:
_ Meu fii, tatuagem é coisa do demônio! Ocê pricisa se arrepender se quiser ir comigo pro céu. Isso já é uma velha praxe, se meu inimigo não tiver defeito eu invento. Ele sempre terá a cara que eu quiser… Como se a verdade que ela pregava fosse a única e verdadeira!
Meio atônito com a inusitada situação, numa fração de segundo, refleti sobre o duvidoso e hipócrita comportamento de alguns paladinos e “porta-vozes” de Deus! Que em seus redutos religiosos, possuem mais gente clamando pela remissão de seus pecados, mendigando perdão e suplicando por uma espécie de “salvo-conduto” para seus próximos deslizes, que agradecendo. Numa barganha imoral, em busca da salvação!
Cegos guiando cegos, ignorantes na fé e adeptos de uma teologia de ostentação, sedentos muito mais pelo patrimônio, que pela redenção! Anseiam muito mais pelo reino terreno, seus templos luxuosos e crescimento material, que espiritual. Buscam praticar, o bem, por temerem o castigo celestial e pela recompensa no paraíso. Não por altruísmo, amor ao próximo ou caridade!
Pregam uma mensagem que não praticam; um amor que não vivem; um perdão de justiceiros e odiosos; uma justiça que condena e discrimina; alicerçada na intolerância, no preconceito, com seus dogmas e na hipocrisia com nome de verdade e amor ao próximo – salvo raríssimas exceções.
Depois de ouvir “sábias palavras” – da senhorinha porta-voz da verdade – resignei-me no silêncio do meu “pecado” e na minha execração celestial. E silenciosamente, pedi ao Deus daquela senhoria, que a perdoasse por ela ainda não ter aprendido o princípio número um: o maior inimigo dos fariseus é o espelho!
Portanto, numa demonstração clara de rudeza e cegueira absoluta, alguns equivocados que se autoproclamam “filhos de Deus”, ainda não se deram conta, o que nos torna melhores ou piores, não é a religião ou a falta dela. Nem muito menos, ter ou não tatuagens, e sim, o caráter e as ações de cada um. Pautado no respeito, na tolerância e na paz! Falar “até papagaio fala”. Voltaire afirmou que “a religião mal entendida é uma febre que pode terminar em delírio”.
Penso que o inferno deve estar congestionado de fiéis como esta senhorinha! E que seu Deus deve ter vergonha de algumas criaturas tão medíocres e ignorantes, que insistem em falar em seu nome!
(Marcos Manoel Ferreira, professor, pedagogo, historiador e escritor. Pós-graduando em Docência do Ensino Superior. marcosmanoelhistoriageral@hotmail.com e www.vozesdasenzala.blogspot.com.br)