“Negro de primeira linha” ou “racismo surpreendente?”
Redação DM
Publicado em 14 de junho de 2017 às 02:34 | Atualizado há 9 anos
Li no jornal O Popular, de 9 de junho corrente, a notícia segundo a qual o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), no dia 8 do mês citado, se desculpou por ter chamado o ex-ministro Joaquim Barbosa de “negro de primeira linha”. Para mim, este fato não causa nenhuma surpresa. É muito comum na vida social do país, no supremo, universidades e outros ambientes da cultura considerada grã-fina, elitizada. Imaginem o que ocorre nas salas escolares e galeras esportivas. Nas esquinas do povo desempregado deste país! Não escolhe sabedoria ou caipirice!
A grande novidade, possíveis leitores, é o fato do ministro Barroso ter vindo a público, no momento adequado, pedir desculpas ao colega e ao país pela ofensa praticada. De que modo? Surpreendentemente, justificando poder chamar esse estereótipo racista de “racismo surpreendente”, característico da América do Sul, sobretudo do Brasil. O ministro, assim como acontece com tantas outras pessoas, foi traído pelo sempre perigoso sentimento da emoção, assim ofendendo o colega ministro Joaquim Barbosa, exatamente quando recebia uma justa homenagem.
Não se trata de temática desconhecida nos estudos de psicologia social americanos, franceses, brasileiros etc. Notem que até cá o escriba, no livro Racismo `Brasileira: raízes históricas, reimpresso na 4ª edição, Editora Anita Garibaldi, trato do assunto não sei quantas vezes. É um racismo realmente surpreendente, porque tem origem num outro ainda mais mascarado, o que chamo “à brasileira”, o mais sutil e hipócrita de todos eles nas Américas, onde é campeão em pretextos, evasivas e lorotas, a ponto de se dizer que nem existe, como se alardeava até a década de 1980 e ainda se repete Brasil afora.
O curioso, é que a sociedade brasileira, não sei quantas vezes burlada por conveniências ou interesses político-partidários, às vezes anunciados, como acabamos de assistir no último julgamento da chapa Dilma-Temer no Superior Tribunal Eleitoral, continua presenciando e “tolerando” o cinismo, o escárnio e a desfaçatez dos que nos representam nas altas cortes, até do Judiciário, enquanto o velho racismo disfarçado, mesmo definido como crime imprescritível e inafiançável pela Constituição Federal de 1988 e leis ordinárias aplicáveis, continua a ser cometido até por quem ninguém espera, do jeito que mais aparece, agora com uma característica certamente inédita, grandiosa, digna de ser registrada em artigo de jornal.
O ministro Luís Barroso, demonstrando coragem e humildade, se redimiu. Pediu desculpas em tempo hábil através do meio adequado, em parte salvando o Judiciário, aflorando sua rara dignidade. Todos saímos ganhando. Vejam que a intenção de Barroso era dizer que Barbosa se tornou “um acadêmico negro de primeira linha! para celebrar uma pessoa que havia rompido o cerco da subalternidade chegando ao topo da vida acadêmica”.
(Martiniano J. Silva, advogado, escritor, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), da Academia Goiana de Letras e Mineirense de Letras e Artes, IHG-GO, UBE-GO, mestre em história social pela UFG, professor universitário, articulista do DM ([email protected]))