Cotidiano

Em busca da cidade escondida

Redação DM

Publicado em 22 de fevereiro de 2017 às 02:44 | Atualizado há 1 ano

Quem caminha pelo centro de Goiânia custa perceber, mas existe uma cidade escondida. Temos uma outra urbe que está por trás de toldos, fachadas, totens, luminosos e arranjos metálicos diversos. E sem possibilidade de enxergá-los, só resta imaginar. “Penso que temos ali um tesouro, inúmeros prédios art déco, construções históricas, muita coisa escondida”, diz Gutto Lemes, presidente da Sociedade Art Déco.

Gutto diz ao Diário da Manhã que nem mesmo a reportagem do jornal “New York Times” que denunciou o descaso com que tratamos o patrimônio arquitetônico de Goiânia serviu para despertar as autoridades e o poder público.

Com isso, diz o militante, resta um centro de Goiânia decadente, feio e perigoso. “O New York Times foi positivo na sua crítica no sentido de despertar esse olhar em relação ao estado que encontra nosso patrimônio, especialmente o tombado. O que temos que fazer, na verdade, é despertar o orgulho em relação à nossa arquitetura”, afirma Gutto.

Ele se refere em específico ao debate da Zona Integrada de Desenvolvimento (ZID), proposta tendo em vista unir os interesses do segmento público, sociedade civil e proprietários de prédios localizados na região central.

Gutto é idealizador de uma proposta ampla que visa sugerir isenção de impostos durante quatro anos para os empresários que optarem em valorizar o estilo art déco em seus prédios. “A proposta está centrada na avenida Araguaia, Paranaíba e Tocantins. Os empreendedores terão um prazo de no máximo três meses para reformar e pintar as fachadas, se adequar ao código de posturas de publicidade e valorizar o patrimônio”.

O presidente da Sociedade Art Déco afirma que o ZID visa colaborar com o desenvolvimento e atrair novos investidores para o centro. É uma proposta para ser debatida com vereadores, gestores, entidades da sociedade civil e universidades. Em outras palavras: seria uma propositura de mudança de mentalidade já que raramente o centro é percebido em sua totalidade. E raríssimas vezes recebe políticas públicas que valorizam suas características – como a recente reforma da praça Cívica, realizada pelo ex-prefeito Paulo Garcia.

Apesar de iniciativas como a do ex-prefeito, o que se percebe é um conjunto de prédios horrorosos que afastam os turistas. Um exemplo é a avenida Goiás: na rua 2, uma empresa usa fachada que mistura cores cinza, laranja e rosa e que repete a logomarca três vezes [isso mesmo: três vezes!] na mesma placa. Três vezes também aparecem telefones e o nome do estabelecimento. Perto dali, o símbolo da decadência: um prédio abandonado ainda por construir mostra como anda a pujança econômica de uma das principais avenidas do Centro sucumbiu ao ambiente. Do lado, um banco todo laranja usa várias camadas de entulhos visuais e repete no mesmo lugar duas vezes o nome da agência. Existe ali naquela esquina muita informação visual – e nenhuma estética. Viver e visitar o centro torna-se um inferno, uma ação sem nenhum prazer e que só afasta turistas e quem deseja conhecer um pouco da história da cidade idealizada por Pedro Ludovico.

Gutto diz que o que propõe não é novidade, mas parece falar outra língua diante da pouca reação efetiva: “O ZID tem como ponto forte a isenção de impostos. Isso é tão antigo quanto a construção de Goiânia. E vale para as lojas que forem ocupar os prédios em estilo art déco–somente as lojas fechadas com esta arquitetura”.

BUENOS AIRES

Ele informa que existe um trabalho de valorização do art déco no restante do mundo e Goiânia está fora por culpa dos gestores públicos que não conhecem este patrimônio e que não se sensibilizam com história e memória das cidades. “Temos feito parcerias com a Aliança Francesa, a AdbA, da Argentina e Miami. Precisamos de mais instituições em prol desta missão”.

O caso da AdbA é emblemático: a instituição atua na defesa do patrimônio arquitetônico de art déco da Argentina e realiza inúmeras atividades em defesa deste estilo tão presente em cidades como Miami, Paris, Buenos Aires e Goiânia. Na atualidade, a AdbA se revela mais preocupada com o patrimônio goianiense do que com o próprio poder público local. Ela inclui Goiânia nos mais importantes roteiros arquitetônicos e divulga a cidade de graça. Foram ações como estas que trouxeram de New York um jornalista para Goiânia. Se dependesse dos agentes políticos locais nem correspondente de jornal do interior do Nordeste repercutiria nosso patrimônio. Ficaria ainda mais escondido.

Gutto propõe uma ação radical para retirar as fachadas horrorosas do centro para que seja possível aos especialistas, urbanistas e designers encontrarem elementos art déco esquecidos ao longo da sanha financeira que asfixiou a região central. “Tem que tirar e ver no que vai dar. Nem imagino o tamanho e a proporção desta cidade esquecida”.

 

Um sonho no papel

Requalificar o Centro de Goiânia é um sonho distante devido à falta de políticas públicas estipuladas efetivamente para perdurar. Em outras palavras, projetos e o que fazer efetivamente não faltam. Mas falta muita coisa: vontade. Inexiste, por exemplo, emendas parlamentares, financiamentos e contrapartidas para fazer do centro um espaço valorizado.

Gutto Lemes lembra que são raras as iniciativas. “Tirei dinheiro do próprio bolso para fazer um folder explicativo do patrimônio”, exemplifica o militante que ainda realiza passeios ciclísticos e monitorias para falar da memória urbanística da cidade.

Sugestões a partir da ZID não faltam. Gutto cita a reorganização do mercado aberto na avenida Paranaíba, com a criação de espaços nos subsolos para feirantes e uma passagem subterrânea na avenida Goiás.

Sugere também que o asfalto na região onde se compreende a zona do traçado art déco seja trocada por asfalto de borracha. Ele explica também que a região central possui vários becos e praças “abandonadas e sendo utilizadas como estacionamento por carros, motos e dormitório de pessoas em situação de rua”. Solução: ocupar o Centro.

“A transformação destes locais em pontos de entretenimento e econômico contribuirá para o desenvolvimento da região e diminuirá o índice de violência”, aposta.

O presidente da Sociedade Goiana de Art Déco diz que ao colocar Goiânia no cenário mundial da arquitetura e patrimônio cultural, a Prefeitura de Goiânia ganhará um retorno extraordinário em impostos e taxas. “É um investimento social, humano e financeiro”.

Traçado

Gutto Lemes diz que existe a necessidade de criar mecanismos para que o próprio goianiense valorize e conheça o patrimônio urbanístico. A ideia central é fechar simbolicamente o espaço para implantação do ZID e facilitar a compreensão do traçado urbanístico da capital tombado nacionalmente em 2003.

“Temos grande potencial: imagino restaurantes de alta cozinha e culinária estrangeira, confeitarias finas, casas de bolos, quitandas, bares, bistrôs, pubs (som ao vivo interno), boates, lojas de roupas de grife, joalherias, ourives, salões de beleza sofisticados, barbearias style, engraxatarias style e tudo mais no Centro. Mas para que isso aconteça é preciso um processo de ampla ocupação. Só vamos conseguir se existir um interesse comum”, diz Gutto.

 

O que é o art déco

Movimento artístico internacional que começou na Europa em 1910, o art déco  teve grande influência nos anos 1920 e 1930, principalmente nos EUA. Representa a aplicação do cubismo a outras plataformas simbólicas, fato que acabou por criar uma linguagem própria.

Estilo

As propostas geométricas foram aplicadas também na indústria de joias e móveis. O estilo era considerado vistoso e elegante, além de ultramoderno. O art déco surgiu como contraposição ao art noveau, já que trouxe um estilo mais econômico nos traços e menos sinuoso do que o estilo romântico.

Influência

Ao ser criado, influenciou a cultura: artes decorativas, arquitetura, design de interiores e desenho industrial – bem como as artes visuais e a moda – foram tocados pelos seus traços.  Por isso que pintura, artes gráficas e o cinema o popularizaram pelo mundo.

Goiânia

Na década de 1930, Pedro Ludovico criou uma cidade moderna e desejava que ela representasse isso. Ao escolher o urbanista Atílio Corrêa Lima, ele deu as diretrizes para que buscassem as ideias mais modernas. E o profissional foi na França procurar as melhores influências. É dele, por exemplo, algumas das primeiras construções art déco da capital.

Prédios e monumentos em Art Déco em Goiânia:

  • Palácio das Esmeraldas, Praça Cívica
  • Procuradoria Geral do Estado, Praça Cívica
  • Coreto, Praça Cívica
  • Agência de Cultura, Praça Cívica
  • Museu Zoroastro Artiaga, Praça Cívica
  • Delegacia de Administração, Praça Cívica
  • Instituto Federal de Goiás (antigo Cefet), Rua 66, Centro
  • Estação Ferroviária, Praça do Trabalhador, Centro
  • Fórum e Tribunal de Justiça, Avenida Anhangüera, Centro
  • Grande Hotel, Avenida Goiás, Centro
  • Lyceu de Goiânia, Rua 21, Centro
  • Museu Casa Pedro Ludovico, Rua 26, Centro
  • Subprefeitura, Praça Joaquim Lúcio, Campinas
  • Palace Hotel, Avenida 24 de outubro, Campinas
  • Teatro Goiânia, Avenida Tocantins, Centro
  • Trampolim e mureta do Lago das Rosas, Setor Oeste
  • Tribunal Regional Eleitoral, Praça Cívica, Centro
  • Torre do Relógio, Avenida Goiás, Centro

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia