A Mitomania de Marcelo Henrique
Redação DM
Publicado em 10 de abril de 2017 às 00:19 | Atualizado há 9 anos
Ele já tem 20 anos de carreira, mas a sua obra inspira frescor e juventude. Mas, também, mergulha em uma estranheza de quem vê entre as entrelinhas. Este é o artista plástico Marcelo Henrique, que até o dia 5 de maio estará em cartaz na exposição intitulada “Mitomania”, no Espaço Cultural da Justiça Federal.
Então, nas paredes sóbrias do espaço, percorrerá um universo fantástico criado pelo artista, composto por 33 trabalhos em formatos mínimos, pequenos e médios. Com técnica mista – que envolve acrílica, lápis, giz, lápis de cor e glitter sobre papéis nobres e telas –, suas obras misturam realidade e fantasia em fábulas recheadas de ironia e bom humor, deixando explícito as suas maiores referências: os cartoons brasileiros.
Laerte, Henfil, Millôr Fernandes, Jaguar, entre vários outros nomes, juntamente com a sua noção particular e lúdica da realidade em que se fundamenta toda a estética de Marcelo. Com os poderes de sua criatividade desconstrói o mundo, para depois recriá-lo, e assim, talvez, para fazer algum sentido para ele.
Ele diz que muitos o rotulam – por ele não ter formação acadêmica – como um artista autodidata. Porém, com o título não concorda muito. “Não acredito no autodidatismo puro e simples, ou mesmo num processo empírico integral. Durante estes 20 anos de carreira, trabalhei com pessoas muito sérias, totalmente comprometidas com a arte em todos seus aspectos, com a ética e com o respeito. Estes profissionais são modelos ideais de inspiração e realização para meus trabalhos”, explicou, em entrevista ao DMRevista.
Uma de suas primeiras oportunidades de compartilhar sua visão de mundo nasceu do convite para ilustrar publicações editoriais em jornais e revistas da cidade. E este trabalho despertou a atenção dos críticos de arte e curadores, como Carlos Fernando Magalhães e Gilmar Camilo, que deu asas para arte de Marcelo voar por aí.
“Eles me convidaram a integrar a mega mostra ‘Emergência Contemporânea’, ao lado de artistas como Heraldo de Souza, Marcos Caiado, Marcelo Solá e Pitágoras. O ano é de 1999. Foi minha primeira coletiva”, relembra o artista, que na entrevista a seguir conta mais sobre os tons que motivam sua arte. Acompanhe:
DMRevista: Por que escolheu este nome “Mitomania” para exposição?
Marcelo Henrique: Porque o mundo sofre processo de embrutecimento. capitalismo selvagem tenta transformar seres humanos em máquinas, resquícios de um Iluminismo reducionista, antiquado, velho e falido, impulsionado pela indústria automobilística e petrolífera. Tudo é carro. Tudo é caos. E no final das contas o máximo que conseguem é atropelar pedestres indefesos, idosos, crianças ou rachar a própria cara no poste. Mitomania é um alerta, que segundo afirmação de um filósofo amigo meu, jamais pode morrer. O Mito é que dá sentido à vida. Precisamos ver as estrelas. Deixar o sol pesar sobre nossas mãos. Deixar a imaginação voar com o vento. Sentir os pingos da chuva. E, parafraseando Pessoa por ele mesmo: O mito é nada que é tudo / O mesmo sol que abre os céus/ É um mito brilhante e mudo”. Sobretudo “Mitomania” é uma pulverização sobre os meus temas novos e recorrentes. Sobre o meu universo narcísico. São narrativas visuais, fabulações. Memorial e noturna.
DMRevista: E como foi o processo criativo desta “Mitomania”?
Marcelo Henrique: A mostra ganha seu contorno a partir de inquietações que me desafiam. Nasce em sketches desenvolvidos e criados, na maioria das vezes durante a madrugada. Estes insights vão se determinando, tomando seus espaços e após esta fase orgânica, intuitiva, é que vou implementando dados e projetando o “corpo” do desenho. Dimensionando em suportes, materiais e técnicas. É importante dizer que sinto absorvido por este trabalho. É um campo onde posso transmutar os fatos e dados no calor do gesto, no traço, na cor, na forma.
DMRevista: A intenção é contar uma história? Ou várias?
Marcelo Henrique: São várias histórias. Cada uma começa, se define e se encerra nela própria. Defino como pulverizada, pois é uma produção fragmentada com diferente tons de investigação e com sua própria carga de sentido. Posso dizer que todos tem grande significado para mim. Poderia divagar sobre os temas, mas o interessante é se deixar levar pelas imagens, criando você a própria história. Mas, posso dizer que existe tudo de mim dentro dela: minhas paixões cotidianas, meus medos, minhas posições, meus entraves, minhas dúvidas, minhas justificativas. minhas alegrias, meu sexo, meu prazer, mas também meu luto, meu pranto, minhas ausências, minha “fome existencial”, minha “fome de viver”.
DMRevista: Notei que a mostra tem um lado meigo e lúdico, mas também guarda certa estranheza. É isso mesmo?
Marcelo Henrique: Acredito que seja pelo componente do humor crônico e cínico que acompanha meu trabalho. Um tom cartoon, farsesco. Acho que isto acontece pela admiração que tenho pelo cartoon brasileiro. É bom saber que em lugar nenhum do mundo existe um Laerte Coutinho, Um Henfil, um Millôr Fernandes, um Jaguar. Essa pessoas não são apenas cronistas. São filósofos, pensadores, críticos de seu tempo, criadores, artistas… Sendo eu um artista de linguagem, prefiro dizer que sou adepto da arte bruta. Da arte do corpo. Meu objetivo é o gesto.
DMRevista: Quais os projetos que já esteve envolvido e o que vem pela frente?
Marcelo Henrique: Em 2016 fui convidado a integrar o casting da Galeria Parallella, projeto ligado à tenda Circulou, de preservação das culturas dentro de um dos maiores festivais de música eletrônica da América Latina: Universo Parallello, onde pude trocar experiências com diversos artistas. Uma experiência de vida rara. Nesse mesmo ano realizei minha exposição itinerante Casa de Bonecas – comemorando meus 20 anos de atuação na cena artística. A exposição, que começou na Vila Cultural cora Coralina, migrou paro o Café Savana em Brasília e posteriormente integrou a programação oficial do 14º Goiânia Em Cena no hal do Grande Hotel – Goiânia.
DMRevista: E quais são os projetos e sonhos daqui para frente?
Marcelo Henrique: Hum… pergunta difícil. Sou fã do acaso. Gosto das coisas não premeditadas. Mas, confirmado e agendado estão: feira e-cêntrica de publicações independentes” que nesta quarta edição, acontece dia 29 de maio, no Teatro Zabriskie, no Setor Pedro Ludovico, onde apresentarei papéis de carta, zine da Lady perigo, Livrinhos de pintar, desenhos-postais e envelopes. No mais, meu projeto para o futuro é desenhar a Maria Tereza Goulart, primeira-dama do Brasil entre 1961 a 1964. seus vestidos, coques… Uma lição de estilo! O título da série será “Volver!”, porque, afinal de contas, não custa nada ser nostálgico para um canceriano!