Um patrimônio degradado
Redação DM
Publicado em 11 de janeiro de 2017 às 01:03 | Atualizado há 1 ano
Quem caminha pelas ruas centrais de Goiânia percebe que a região está descascada, com paredes mofadas, árvores envergadas até o chão, marquises pichadas, fachadas imundas, com cheiro de urina e um cromatismo horroroso e sem sentido.
O rosa se encontra com verde, o roxo cobre um fundo preto, o vermelho se funde ao verde fluorescente. Próximo da praça Cívica, diante da antiga OAB, na avenida Goiás, um monte de metais, circunferências, aços, pinos desconexos escondem a antiga casa da racionalidade jurídica; logo ali na frente, o antigo prédio de O Popular, a alma mater da moderna imprensa goiana, se estranha com fontes volumosas, bastão, bem gordas, em um autêntico traçado déco. Fundidas no concreto, as letras são deformadas por pichações pós-modernas, que revelam a decrepitude de uma cidade hoje de joelhos.
Há 30 anos agentes públicos ensaiam uma revitalização do Centro, mas inexiste qualquer reação por parte do poder público. A marcha da desconstrução da imaginabilidade da capital faz com que os tecnocratas não movimentem um dedo para recuperar nossa história. Dinheiro, então, nem pensar.
Apesar do urbanismo estar na moda (como mostra a reportagem do “New York TImes”, sobre o centro da capital goiana, publicada na página 4) sequer o mínimo é feito na região: buracos se espalham, asfaltos irregulares se horizontalizam, mais e mais ocupações ilegais em espaços públicos surgem. As obrigações ‘propter rem’, do Direito Civil, são desrespeitadas ritualmente pelos decadentes que restaram e se refestelam na anomia vigiada bem de longe pelo poder público.
E o pior: flagramos um desamparo completo ao patrimônio arquitetônico que tem como conjunto histórico a majestosa arte déco. Aos poucos, essa arte desmorona junto aos seus pedaços cada vez mais volumosos no chão.
A malha do tecido urbano central resulta em uma “descomercialização”. Antes coração financeiro da capital, agora falta dinheiro no Centro. As placas de “Aluga-se” multiplicaram pelos muros e portas. O que ficou não é bem cuidado. “Tô fechando isso aqui, pois não dá mais. Aqui é só facada, morte, falta polícia. Não tem segurança”, diz Olinto Maciel, o Macim, que toca uma lanchonete na 4. “Luto com isso desde 1980. Vou tomar conta de feira. Chega de centro!”, diz, sendo, claro, o próximo a colocar uma placa de aluguel na vizinhança.
Conforme Gutto Lemes, a situação nunca foi tão desesperadora, principalmente para o patrimônio estético que caracteriza a região central. Dirigente da Sociedade Art Déco, ele afirma que o movimento em defesa desta arquitetura surgiu após a realização de um seminário com apoio do Sindlojas. “Realizamos um levantamento dos prédios, tendo em vista promover e educar as pessoas quanto a necessidade de olhar diferente para este patrimônio”, afirma.
Se depender da sociedade, a população vai aprender a valorizar seu patrimônio. O problema, como dito, é o poder público com sua cara de paisagem. A reportagem do DM procurou por fontes para debater a degradação na Prefeitura de Goiânia e Estado, mas todos desconversaram, como que não existissem razões para chorar pelo cenário decadente. “Todas as capitais estão assim”, resumiu uma burocrata que atua na Secretaria de Planejamento e Urbanismo (Seplam). “Não existe nada concreto. Não estamos dando conta de coletar lixo nas ruas e você quer saber de art déco?”, disse a servidora, que implorou anonimato.
Hoje, inexiste na Prefeitura de Goiânia qualquer ação concreta para proteger o patrimônio. E quem olha de perto vê as ruínas das edificações, como o prédio da Praça do Trabalhador, que aos poucos se descaracteriza em meio a degradação.
A reportagem do DM foi até o local e comprovou o que já era conhecido dos vizinhos: uma obra de arte arquitetônica tornou-se moradia dos vendedores e usuários de crack. A outrora elegante praça tornou-se espelunca para vendedores de oxi e outros derivados baratos da cocaína.
Durante a disputa eleitoral de outubro, falaram muito sobre segurança. Cada político trouxe uma teoria. O binômio praça/violência deu a tônica nos primeiros debates, mas logo caiu no esquecimento. E a região central é uma das mais violentas na Capital. Ao deixar o Centro poluído, o poder público só contribui com a criminalidade. Uma das mais proeminentes teorias de violência urbana, a Teoria das Janelas Quebradas, diz que um ambiente degradado é potencializador para ações violentas.
A ideia de que a desordem gera outras desordens é reconhecida como importante aporte na área de segurança pública. James Q Wilson e George Kelling acreditam que ações antissociais ocorrem cada vez mais em ambientes degradados. Daí que cuidar de pequenos detalhes pode ser uma ação preventiva. Mas quem chega na praça e olha para o monumental patrimônio se espanta com os montinhos de fezes, camisinhas usadas [um bom sinal! Afinal, alguém ali está prevenido], restos de droga, comida velha, pombo morto e sabe se lá mais o que no chão.
Eva Rocha, da ONG “A Paz que Eu Quero”, reclama da atribuição de funções. “As guardas metropolitanas querem agir como Polícia Militar e se esquecem do cuidado com a paisagem das cidades. Veja como inúmeros prédios públicos estão destruídos em Goiânia. E quem tem obrigação de vigiar isso?”, questiona a militante.
Para o artista plástico e jornalista Pedro Galvão, os agentes públicos precisam passar pelas ruas centrais e redescobrir a beleza arquitetônica da cidade. “Goiânia é muito bonita. A cada dia surge um lugar que você não percebia. Mas a região central foi abandonada”, constata Galvão, que pinta cenas urbanas tendo a art déco ao fundo. Por incrível que pareça ele ainda consegue se inspirar na terra arrasada que os prefeitos preferem ignorar.
Galvão observa a beleza escondida: “A art déco está tampada por banner, por placa, por outdoor. E isso me deixa triste. Vejo o prédio Figueiredo, na rua 7 com a Anhanguera, aquele prédio laranja, aquilo é lindo. Mas ninguém percebe: simplesmente está tampado”.


POSTURA
De autoria do vereador Elias Vaz, a Lei Complementar 231/2012, que emendou o Código de Posturas de Goiânia, disciplinou o uso de mídias no exterior. Mas é praticamente ignorada, já que a Prefeitura não pune nem realiza campanhas de conscientização. Pelo contrário, ela própria fere a lei quando realiza sua propaganda pelas ruas.
Galvão afirma que este desrespeito retira o sentido estético que existe na paisagem. Para ele, o núcleo urbano está rachado por desrespeitos ao estilo original do município. A plasticidade do espaço, que embelezou Goiânia principalmente no passado, tem retirado as áreas verdes e plasmado o centro de cores horríveis.
A luta pela não ocultação da beleza da cidade é também uma missão do escultor Elifas Modesto, que reclama da falta de imaginabilidade de Goiânia: “Temos poucas obras públicas. Cada prédio, edifício, deveria guardar espaço para esculturas, obras de arte. Mas não vemos isso em Goiânia, que parece ter perdido a ‘alma’, a ‘estética’, enfim, a beleza, para uma vida materialista e de consumo”.
Imaginabilidade é o caráter principal das cidades: o que as individualizam e as tornam diferentes em suas formas e cores. As gestões contemporâneas, voltadas para atender o mercado imobiliário, preferem destruir os referenciais do município. E mais: impedir que surjam outros. “Uma obra pública delimita, define, diz quem somos, revela nosso povo”, diz Elifas ao DM.
Se os artistas reclamam da falta de imagens, os ambientalistas, caso de Goiano Sidney, da ONG CaminhosWay, registram descontentamento com a perda da balneabilidade: “Quando menino eu e meus amigos ficávamos sempre nas águas do córrego Vaca Brava. Hoje, ele foi destruído por um shopping. Passe lá e olhe para ele. Veja o horror. O mesmo tem ocorrido com o Centro, que não tem um fio de rio mais para o banho. Precisamos discutir o córrego Botafogo”, braveja.
Defensor do art déco age sem apoio


A partir da Sociedade Art Déco, Gutto Lemes criou uma trincheira para defender o patrimônio cultural e histórico de Goiânia. A tarefa não tem sido fácil. O produtor cultural chama atenção para necessidade de defender o Centro da ânsia destrutiva de empresários, do poder público e de parte da população, que age sem conhecimento.
Gutto diz que seu trabalho é de formiguinha. Não recebe, portanto, nenhum apoio para fazer esta defesa do patrimônio arquitetônico. Mas incomoda.
Para ele, a própria sociedade civil pode ampliar ações que possibilitem estender esta rede de proteção. As ações em defesa da cidade começaram em agosto. “Ajudei a construir o primeiro Seminário Art Déco de Goiânia, para os comerciantes do centro e o trade de turismo”.
Gutto diz que tenta agora articular a defesa do patrimônio com entidades internacionais já que movimentos urbanísticos do exterior se mostram mais receptivos à causa do que muitos agentes públicos goianos, como se observa pela reportagem do New York Times, publicada ontem em sua edição impressa. .
De acordo com Gutto, ele começou um intercâmbio com a AdbA, entidade da Argentina, que visa também defender os edifícios históricos das metrópoles daquele país. “Esse convite aconteceu após uma foto que tirei do coreto da Praça Cívica. Recebi menção honrosa de solidariedade interamericana, no III Concurso de Fotografia Art Déco da Argentina. Depois de Buenos Aires, ele segue para Miami, em fevereiro de 2017, na maior feira de antiguidades do mundo”, diz o defensor.
Conhecido como guardião da art déco, ele afirma que Goiânia precisa cuidar melhor de seu acervo, que é o segundo maior do mundo.
Gutto cita ao DM, por exemplo, a decadência do prédio do Lyceu de Goiânia, hoje sem o brilho do passado.
O produtor chama atenção de outra edificação importante para nossa história: o trampolim, de 1942, localizado no Lago das Rosas: “É hoje o único exemplar no mundo. A foto que fiz foi enviada para o concurso de fotografias Art Déco na Argentina”.
O produtor lamenta o esquecimento do Centro de Goiânia: “Se a Europa tivesse um sítio desses, com certeza, valorizaria mais do que os brasileiros”.
Para ele, o Código de Posturas do Município precisa sair do papel: “O título de capital Art Déco só irá se concretizar depois que nossos comerciantes, lojistas, proprietários de imóveis com características déco e gestores acordarem para nosso potencial turístico arquitetônico”.
Estilo marca paisagem de Goiânia
Movimento artístico internacional que começou na Europa em 1910, o art déco teve grande influência nos anos 1920 e 1930, principalmente nos EUA.
Representa a aplicação do cubismo a outras plataformas simbólicas, fato que acabou por criar uma linguagem própria.
As propostas geométricas foram aplicadas também na indústria de jóias e móveis. O estilo era considerado vistoso e elegante, além de ultramoderno.
O art déco surgiu como contraposição ao art noveau, já que trouxe um estilo mais econômico nos traços e menos sinuoso do que o traço romântico.
Ao ser criado, influenciou a cultura: artes decorativas, arquitetura, design de interiores e desenho industrial – bem como as artes visuais e a moda – foram tocados pelos seus traços.
Por isso que pintura, artes gráficas e o cinema o popularizaram pelo mundo.
