Os outros dias
Redação DM
Publicado em 23 de dezembro de 2016 às 01:05 | Atualizado há 10 anos– Amanhã é Natal. Adoro a data.
– Eu sei.
– Tudo parece melhor. As pessoas parecem mais felizes, mesmo apressadas.
– Decerto.
– Mesmo a natureza muda. O calorão brabo que a gente enfrenta o ano todo arrefece. O clima é mais ameno.
– Chove todo santo dia. Maldita chuva.
– Engano seu. Tudo fica verdinho, bom que é uma belezura só.
– Minhas roupas cheiram a mofo.
– Talvez você devesse revezá-las mais. Sempre usa a mesma coisa. Parece uniforme. Toda segunda-feira, usa polo e jeans; na terça, manga comprida; na quarta, gola baixa; na quinta, camiseta branca; na sexta calça social e camisa azul; nos finais de semana bermuda e uniforme do Palmeiras…
– Qual o problema?
– Isso é…
– É o quê?
– É tão… você.
– O que você quer dizer com isso?
– Não importa. Talvez ainda não tenha sido contaminado pelo espírito natalino.
– Se for doença, talvez.
– Não diga tolices.
– Não aguento sair de casa para ouvir a Simone berrando que “então é Natal”.
– Sua rabugice é deprimente.
– Natal é uma enganação.
– Explique-se.
– Toda essa comemoração é invenção do comércio para vender mais.
– Sei…
– É sério. Você nem vê e pimba: moeu todo o salário com quinquilharias. Foi enganada sem ver. Talvez você nem saiba, mas é uma baita sacanagem. As empresas ficam cutucando suas emoções; deixam-lhe triste com essas canções melosas. O povo acredita nisso. Passa a acreditar que basta um dia do ano trocando presentes para que a vida seja melhor. Bobagem das grossas.
– Vejo que não compreende.
– Engano seu. Saco tudo.
– Ainda que sua argumentação pareça lógica, digo que não há fundamentação nenhuma. A celebração do Natal é historicamente anterior ao desenvolvimento do comércio como o conhecemos.
– E daí?
– Toda a sua tese cai por terra apenas neste aspecto. Mas há outro problema.
– Continue, por favor.
– Um único dia para se fazer o bem é um começo. Isso não é hipocrisia.
– Convença-me.
– É preciso começar por algum ponto. Pode ser que nada mude ou que as pessoas continuem exatamente da mesma maneira. Ainda que as luzes do comércio despertem a preocupação em dar um presente ou um telefonema para alguém é, sim, alguma coisa. Um primeiro passo.
– Um começo que não vai adiante.
– Não para um cético. Ainda que seja este um único dia por ano haverá outro ciclo que se tornará a repetir dentro do mesmo período.
– Não entendi.
– Sempre haverá outro Natal para se repetir o gesto. Ou seja, não é um único dia por ano. Podem ser dezenas de dias ao longo de uma vida.
– Não havia pensado nisso.
– Natal não é mero pastiche comercial. Pode ser uma chance que a vida lhe oferece todos os anos para sinceramente se lembrar de todas as pessoas que amamos. Ainda que seja por um único dia. Talvez, quem sabe, essas 24 horas não vão se espichando até se tornarem hábito?
(Victor Hugo Lopes, jornalista)