O nascimento do grande rei
Redação DM
Publicado em 22 de dezembro de 2016 às 00:52 | Atualizado há 10 anosAssim que o sol desce no ocaso do deserto abrasado, as tendas são desmontadas, os camelos arreados, os odres de couro abastecidos, os alforjes acomodados nos lombos dos animais, os pães assados recolhidos dos seixos expostos ao sol, a colheita das tâmaras, tudo na ordem costumeira da lida perene dos práticos escravos caravaneiros.
O rumo a seguir pela caravana comandada por três reis é o da Estrela-Guia, que se pusera ao amanhecer anterior. E, assim que o vermelhão do horizonte-poente vai-se esmaecendo, surgindo o crepúsculo, a Estrela do Oriente começa a mover-se, orientando a caravana, rumo a Judéia.
Quando José e Maria se aproximaram de Belém, aonde iriam se recensear, pois José descendia de Davi, receberam a visita de um varão garboso e confiante, que lhes veio buscar. Apresentou-se como Gabriel e disse que os iria conduzir ao Palácio.
– Mas eu não trago dinheiro suficiente para nos hospedar e mesmo uma manjedoura nos serve, – disse José.
– Hospedaria, manjedoura?! Hospedaremos no magnífico Palácio onde nascem os reis – respondeu Gabriel.
Assombrados com a magnificência de tudo, José e Maria encurtavam os passos. Gabriel à frente do casal, seguidos por uma falange de servidores vestidos de branco, como que suspensos do magnífico piso, limpo, limpo, soaram as trombetas. Camareiras, também de vestes alvejadas, cujos pés mal tocando o solo, reverenciaram o humilde casal e o conduziram ao principal aposento revestido de reposteiros de seda e tapetes persas. O grande Nascimento seria naquele aposento, onde nasciam os grandes reis.
A caravana, sob a orientação da Estrela, agora bastante baixa, final da longa jornada, os Magos adentraram o povoado de Belém e a Estrela postou-se, por alguns instantes, na torre principal do Palácio, e depois se apagou. Os escravos descarregaram os animais e armaram as tendas. Os Magos vestiram suas régias vestes, colocaram as coroas sobre a cabeça e se perfilaram. Melchior, o jovem rei sem barbas, recebeu do seu pajem o cofre contendo Ouro, representando a Riqueza; Gaspar, o velho de barbas longas, recebeu o turíbulo com brasas e o cofre com Incenso puro, de resina aromática e fumaça branca, inebriante, representando a Divindade; Baltazar, o negro de barbas cerradas, trazia nas mãos o extrato de resinas de mirra, que perfuma e anestesia a dor, especiaria usada nos sepultamentos, representando a Longevidade.
As trombetas deram início aos tão almejados primeiros passos dos Magos, que seguiram acompanhados até o aposento onde o recém -Nascido já se achava colocado entre almofadas e coxins de seda. Os presentes dos Magos foram depositados no aparato preparado ao lado do imaculado berço de marfim. O rosto do Menino, resplandecido, pareceu falar em agradecimentos. Em seguida adentraram-se os humildes pastores da redondeza, que guardavam os seus rebanhos de ovelhas, passando a adorar o Menino. Assim se deu o nascimento do Rei dos judeus, o maior rei da Terra, que dividiu o mundo em duas partes: antes e depois d’Ele.
Os tempos passaram. Caiu o Império Grego; caiu o Império Romano; caiu o Império de Napoleão, todos os impérios foram caindo, somente não caiu o Império do Grande Rei, que foi se tornando cada vez mais soberano! A sua coroa martirial-vegetal de espinhos, é de maior riqueza e de maior valor do que todas as coroas de ouro e pedras preciosas de todos os soberanos da Terra. E o seu reino não era deste mundo! Mas os seus falsos adeptos se distribuíram nas mais diversas religiões, multiplicando igrejas e seitas, a maioria explorando o seu santo nome por dinheiro, Ele, que apesar de rei, sempre foi pobre, de uma só alpargata, de uma só túnica, e vendido por apenas 30 ínfimas moedas.
Macktub!
(Bariani Ortencio, [email protected])