Filósofo propõe resgate do ritual para conter os efeitos do déficit de atenção
Redação DM
Publicado em 12 de novembro de 2016 às 01:48 | Atualizado há 1 anoEm Sociedade excitada, Christoph Türcke alertou para a agitação e o senso de urgência que ditam o ritmo da sociedade contemporânea. Em seu novo livro, o filósofo parece apresentar justamente as consequências deste cenário. Hiperativos! aborda o transtorno do déficit de atenção, suas implicações nas relações sociais e os possíveis caminhos para uma vida mais concentrada e saudável.
O autor mostra a importância da atenção e da repetição no processo de estabelecimento das culturas humanas e resgata a formação dos costumes, vistos por ele como um fenômeno de legítima defesa de um sistema nervoso altamente sensível. Desta forma, o homem primitivo teria criado os rituais para conter seus medos da natureza. Assim, teriam surgido os sacrifícios e depois ritos mais suaves, como orações e refeições.
Em seguida, Türcke analisa como a conduta humana foi alterada e acelerada com a chegada das máquinas e o advento da imagem, que para ele gera no espectador um contínuo impulso ao despertar. Ele observa o mesmo fenômeno nos materiais impressos: “Nas últimas duas décadas, todos os grandes jornais estão cada vez mais parecidos com as revistas ilustradas. Sem fotos grandes eles não podem mais concorrer. Toda a diagramação supõe que ninguém tem mais concentração e resistência suficientes para ler um texto da primeira à última página, linha por linha”, afirma.
O filósofo fala ainda sobre os efeitos do déficit de atenção nas crianças, que não conseguem se concentrar e nem persistir em atividades coletivas. E propõe, portanto, uma nova disciplina escolar, batizada provisoriamente de “estudo do ritual”. Para os alunos pequenos, ele explica, serviria como uma paciente e criteriosa prática de conduta que condensaria toda a matéria de aula em intervalos regulares de pequenos atos como apresentações e ensaios.
“Educadores e professores que praticam com muita paciência e calma ritmos e rituais comuns, que nesse percurso passam o tempo comum com as crianças que lhes são confiadas; que se recusam a adaptar a aula a padrões de entretenimento da televisão, com contínua troca de método; que reduzem o uso de computadores ao mínimo necessário; que ensaiam pequenas peças de teatro com as crianças, apresentam a elas um repertório de versos, rimas, provérbios, poemas, que são decorados, mas com ponderação e entendimento; que não se servem permanentemente de planilhas, mas fazem os alunos registrarem caprichosamente o essencial num caderno: eles são membros da resistência de hoje”, completa.
Hiperativos! é um livro para pais, professores, pedagogos, psicanalistas e para qualquer pessoa que lide direta ou indiretamente com o transtorno de déficit de atenção. Uma leitura fundamental para compreender e transcender os impactos das novas tecnologias da comunicação nas estruturas perceptivas do indivíduo.

