Brasil

A análise psiquiátrica de Trump

Redação DM

Publicado em 11 de novembro de 2016 às 02:05 | Atualizado há 10 anos

“O Trump é louco”, “o Trump é um psicopata”, “o Trump é sádico”, “o Trump é tarado”, “o Trump é apenas um americano médio, comum”, “o Trump é um sanguinário”.  Onde está uma verdade aproximada disso? Não resta dúvidas de que Trump não tenha muitos escrúpulos morais, por exemplo, assediando, avançando sexualmente, indiscriminadamente,   trocando de mulher igual troca de roupa, toda vez que sua “velhinha” vai ficando “usada”, ele troca por uma ninfeta. Explora funcionários, sonega, gosta de humilhar empregados, fazer  chorar e tremer de raiva os participantes de seus “reality shows”.

Não resta dúvida de que tenha uma “mente poderosa”, ou seja, é muito esperto, tem carisma, tem espírito gregário (gosta de estar com gente), tem inteligência social e emocional. É um “americano comum médio”, branco, orgulhoso, cheio de vontade, autossuficiência  e energia para o trabalho, para a liberdade, para a comunidade, para os “seus”. O que causa estranhamento e mal-estar em sua personalidade é um certo paradoxo: “Uma mente poderosa num intelecto tão raso”. Trump tem a “zona média do encéfalo” superdesenvolvida, a área das atividades, das praxias, do trabalho, da ação, da hiperatividade, da “busca de novidades”, da “busca de domínio”, do cálculo operativo. Não é nem um “cerebral inferior”, um límbico, um emocional, impulsivo, agressivo, descontrolado e nem um “frontal superior”, ou seja, alguém que tem profundidade intelectual e espiritual.

O que causa uma certa “revolta” em muitos é ver uma pessoa tão dotada laboralmente (ou seja, “espertamente”) com uma mente tão “americana média”. Pessoas “desarmônicas” causam, nos normais, ao mesmo tempo, interesse, atração, e repulsão moral;  Hitler foi assim. Tinha um “intelecto operatório superior” (não quer dizer que fosse intelectual), mas uma emocionalidade inferior.

Trump tem uma “hiperenergia” do   hiperativo/hipertímico (“humor elevado”), inclusive com o gosto pelo  “sadismo”, provocações, sexualidade, domínio, desafios, “adrenalina” e busca de novidades de muitos hiperativos. Mas não tem o “leme cognitivo superior” que possa direcionar bem esta hiperatividade, tipo daquele da “busca de grandes rumos para a humanidade”.

O problema nisso é que o hemisfério norte (e também a América Latina) estão se cansando destes “lemes” do intelecto superior que têm dominado por anos suas políticas esquerdistas de humanismo, “direitos humanos”, “espírito global e globalizador”, “acolhedor”, “feminino”, “passivo”, “politicamente correto”, pacífico, interracial, magnânimo, etc. O mundo está chegando a conclusão de que todas estas bandeiras aí acima não passaram de estratégias esquerdistas para aumentar o Estado e dominar mais ainda o indivíduo. Esse “aumento do Estado”, “aumento do humanismo e da globalização”, não atinge muito a vida diária da “casta superior”, a “casta das ciências humanas”, porque esses são os profissionais empregados do Estado, estes são os empregados do “blá-blá-blá” jurídico, são os empregados da saúde, da educação, do aparato do Estado, da justiça, da assistência social, etc.

O que eu quero dizer é que  são os “empregados de macacão azul do andar de baixo” – aqueles que, em nome das bandeiras antialfandegárias e libertárias-migratórias – estão perdendo os empregos e migrando para a assistência social-saúde-educacional que o Estado-Mamute-Provedor promete lhes dar. Lá, como aqui, o Estado promete e não dá, aí eles ficam sem o emprego e sem o “paraíso sanitário-educacional-social” que o Estado-Mamute lhes prometeu. Essa “grande classe média baixa iletrada e de macacão azul” revoltam-se, então, tanto contra as “minorias humanistas” (“eles se aproveitam de nossos impostos”) quanto com os efetores do Estado (“eles sugam nossos impostos”) e contra os “estrangeiros” (os que “roubam nossos empregos lá na China e migram para cá, roubando-nos aqui mesmo”).

Trump não é só inteligente para captar este “espírito dos tempos” do hemisfério norte. Ele também é “esse tipo mesmo de americano”, aquele do “peru na Ação de Graças”, aquele que só pensa em sua comunidade de “homens, brancos, armados e rasamente moralistas”. Digo “rasamente” porque esta “moral só para os da casa”, “só para os meus”,  como se sabe, é bem rasa do ponto de vista de envergadura de espírito. O problema do mundo, e Trump também capta bem isso –  é que os que deveriam ser detentores de uma “moral de natureza espiritual mais larga”, nada mais são do que aqueles que Nietzsche denominou de “dionísicos” ou simplesmente de “perdedores”.

Esta “moral da esquerda”, com seu pretenso humanismo politicamente correto, não passa, hoje, de um gueto ocupado por, basicamente, quatro tipos de “espertalhões” igualmente nefastos: os “coitadinhos” que vivem de sugar o trabalho dos outros; os “intelectuais” detentores das benesses do Estado;  os políticos que dizem usar do Governo para o bem-estar “humanístico e politicamente correto” (esquerdista) do povo; e os grande empresários, p.ex., George Soros, que adoram o Grande Estado e a Grande Globalização, pois lucram absurdo em emprestar dinheiro para Governos gastadores/quebrados  e com o fluxo de capitais no mundo aberto e globalizado.

Trump coagulou a revolta  da classe média baixa contra esta esquerda pseudo-moralista (digo “pseudo-moralista” porque, inclusive, esta abolição “feminista/esquerdista” do “poder do falo individual” está causando enormes estragos na “autoridade máscula” daquele homem médio – o da “nuca vermelha” de trabalho no sol – dentro de casa). Então… Trump, um hiperativo  hipertímico e “curtidor”, “raso e caipirão americano”, sem muitos escrúpulos morais – que quase ninguém tem mesmo, de verdade – e  que “deu certo” nos negócios e na vida. Portanto, psiquiatricamente, nada mais normal do que isso tudo.

 

(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra. Artigos no Diário da Manhã, acesso gratuito em dm.com.br, as terças, sextas, domingos)


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