Uruana, primeiro polo de melancia do Estado de Goiás
Redação DM
Publicado em 17 de agosto de 2018 às 22:47 | Atualizado há 8 anos
Sim senhor! Melancia comercial, vez que, o seu cultivo de forma tradicional já existia, no entanto, consorciada com as lavouras de subsistência, no período chuvoso. O seu sabor é um pouco diferente da melancia comercial, pois, as sementes não são selecionadas, ou melhoradas pela genética. O plantio se fazia, ainda se faz, consorciado com as outras lavouras, de um modo geral, milho, arroz, tão pouco, são adubadas. De modo que, o abastecimento de melancia às cidades, centros maiores, era feito, importado, de estados como São Paulo, Minas. Os frutos das sementes de melancias plantadas de forma rústica em consórcio, esporadicamente, chegavam ao mercado citadino. Além da melancia, o tomate, ovos, e, mesmo outras verduras vinham de fora. Urgia, portanto, fazer algo para reduzir essas importações, mormente, a melancia e o tomate. A Acar-Goiás, serviço de extensão rural, começava a funcionar no estado, mas com poucos escritórios, em cerca de oito municípios. O seu princípio filosófico é o de ajudar a família rural a ajudar a si mesma, isto é, uma ajuda destituída de paternalismo, valendo-se de outro princípio, que é o fazer fazendo, ou seja, aprendendo a fazer participando, ativamente, da operação. O trabalho, constituído por uma equipe composta por um engenheiro agrônomo, ou: médico veterinário, zootecnista, engenheiro florestal, técnico agrícola, conforme a realidade municipal, complementado, por uma assistente social, é realizado na própria comunidade rural, com o produtor e sua família, pois, o objetivo é integrar essa família, na vida econômica do município, estado e país.
Ademais, a equipe, uma vez constituída, passa a formar uma ponte de dupla mão, entre a comunidade urbana e a comunidade rural, onde, esses agentes de extensão, levam orientação técnica, econômica e social, e, no debate com a comunidade, constituída pelo conjunto das famílias, procura conhecer os problemas, dificuldades dos produtores, procurando solucioná-los, ou encaminhá-los à solução, assistindo os que são passíveis de serem resolvidos, enquanto aqueles difíceis, enigmáticos, são encaminhados pela equipe, afim de serem debatidos com a sociedade: pesquisas, crédito, infraestrutura, aspecto social. Como dito, havia poucos escritórios municipais, a meta, era assistir todo o estado. Um engenheiro agrônomo, Arsênio da Silveira, foi indicado para abrir o escritório local de Uruana. Era ele recém formado, inclusive, recebeu bolsa de estudo da Acar, pois, era filho de família pobre. Ao proceder os estudos da realidade rural de Uruana, relatou as culturas tradicionais, como arroz, feijão e milho, suscetíveis de aumento de produtividade, com a assistência técnica da extensão, bem como, a possibilidade de culturas inovadoras e irrigadas, baseadas na riqueza da região em agua. Sugeria o estudo, da realidade rural, entre outras, a introdução das culturas da soja, tomate, além do milho e feijão irrigados.
Em pequena reunião, com autoridades municipais, entre as quais, prefeito e presidente da câmara de vereadores, foi escolhida, eleita, pela dissertação que fizemos, enfatizando a importação, de quase toda ela, de fora do estado, o cultivo de melancia. Havia, conforme expusemos, a economia de divisas para o estado, ademais, mercado seguro, pois Uruana era pioneira. Afim de assegurar sucesso ao projeto, o município, nele, o produtor inovador, tinha a orientação segura do engenheiro agrônomo Arcênio Silveira, Hurra! Havia feito, logo após a formatura, na própria universidade, nas Minas Gerais, curso de especialização em melancia. Além do mais, já constituía propósito da Acar-Goiás, a implantação de um polo de melancia no estado. Quase toda melancia consumida no estado, como dito, vinha de fora, principalmente São Paulo. O cultivo de tomate, em escala comercial, já estava sendo feito, no município de Anápolis e seu vizinho, Goianápolis. Ali, além da equipe local, começava a trabalhar, recém contratado pela extensão, o agrônomo, com máster em tomaticultura, Fernando Filgueira.
Então, no imediato, e por unanimidade, a cultura da melancia foi eleita, recebendo, também, destaque, as culturas de melão, milho e feijão, irrigados, este, na esteira da melancia. De forma que, no mesmo ano, ano de 1968, foi iniciado, com orientação técnica daquele saudoso agrônomo, o plantio de melancia irrigada, em Uruana.
A primeira área plantada foi pequena, demonstrativa, fonte de prova, apenas, 1 hectare, tendo como pioneiro o Sr. Álvaro Moreira Dominguel, propriedade pedreira de Santo Antônio. O prefeito, de então, era o senhor José Mariano Costa, acompanhou, desde a primeira reunião, os trabalhos, fazendo de Uruana, primeiro polo melancieira goiano. O segundo produtor, foi o senhor Maceió Ferreira Pires, a área plantada foi de 3 hectares; o terceiro, foi o senhor Valdivino Alves Pereira, salvo juízo mais acurado, a área plantada foi de 7 hectares, todos eles, foram bem-sucedidos, tanto no plantio, como na comercialização da produção, com orientação segura da Acar-Goiás. De sorte que, a cultura inovadora, esparramou, propagou, vertiginosamente pelo município e outros circunvizinhos. O acontecimento foi tal que, ensejou a criação de polos melancieiras por quase todo o estado. O município, inspirado na expansão, êxito da cultura, instituiu, em 1978, a festa da melancia, creio que no próximo mês de setembro, comemorará, com festejos inusitados, 40 anos. A Festa tornou-se atração turística e tradição anual, atraindo multidões de regiões distantes. De Uruana irradiou por todo Goiás e Tocantins, constituindo miríade de polos melancieiras.
Da mesma forma que era importada de vários estados alhures, passou a ser exportada para as regiões mais distantes do país e mesmo países vizinhos, graças ao seu sabor inusitado. Do mesmo modo, que sangrava divisas na importação, passou a canalizar, internalizar, divisas de outros estados e países vizinhos, com a exportação. A contribuição da então Acar-Goias foi singular para o crescimento econômico do município e estado, mais ainda, a dos produtores que vieram de várias regiões realizar o cultivo de melancia e, mesmo, outras culturas, na sua esteira, bem como, as autoridades em incentivá-la. O saudoso Arcênio da Silveira, oriundo de família pobre financeiramente, provou-se rico, em realizações. O seu entusiasmo de extensionista, contagiava, como tantos outros, deixaram saudades: José Benjamim, Valdez Vasconcelos, Afonso Barros, Afonso Antunes, Plínio, Ely Rocha, Lázaro Lara, Vicente Albuquerque, primeiro diretor da Acar, José Bento, Lourival Nunes, Cassimiro, Fernando Filgueira, Irenil, a família rural, entusiasmava as lideranças municipais.
A sua ação impregnada de fé viva no trabalho corajoso, honesto, fundamentou, por mérito, a sua promoção a supervisor regional do São Patrício, sendo substituído por outro engenheiro agrônomo, Clemente Barros Neto, que continuou, com o mesmo ardor, disposição o trabalho de extensionista, em Uruana, consoante aos princípios filosófico e técnico enunciados acima, de ajudar a comunidade rural a ajudar a si mesma, através do fazer fazendo, construindo, com a participação dos próprios produtores, o progresso e bem-estar municipal. Arcênio, como acontece, com todo mortal, se foi, todavia, sua obra laboriosa ficou arraigada ao espírito realizador de toda a gente de Uruana. A sua realização altaneira constitui exemplo que si liga, une, a oração fúnebre, milenar, de Péricles, estratego Grego, da grande geração que viveu Atenas, nos meados do século IV, a.C, aos mortos da guerra do Peloponeso, de que: “Vergonha não é ser pobre, mas sim, não lutar para sair da pobreza”. A sua altivez, numa era difícil, até para os bem dotados estudar, ele, teimosa e corajosamente, venceu todos os obstáculos, galgando os píncaros do saber universitário: o conhecimento, a sabedoria, logo que, possuidor, coroado dela, ato continuo, lançou-se ao trabalho honrado de extensionista, retribuindo, em laboriosa faina, à comunidade rural, de onde emergiu, com disposição sem igual, o aprendizado acumulado, adquirido, logrado, disponibilizado, pela escola, detentora de conhecimento tecnológico. A melancia plantada consorciada com as culturas tradicionais não era adubada, ao passo que, a lavoura de mercado obedecia aos rituais tecnológicos alcançando sabor excelente, cobiçando o mercado consumidor. Todavia, cabe, na atual conjuntura, uma ressalva, qual seja, o surgimento da melancia de miolo duro, possibilitada pela genética, afim de suportar grandes distâncias, mais durabilidade, no entanto, perde ela qualidade, pois é ele, miolo, polpa, sem sombra de dúvida, macia, a parte mais deliciosa da fruta.
Assim, em nosso estado, tivesse a Emgopa, em funcionamento, como fez no cultivar da soja, adequando-a, geneticamente, para nossa região, os trópicos, tornando-a, tão produtiva quanto a do Sul, clima temperado, já teria feito, também, a separação do joio do trigo, selecionando, de igual forma, pela genética, variedades para os consumidores locais, assegurando doçura divinal, no entanto, num gesto obtuso, a Emgopa, foi extinta por políticos profissionais, pouco pensantes. De forma que, não é justo, na era da consumocracia, onde o consumidor tornou-se rei, ir ele, às compras no supermercado, hoje, leva para casa melancia de miolo excelente, macio, num outro dia, amanhã, compra a de miolo duro, bem inferior, afetando, bem assim, a vontade de consumir mais e mais melancia, pois é, sem dúvida, o miolo, a parte mais cobiçada, gostosa do precioso fruto, cucurbitáceo. A área plantada, em melancia em Uruana, foi no auge, maior, no entanto, é hoje, de 3 mil hectares, com produtividade média de 50 toneladas hectare, logrando, atualmente, uma produção, anual, de 150 mil toneladas.
O estado, graças ao clima, excelente, mormente na estação seca, tecnologia, agua abundante, universalizou a produção de melancia. Assim como, seu cultivo, para produzir frutos deliciosos precisa de orientação técnica segura, abalizada, tratos culturais aprimorados, esmero na arte de comercializar, a república, também, para produzir frutos, consubstanciado, ao bem estar da sociedade, carece, como na cultura da melancia, de atenção especial, esmero, participação ativa, da comunidade, nos negócios públicos, bem controlando, os que são contratados pelo voto, para governar, com maestria, o município, estado e país.
(Josias Luiz Guimarães, veterinário pela UFMG, pós-graduado em filosofia política pela PUC-GO, produtor rural)