Política

A vitória de Caiado e o novo MDB

Redação DM

Publicado em 9 de outubro de 2018 às 03:22 | Atualizado há 1 ano

A vitória de Ronaldo Caiado se deve em grande parte ao próprio Ronaldo Caiado. É ele um político que vem há anos atuando com firmeza e personalida­de na política de Goiás. Conheceu a derrota eleitoral para governador em 1994, para Maguito Vilella. Amar­gou uma derrota interna dentro do DEM, que ele há anos preside, quan­do o partido indicou José Eliton para vice de Marconi, em 2010. Naquela ocasião, Caiado ficou absolutamen­te só, e fez sozinho a sua campanha.

Apesar de ter sido um dos pila­res da vitória de Marconi em 1998, quando voltou ao Congresso como um dos deputados mais votados, Caiado logo romperia com o assim chamado “Tempo Novo”. Um rom­pimento solitário, pois seu partido continuou na base governista.

Mas a vitória de Caiado se deve, também, em grande parte ao MDB goiano. Oficialmente, a sigla dispu­tou com candidato próprio, o depu­tadoDanielVilela, atualpresidente da legenda, e filho daquele mesmo Ma­guito que derrotou Caiado em 1994.

O apoio irrestrito e militante de vastas áreas do MDB foram funda­mentais para a vitória caiadista. Não se pode avaliar em número de votos o que este apoio representou. Ele foi uma estupenda anormalidade que irrompeu pelas falhas do siste­ma partidário goianiense. Todavia, esse apoio deu a Caiado condições políticas para operar. Mais até do que isso: o MDB dissidente foi a es­pinha dorsal da campanha de Caia­do, haja vista que todos os membros da sua coordenação política, o esta­do maior da campanha, está consti­tuído apenas de emedebistas.

Caiado escolheu para coordenar sua campanha o prefeito emedebis­ta de Catalão, Adib Elias. E com Adib vieram Nailton de Oliveira, ex-pre­feito de Bom Jardim, ex-presiden­te regional do PMDB e homem de confiança de Iris Rezende; veio ain­da Emival Oliveira, três vezes pre­sidente do PMDB metropolitano, estrategista de inúmeras campa­nhas municipais vitoriosas em todo o Estado; Juarez Magalhães Júnior, ex-prefeito de Cristianópolis e ve­terano dirigente partidário; com­pletando o time, Samuel Belchior, ex-deputado estadual, ex-presiden­te da legenda.

O MDB não ofereceu apenas quadros altamente qualificados para operacionalizar a campanha de Caiado. Ofereceu ainda estrutu­ra partidária em importantes cida­des, a tal “capilaridade” de que fa­lam os politólogos. Além de Adib Elias, os prefeitos emedebistas Pau­lo do Vale, de Rio Verde, Renato de Castro, de Goianésia; Ernesto Roller, de Formosa; e Fausto Mariano, de Turvânia, marcharam com Caiado desde o primeiro toque de reunir. Fi­caram fora os prefeitos de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha, e Iris Rezende Machado, de Goiânia.

A situação de Iris é curiosa. Du­rante toda a campanha, corria nos bastidores que Caiado era o can­didato dele. É por demais conhe­cida a velha animosidade entre iristas e maguitistas. Iris, durante muito tempo, trabalhou no senti­do de buscar a união dos dois can­didatos oposicionistas. Mas nem Caiado nem Daniel jamais quise­ram esta união. Daniel argumenta que, sendo o MDB o maior parti­do, deveria ter a primazia de lide­rar a oposição. E dizia também que Caiado, tendo sido eleito se­nador com o apoio de Iris e dos peemedebistas, tinha, por dever de gratidão, que apoiar Daniel. Já Caiado argumentava que, sendo líder nas pesquisas internas, tinha todo o direito de ser o candidato.

Iris, por fim, declarou apoio a Da­niel, quando ficou claro que a dissi­dência não teria meios de vencer a convenção partidária, visto Daniel, graças ao hábil manejo do fundo partidário, ter obtido total contro­le sobre a burocracia emedebista. Mas o apoio de Iris nunca foi mili­tante. Iris limitou-se a declarar pu­blicamente, e de muita má vontade, o seu apoio a Daniel. Jamais moveu uma palha para fortalecer a candi­datura do jovem deputado federal.

Sabe-se que uma das razões do apoio de Iris a Daniel foi a transfe­rência das bases do jovem deputa­do para Dona Iris, que tentaria mais uma vez uma vaga no Congresso. O MDB de Aparecida de Goiânia, ma­guitista, entrou espalhafatosamente na campanha de Dona Iris.

ARMADILHA PARA CAIADO

Houve quem, no PMDB, propu­sesse a Ronaldo Caiado que se filias­se ao PMDB – hoje MDB – como condição de obter o apoio oficial do partido para a sua pretensão. Mas, como diz Emival Oliveira, os pró­prios apoiadores de Caiado dentro do PMDB o aconselharam a não dar este passo temerário. “Seria uma ar­madilha”, afirma Emival.

Ele conta que Caiado certamen­te seria derrotado em uma conven­ção manipulada por Daniel e os maguitistas, e acabaria ficando fora da disputa, à míngua de uma si­gla pela qual pudesse registrar sua candidatura. Os dissidentes ava­liaram que seria perda de tempo buscar composição com Daniel, ou tentar derrotá-lo na convenção.

Os dissidentes então partiram para um engajamento radical na campanha de Caiado, deixando o MDB para Daniel fazer dele o que quisesse. O líder do MDB na As­sembleia Legislativa, o deputado estadual José Nelto, foi mais longe. Desfiliou-se do MDB e ingressou no Podemos, pelo qual lançou­-se candidato a deputado federal.

José Nelto foi um dos mais exal­tados defensores da candidatura de Caiado. Comprou uma briga federal com Daniel e Maguito. Acusou Ma­guito de não ser confiável, de ser, dentro do MDB, uma espécie de agente do marconismo infiltrado nas hostes oposicionistas. “Maguito nunca saiu do Palácio das Esmeral­das”, acusava. O pai de Daniel exce­deu-se tanto na tentativa de chegar a um acordo com o marconismo que, em mais de um oportunidade, se­ria desautorizado pelo próprio filho.

RECONQUISTA DO PMDB

Passada a disputa eleitoral, os dissidentes agora se colocaram a tarefa de desbancar o maguitis­mo e retomar o MDB. O próprio José Nelto confidenciou a este jor­nal, recentemente, que seu proje­to pessoal era voltar ao MDB.

Para Emival, não há mais con­dições políticas de Daniel reter a direção da sigla. Derrotado e sem mandato, os maguitistas, pai e fi­lho, terão que se ajustar às novas cir­cunstâncias – pois em política man­da quem tem mandato – ou migrar para outra sigla. Há indícios de que poderão se compor com o marco­nismo derrotado, e formar nas filei­ras da oposição ao governo Caiado.

COMPORTAMENTO

Emival acha que o futuro de Da­niel no MDB vai depender do com­portamento dele. Os dissidentes não pretendem hostilizar os maguitistas, nem atraí-los para o novo sistema de poder. Mas acreditam que Daniel, que eles consideram rancoroso e agressivo, poderá tentar expulsar to­dos os dissidentes. É claro que não se expulsa ninguém de um partido assim da noite para o dia, por mais que se recorra a expedientes ilegais, antirregimentais. Caso Daniel tente promover expurgos na sigla, como receia Emival, a luta será feroz.

Na visão de Emival, o que fal­tou a Daniel foi maturidade, e a Maguito lucidez. “Eles apostaram tudo no mito do candidato jovem, como se o fenômeno de 1998 pu­desse se repetir por força de tru­ques de marketagem”. Os Vilela não souberam ler corretamen­te a realidade política e persegui­ram uma fantasia.

Daniel está longe de ser um êmulo de Marconi Perillo. O “can­didato jovem” de 1998 era um moço que já estava há mais de 20 anos na política, que foi talhado e retemperado nas lutas contra a ditadura. Fez-se por si mesmo, na política. Daniel, ao contrário, nunca teria chegado onde che­gou se não fosse pelo prestígio e força do pai. Maguito tentou fazer dele um craque da pelota, mas ele nunca foi bom de bola. O pai, um prefeito muito bem avaliado de Aparecida de Goiânia, fez do filho um vereador, um deputado esta­dual e por fim deputado federal.

Daniel nunca foi capaz de apre­sentar um programa consistente. Aliás, ele nunca teve um progra­ma, limitando-se a fazer propostas pontuais, algumas até meio bizar­ras. De resto, o ataque descabido ao governo do Estado e a Zé Eliton foi o seu cavalo de batalha.

O PAPEL DE IRIS NO NOVO MDB

Iris Rezende sai desta campa­nha com o seu prestígio abalado. A dissidência puxada por Adib e José Nelto não teve a aprovação do veterano líder. Se não chegou a reprová-la publicamente, tam­bém nunca a encorajou. A dissi­dência se deu à revelia do prefei­to de Goiânia e, com o triunfo de Caiado, ela passa a ser o dado con­creto que todos terão que contar.

Claro que, retendo a Prefeitu­ra de Goiânia, Iris ainda tem força dentro do partido. Não é carta fora do baralho, como talvez já o sejam os Vilela. Mas o tempo corre contra ele. Quando terminar o seu manda­to, Iris terá 86 anos de idade. Apesar da boa saúde – pois sempre cuidou muito bem dela – é possível que o peso dos anos seja um impediti­vo para novas empreitada políticas.

Na avaliação dos dissidentes, Iris provavelmente não disputa­rá mais eleições. Mas, em se tra­tando de Iris, nunca se sabe. Po­lítica é a razão de sua vida, e ele é daqueles que, enquanto vida tiver, estará disputando um mandato.

Mas, supondo que a avaliação dos dissidentes venha se confir­mar, quem o MDB lançaria para prefeito de Goiânia? Daniel Vile­la? Sim. Por que não? Mas isso, se­gundo os dissidentes, vai depen­der de como ele se comportar. E vai depender da votação dele em Goiânia e em Aparecida.

Seja como for, ele é jovem e tem um futuro pela frente. Em política, o derrotado de hoje pode ser o vitorio­so de amanhã. Vide Ronaldo Caiado. Mas será preciso apender as lições da derrota. Fracassos eleitorais são altamente pedagógicos para quem tenha disposição de aprender.

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