Brasil

Resposta às críticas de meu último artigo sobre a pedofilia do coronel PM

Redação DM

Publicado em 23 de setembro de 2016 às 02:20 | Atualizado há 10 anos

Nesta última terça, dia 20/9/16, publiquei aqui no Diário da Manhã , dm.com.br, artigo sobre o caso do coronel PM preso por pedofilia no RJ.  Recebi várias críticas, as quais me apresso em responder.

Crítica 1: Você cita no artigo que as mães, babás, tias, amigas, etc, estavam levando as crianças para o coronel por causa da permissividade sexual excessiva da sociedade brasileira. Não seria mais um problema psicológico dessas mulheres do que um problema sociológico do brasileiro ?

Resposta 1: Desde E. Durkheim a sociologia vem mostrando que um comportamento coletivo (p.ex., “hipersexualização”), na grande maioria das vezes, não é o puro somatório das mentes individuais. A sociologia não é psicologia.

Pelo contrário, os sociólogos, também na esteira de Durkheim, tais como Maurice Blondel, Charles Blondel, M. Mauss, Levy-Bruhl, Bastide, etc, mostram que a sociologia influi sobre a psicologia. O aumento de suicidios, condicionado sociologicamente (viide p.ex., O Suicidio de E. Durkheim, Ed. Martins Fontes), é mostra de que o coletivoo influencia o psicológico, e mesmo o biológico.

Quanto à informação de que essas mães/mulheres que ofertam crianças a pedófilos teriam alguma psicopatologia, além do problema socio-psicológico inerente ao Brasil, sim eu concordo. Acho que são pessoas com algum problema psiquiátrico sim, personalidade  antissocial, borderline, bipolar, etc, isso tudo num caldo de cultura muito permissivo. No entanto, penso eu, isso é uma hipotese, pois não examinei essas mulheres, é também provavel de que algumas não sejam doentes, sejam apenas hiper-permissivas mesmo, como o é a sociedade brasileira.

Crítica 2: Você foi muito reducionista no seu artigo. Como se a pedofilia dependesse apenas de problemas cerebrais…

Resposta 2: Igualmente, é evidente que “biologia não é destino”, sobretudo em psiquiatria. Milhares de pessoas, motivadas pelo caráter, pelo amor, inibem seus instintos, alguns deles altamente patológicos (ou seja, autodestrutivos ou hetero-destrutivos para as pessoas que amam).

Portanto, no artigo, não faço apologia determinista/reducionista de nenhum fator, seja biológico, psicológico, sociológico. Apenas  tento apontar (na exiguidade de espaço que me é  permitido) as complexas interações num problema de profundidade abissal.

Crítica 3: Você diz que muitos religiosos católicos, com tendências pedófilas, se infantilizam numa certa “dependência da figura de Maria”. Mas há muitos pastores pedófilos também…

Resposta 3: Há religiosidade (busca de “Ordem”) com ou sem Maria. Citei apenas um aspecto do problema, não Todo o problema. Citei no artigo a psicopatologia de pessoas que buscam a religião (não só a católica) para tentarem ficar livres de seus instintos,  buscam uma “Ordem” para sentirem-se protegidos e guiados sob  seu manto.

Crítica 4: Marcelo, sou neurologista, e pelo que eu saiba não há área cerebral identificável com a pedofilia…

Resposta 4 : Caro amigo, discordo de sua opinião  de que “não há áreas identificáveis”. Pelo contrário, há um enorme acervo de dados, basta procurar até na internet mesmo, vide MedScape, relacionando pedofilia e outras parafilias com alterações cerebrais. Não é por você “não acreditar nisso” que isso não seja verdade…  Aqui mesmo vai um link extenso sobre alterações cerebrais  na pedofilia . http://www.dw.com/…/scientists-find-brain…/a-16305968

Meus próprios estudos, p.ex., ressonância magnética em transexuais, tem mostrado consistentes alterações mesodienccefálicas. Isso para citar uma gota dágua num oceano de outras publicações , bem mais fidedignas, controladas, maior “n”, do que os meus…

Crítica 5: Com base em quê você diz que a sociedade brasileira é hipersexualizada ?

Resposta 5: A hipersexualização da sociedade brasileira é algo constatável desde Darwin, Saint-Hilaire, etc, ou seja, praticamente todos os cientistas europeus que aqui aportaram…

Crítica 6: Sou contra a transformação de problemas morais, legais, criminais, jurídicos, em simples problemas médicos, problemas psiquiátricos. Na maioria das vezes isso não passa de subterfúgio para psiquiatras tirarem criminosos das cadeias, dizendo que vão interná-los e tratá-los em clínicas e depois soltá-los na sociedade de novo…  Você está simplesmente confundindo problemas judiciais com problemas médicos, e, dessa forma, puxando a sardinha para o seu lado.

Resposta à crítica 6:

1- Toda constatação de que problemas psiquiátricos geram problemas morais desperta indignação. Inconscientemente ou mesmo conscientemente, pois muitos pensam: “Estão querendo tirar o cara da cadeia.” Não sou desses psiquiatras, nunca tirei ninguém da cadeia (pelo menos voluntariamente), pelo contrário. Minhas manifestações são sempre a de que o sistema psiquiátrico – forense no Brasil é extremamente leniente, por exemplo, solta gente que coloca em risco a população.

2- No entanto, não é por eu ser contra a liberalidade  jurídica que se utiliza da psiquiatria que eu também vou dar uma de “politicamente correto” e simplesmente  negar que problemas psiquiátricos podem produzir “problemas de caráter”.

3- Muitos, mas muitos pacientes psiquiátricos, com problemas instintivos, inclusive sexuais, não atuam seus comportamentos. E não fazem isso por causa de seu caráter, de sua força moral, sua formação cívica, familiar, religiosa. Eu mesmo me incluo nisso, pois , como bipolar, julgo que tenho uma sexualidade exacerbada, que inclusive já se manifestou na forma de intensa adição pornográfica, até satirismo, que me deu um enorme trabalho moral para vencer ( e ainda d).

4- Assim são muitíssimos bipolares, atingidos por ninfomania, satirismo, poligamia serial ou paralela, etc, no qual eu mesmo me incluo, como disse acima. O problema é que, como eu também disse acima, a biologia não é destino, e eu não atuo minha biologia, graças , sobretudo à minha formação religiosa.

5- O problema desta questão, a relação moral/biologia, para variar, por falta de adequada informação psiquiátrica, é extremamente mal-conduzida no Brasil. Por ex., tenho visto que muitos profissionais tem pego meus laudos, de doença mental,  com a pretensa finalidade de  só soltar o cliente das garras da prisão ,  mesmo com crimes graves. Sou contra isso, pois, para mim, a grande parte deveria estar em hospitais psiquiatricos judiciais altamente especializados, e não soltos. Mas, pelo que percebo, no próprio sistema judiciário brasileiro, ,muitos, dizem: “Tem laudo psiquiátrico no meio? então solta logo, é doente e tal…”

6- Grande parte desses casos, ao meu ver, se não tem hospitais psiquiatricos judiciais para eles, que então fiquem reclusos mesmo. O que não pode é a sociedade pagar pelo risco de te-los à larga.

7- Não é pelo indivíduo ter uma disfunção psicobiologica que vamos dizer; “coitadinho”, e vamos passar a mãozinha na cabeça dele. Não é isso. Em primeiro lugar, muitos doentes, assim como eu, tem impulsos, instintos, e não os atuam. Em segundo lugar, eles tem de ficar reclusos, muitos deles, de preferencia em instituições médicas adequadas, mas se não tiver isso, que fiquem na prisão mesmo, sob assistencia psiquiátrica adequada (o que não é difícil, basta escalar um psiquiatra forense para lá).

8- Muitos querem que tais indivíduos pervertidos não sejam doentes, pois assim se pode puni-los melhor, assim podemos ter mais ódio deles, podemos vingar deles com mais sadismo. Eu também me incluo nisso,  como bom ser humano, tenho um carater violento, gostaria até de poder “matar muito bandido”, “bandido bom é bandido morto”, etc, etc. No entanto, anos e anos de prática psiquiátrica me ensinaram que a doença, pode sim, alterar o caráter. A doença pode, sim, gerar o “mal”. Então, de “carrasco” eu passei a ser um “tratador”, um terapeuta, desse pessoal. Ainda tenho raiva, mas a racionalidade me obriga a ver no mal, acima de tudo, uma doença.

 

(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra, escreve as terças, sextas, domingos no Diário da Manhã – dm.com.br. – [email protected])

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