Dinheiro protegido na crise
Redação DM
Publicado em 22 de setembro de 2016 às 02:10 | Atualizado há 10 anos- Economia brasileira ainda deve provocar mais desdobramentos negativos no bolso da população
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgada em agosto de 2016, mostra que a alta do endividamento das famílias chegou a 0,3 ponto percentual em relação a julho, quando o índice era de 57,7%. Em agosto de 2015, quando o endividamento atingia 62,7% das famílias, o índice chegou a cair 4,7 pontos percentuais. Em meio a fase pela qual o País passa, o DM procurou especialistas para entender melhor como as famílias podem amenizar os efeitos da crise em suas finanças e tentar sobressair às dívidas.
Johelma Umbelino, coordenadora do curso de Ciências Contábeis da Faculdade Estácio, por exemplo, explica que quando se trata de dinheiro, o assunto deve ser discutido por todos os membros da família. “O caso não é somente investir. É preciso conhecer o orçamento familiar e as metas financeiras. Uma forma simples e fácil de poupar é rever alguns hábitos corriqueiros que acarretam grande dispêndio. O plano mensal da TV por assinatura e telefone, por exemplo, são realmente necessários? Além disso, mude alguns hábitos diários, troque o “lanchinho” da padaria pelo misto quente feito em casa. A mensalidade da academia por atividades ao ar livre. Isso poupa gastos”, ressalta.
INVESTIMENTO
Ela diz que não há investimento sem risco. Poupar e investir são duas atitudes relacionadas. “Sem poupança, é muito difícil acumular recursos para realizar investimentos. Por outro lado, um investimento inadequado ao perfil do investidor pode resultar em prejuízos e, assim, comprometer os recursos poupados. Antes de efetuar sua aplicação, é importante que você conheça muito bem as características do investimento, verificando se o mesmo atende ao nível de risco, retorno e tempo de aplicação definidos em seu planejamento”, esclarece.
Além disso, ela orienta identificar também quais os tributos (impostos, contribuições etc.) e outros encargos que serão cobrados, pois todos estes fatores influirão nos ganhos (rentabilidade). “Não esqueça de verificar também a solidez da instituição ou do administrador do investimento, e, principalmente, verificar o registro dos mesmos na CVM (consulte http://www.cvm.gov.br/, em: Participantes do Mercado)”, ressalta.
E na hora de optar por um investimento, Johelma lembra que é preciso ter sempre em mente que, em regra, quanto maior a rentabilidade prometida, maior o risco de perder a quantia aplicada. “Então, antes de escolher, compare a rentabilidade prometida com a média do mercado e desconfie de promessas boas demais, pois não existe milagre no mercado de capitais. Além disso, quem escolhe correr riscos deve fazê-lo de forma consciente e estar preparado para que eventuais perdas não provoquem grandes danos. Por isso, evite aplicar a parte essencial do seu patrimônio em investimentos de alto risco”, avalia.
Quando investir é a melhor estratégia
Quando se trata de finanças pessoais, tanto o resultado financeiro quanto a segurança financeira se fazem com o comportamento que o indivíduo tem em relação ao seu dinheiro. É isso o que explica o planejador financeiro pessoal Maurício Vono. “Não é a primeira vez que vivemos uma crise. Mas para aqueles que passam pela primeira crise econômica do País, saibam que essa não será a última”, afirma.
Ele diz que é possível resguardar as economias durante o período de crise. Isso depende de como a pessoa foi atingida por ela. No caso do desemprego, por exemplo, Maurício lembra que serão necessários esforços para buscar alternativas de recolocação. Inclusive, ele diz que essa é uma boa oportunidade para aprender um novo caminho, um novo talento. Muitas pessoas bem-sucedidas começaram a vida assim. “Sou um exemplo. Ingressei no mercado financeiro há 7 anos. Só entrei porque trabalhava no mercado imobiliário que havia sido impactado com a crise de 2008/2009. E como estava difícil continuar ganhando dinheiro na área imobiliária, resolvi aceitar um convite para trabalhar com venda de Fundos de Previdência Privada em um grande banco. Costumo dizer: nunca desperdice uma boa crise, seja ela financeira, pessoal, carreira ou de qualquer tipo”, avalia Maurício.
O planejador financeiro diz que o melhor investimento sempre será o conhecimento, sobretudo para aqueles que estão impactados com a crise. “Para quem nunca investiu, o melhor é simplesmente começar a investir. Imagine que os juros são um fermento e o dinheiro é a massa do bolo. Qual é mais importante? É fazer um bolo na falta de fermento, mas apenas com o fermento não se faz bolo nenhum! Contudo, para iniciantes ou não iniciantes, costumo indicar Títulos Públicos. São acessíveis, você pode começar com menos de R$100,00, pagam um bom rendimento e é o que tem de mais seguro”, esclarece.
Maurício diz que para aqueles que não querem fazer o investimento sem orientação é possível procurar uma corretora. “Para quem não tem, o caminho é acessar o site: http://www.tesouro.fazenda.gov.br/tesouro-direto. No site do Tesouro Nacional, você obtém todas as informações necessárias, desde qual corretora escolher até qual o título você deve comprar. Existe uma variedade de títulos e cada título atende uma necessidade diferente, exemplos: para se proteger em longo prazo da inflação você pode comprar o Tesouro (IPCA+), se é para uma reserva de emergência e você pode precisar do dinheiro a qualquer momento o recomendado é o Tesouro (Selic)”, esclarece.
EDUCAÇÃO
Um problema que poderia ser solucionado ainda no período escolar é a falta de educação financeira no País. Para Maurício, o brasileiro não tem o hábito de investir. “Isso deveria ser ensinado na escola, desde controlar o dinheiro até empreender e investir”, explica.
O especialista avalia que às vezes as pessoas têm a falsa impressão de segurança. Ele cita como exemplo a poupança, que é conhecida pela segurança e também o investimento mais popular do Brasil. “Em 2015 a rentabilidade não superou a inflação. É como se você resgatasse menos do que aplicou, após um ano com o dinheiro aplicado”, diz.
Auxílio extra
Maurício ressalta que talvez contratar um profissional pode ser a melhor forma de se obter planejamento. Em regra, muitas pessoas já pagam um preço elevado por não ter planejamento, seja pagando juros, perdendo boas oportunidades de investimento, desperdiçando dinheiro ou com o próprio descontrole do orçamento. “Além disso, o conceito de caro ou em conta é muito relativo quando estamos falando da contratação de um profissional, depende do orçamento de cada um”, explica.
Ele explica que o serviço de um planejador financeiro é indicado para todos os casos, do endividado ao investidor. Principalmente aquele que aparentemente tem uma boa saúde financeira, porém não consegue formar patrimônio suficiente para seu futuro e terceira idade. “A pessoa deve avaliar se o profissional é remunerado exclusivamente pelo cliente, ou se por trás da “consultoria financeira” é vendido algum produto financeiro, como seguro, consórcio, investimentos entre outros. O profissional pode ajudar o cliente a comprar produtos para compor seu planejamento, mas ele não deve vender nada ao cliente”, ressalta.
Em meio a esse cenário de crise, estudantes do curso de Ciências Contábeis da Faculdade Estácio iniciaram atendimentos do Núcleo de Apoio Contábil Fiscal (NAF) de forma gratuita. O projeto acontece com o apoio da Receita Federal (RFB) e busca dar suporte contábil e fiscal às pessoas físicas de baixa renda e às micro e pequenas empresas.
Os serviços prestados são realizados na unidade do Setor Norte Ferroviário, nas segundas, quartas e sextas-feiras, das 8h às 12h e das 18h às 22h. O atendimento inclui orientações de Agendamento de Serviços na Receita Federal do Brasil; Constituição de Microempreendedor Individual (MEI); Declaração Anual do MEI; Declaração Anual de Ajuste de Imposto de Renda da Pessoa Física; Pesquisa de Situação Fiscal; Parcelamento Simplificado Receita Federal; Parcelamento Simplificado Procuradoria Geral da Fazenda Nacional; e muitos outros.
Para atender a população, os alunos passaram por um treinamento teórico e prático disponibilizado pela RFB. Durante a prestação de serviços, os estudantes são orientados pela professora e coordenadora do curso de Ciências Contábeis da Estácio, Johelma Umbelino, com o apoio da Receita Federal.
Johelma explica que a ideia do NAF é criar núcleos universitários de prática contábil, com o objetivo de promover o estudo e a consciência fiscal entre os estudantes da área, além de ser um trabalho de responsabilidade social, voltado para orientar contribuintes de baixa renda. “A proposta é abrangente e envolve estudantes, professores e profissionais da administração tributária”, comenta.
Investimentos que você pode realizar
Ações: O investimento em ações pode ser individual ou coletivo. Ao optar por investir individualmente, o interessado contrata os serviços de uma corretora que intermediará as negociações através das ordens do cliente ou permitindo que ele realize as operações diretamente pela internet. Já no investimento coletivo, os interessados adquirem cotas de clubes de investimento ou de fundos de ações.
Fundo de Investimento: é uma comunhão de recursos, captados de pessoas físicas ou jurídicas, com o objetivo de obter ganhos financeiros a partir da aplicação em títulos e valores mobiliários. Isto é: os recursos de todos os investidores de um fundo de investimento são usados para comprar bens (títulos) que são de todos os investidores, na proporção de seus investimentos.
Poupança: considerado mais tradicional e seguro. É o mais indicado para o investidor conservador, que não está disposto a correr riscos. Quase todos os bancos comerciais oferecem essa modalidade de investimento e não é preciso ser correntista para investir. Basta comparecer a uma agência bancária portando os seguintes documentos e suas respectivas cópias: CPF, documento de identidade e comprovante de residência.
Precauções necessárias
Verificar se há registro na CVM (consulte http://www.cvm.gov.br/, em “Participantes do Mercado”); ler atentamente o regulamento e/ou o prospecto; informar-se sobre os custos incidentes; conhecer a estratégia do administrador e os riscos assumidos; e pesquisar a reputação das instituições envolvidas, entre outras precauções. Assim, a título de orientação, podemos dizer que investimentos como Poupança, Títulos Públicos e Fundos de Curto Prazo são mais compatíveis com investidores de perfil conservador. No outro extremo, os Fundos Multimercado são exemplos de investimento mais compatíveis com investidores de perfil arrojado, uma vez que há muita liberdade na composição de suas carteiras e mais exposição ao risco em busca de maior rentabilidade.
No entanto, alguns investimentos, tais como Fundos Cambiais, Fundos de Renda Fixa, Ações e Debêntures, poderão ser considerados moderados ou arrojados dependendo, entre outros fatores, da política de investimento constante do Regulamento e do risco do emissor do título. O mais importante é, antes de qualquer aplicação, verificar a solidez das instituições envolvidas (emissor do título, administrador, gestor, custodiante) e pesquisar nos documentos correspondentes (Regulamento do Fundo, Prospecto da Oferta Pública etc.) qual o perfil de risco assumido. Por fim, seja no curto ou longo prazo, seus investimentos se destinam a financiar seus planos para o futuro e, consequentemente, terão que ser modificados ou adaptados, à medida que tanto os planos quanto o contexto (político, econômico etc.) forem mudando.
*Dicas da contabilista Johelma Umbelino