Batalha sobre rodas
Redação DM
Publicado em 21 de setembro de 2016 às 02:29 | Atualizado há 1 ano- A falta de uma cultura de bike na capital, aliada à falta de educação dos motoristas de carro, dificulta e muitas vezes até impossibilita o tráfego do ciclista
- Antropólogo defende que a consciência no trânsito e o respeito às leis devem ser prioridade também dos ciclistas, visto que são mais frágeis em comparação com os demais veículos de locomoção
A organização dos meios de transporte dentro das grandes cidades implica na funcionabilidade do espaço urbano, além de refletir em fatores econômicos e na qualidade de vida da população. Assim, se torna fundamental recorrer a alternativas de mobilidade urbana com o objetivo de desafogar o tráfego, promover a inclusão social e proporcionar maior agilidade na circulação de veículos. Tudo isso, de preferência, de modo ecologicamente sustentável.
Goiânia, frente à necessidade de melhorar o sistema de circulação de veículos, tem explorado alternativas de mobilidade. O exemplo mais expressivo é a adoção e construção de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas, que somam, atualmente, 80 km de extensão. E a população está, aos poucos, aderindo às bikes como meio de transporte.
Estudos da Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC) apontam que cerca de 4% da população de Goiânia e 6% da região metropolitana já utilizam a bicicleta como meio de locomoção.
Sabe-se que esses 10% da população que aderiu à bike consegue benefícios que vão muito além da atividade física. O uso frequente da bicicleta define músculos, melhora a frequência cardíaca, fortalece o sistema imunológico, além de reduzir os níveis de estresse.
Mas nem tudo são flores na realidade de quem opta por usar a bicicleta como meio de transporte em Goiânia. O perigo do relacionamento com os demais veículos, aliado à ausência de uma cultura de bike na capital goianiense, faz com que os ciclistas sejam apagados, ou mesmo inferiorizados na paisagem urbana.
O desafio da escolha pela bike
Wendel Reis, por exemplo, 39, designer gráfico, que anda cerca de 15 Km por dia de bicicleta, em entrevista à reportagem do Diário da Manhã, afirma que optar pela bike no trânsito de Goiânia é desafio bastante perigoso. “Os carros não respeitam os ciclistas, os motoristas nos veem, mas nos ignoram. Acham que temos que parar para que eles passem. Mas eu percebo que eles não agem assim por maldade, apenas não entendem que também temos direito de trafegar e pensam que estamos no lugar errado”, comenta.
O designer já sofreu três acidentes de trânsito ao trafegar de bike na cidade, sendo que em dois deles houve colisão, mas afirma perder as contas de quantas vezes já foi “quase” pego por algum automóvel. Mas mesmo com todo o perigo, Wendel não pretende abandonar sua “magrela”. “O dia começa com muito mais prazer quando uso a bicicleta, vento no rosto, endorfina, oxigenação corporal, exercício físico, enfim. Chego sorrindo ao trabalho e aos lugares, ao contrário de quando sofria as consequências do trânsito”, conclui.
Danilo de Almeida Campos Pimentel, 29, assistente de câmera e universitário de cinema é outro exemplo. Ele utilizou o transporte público por muitos anos na cidade, mas sentia que isso não fazia bem em diversos aspectos. Por isso, Danilo defende que sua opção pela bike é mais política do que econômica.
Ele normalmente anda 20 km de bicicleta por dia, mas em alguns dias a quilometragem chega a dobrar. “Eu vou para a faculdade sempre de bike. As ciclovias que estão nos canteiros entre as avenidas são ótimas. Dá para andar tranquilamente. Mas elas ainda são poucas. Jás que são integradas à mesma pavimentação das ruas, essas são fictícias, pois os motoristas de carro não respeitam e elas viram estacionamento ou uma segunda ou terceira via de carros”, desabafa.
Quando perguntado acerca da segurança de dividir as ruas com carros, Danilo é sucinto: não se sente nada seguro. “É mais perigoso pela falta de educação dos motoristas, que não deixa de ser um problema para a prefeitura resolver por meio de concretização, do que necessariamente falta de infraestrutura, que também deixa a desejar”, conclui.
Renato Silveira Costa, 27, cozinheiro, afirma que no mínimo três razões o levam a pedalar: saúde física integrada ao cotidiano de atividades da vida urbana, incluindo trabalho e lazer, economia e ecologia. Em geral, ele percorre diariamente o trajeto Centro-Itatiaia, o que dá uma média de 30 km por dia. Renato explica que raras vezes utiliza as ciclovias da cidade, tendo em vista que elas não estão nos trajetos que ele faz mais comumente.
Ele afirma se sentir seguro em transitar com os carros, pois esse é um hábito antigo que tem. “Mas eu não crio ilusão no que se refere a civilidade e educação dos motoristas. Acredito que é inevitável que se perceba a presença do ciclista, por estarmos mais altos e mais vulneráveis em relação aos automotores. O que nos coloca em boa situação é o zelo pelo “bem” móvel que em geral o motorista idolatra: o seu carro. No mais, estando prevista no código de trânsito, a bicicleta tem seu lugar na via e acredito que os ciclistas devem se impor”, defende.
Educação é a saída
Roberto DaMatta, antropólogo e escritor, em entrevista ao Diário da Manhã, observa que a questão da falta de educação e de respeito às leis de trânsito não se resume aos motoristas de carro, mas aos ciclistas também. Ele compara a malha urbana, que está sempre em movimento, a um palco, no qual diversos atores atuam diariamente. Entre os atores estão, além dos automóveis e motocicletas, os pedestres e ciclistas. “Esses últimos são os mais fracos e é curioso observar que eles também não obedecem as regras de trânsito”, comenta.
Para o antropólogo há uma correlação muito forte entre o tamanho, modelo e tipo de veículo, além do motorista, com seu nível social de consciência em relação ao trânsito, tendo em vista que a malha urbana, para ser um todo orgânico, precisa que todas as partes trabalhem harmoniosamente.
Consciência é a palavra de ordem para DaMatta, que sinaliza o fato de que a construção de ciclovias é recente na sociedade brasileira. “Estamos tomando, aos poucos, a consciência de que o espaço do ciclista é para o ciclista. Sabemos que os automóveis são os principais meios de locomoção da nossa sociedade, sendo que os pedestres e ciclistas acabam ficando em segundo plano. Prova disso é que as calçadas das grandes cidades, em geral, são estreitas para dar maior espaço para os automóveis”, explica.
Mas atualmente, o interesse dos gestores públicos tem sido em seguir o movimento contrário, de acordo com DaMatta, já que as grandes cidades estão investindo em aumentar o espaço de pedestres e ciclistas, para que eles possam transitar com segurança e para que a circulação de veículos seja feita de modo mais eficiente e rápido.
Entretanto, DaMatta salienta que não adianta construir ciclovias, passarelas e meios de locomoção alternativa se não houver, paralelamente, um trabalho de educação e conscientização da sociedade em relação à ocupação desses espaços. “Isso porque se não houver educação, as ciclovias vão acabar sendo invadidas por motos, automóveis ou qualquer outro meio de transporte que não seja a bicicleta. O fundamental, no meu ponto de vista, é criar a ‘consciência do outro’, de modo a originar uma sociedade na qual o espaço urbano seja compartilhado de modo igual por todos os cidadãos. Nossa sociedade precisa de uma ressocialização para uma cidadania que seja, de fato, igualitária. E isso se dá por meio da educação”, conclui ele.

Goiânia tem batalha, mas a guerra é em Lima
A vida do ciclista goianiense não é fácil, mas o problema de relacionamento entre os que pilotam sobre duas e quatro rodas não é exclusivo do Brasil.
Janayna Evellyn Guerra Santos, 29, historiadora, nasceu em Goiânia, mas atualmente vive em Lima, no Peru. Ela e o marido, que é peruano, optaram pela bicicleta como meio de transporte na cidade que vivem pelo fato de o trânsito ser extremamente intenso. “É tanto ônibus, tanto carro, tanta moto, que o trânsito não flui. Como o trânsito é parado, a bicicleta se torna um meio mais rápido de transporte. Isso sem contar que a gente perde muito tempo no trânsito, além de ser muito estressante”, explica ela.
Janayna conta à reportagem que faz de 12 a 14 km por dia, dependendo do trajeto escolhido por ela. Ela explica que existem ciclovias em grande parte da cidade, mas que elas se concentram nos bairros mais turísticos e não abrangem toda a extensão dos bairros. “No meu bairro, que é bastante voltado para a ecologia, nos lugares que não têm ciclovia há uma via preferencial para ciclistas, onde há um triângulo amarelo desenhado no chão com a imagem de uma bicicleta, o que eu acho bem bacana”, conta.
A historiadora explica também que há um sistema de aluguel de bikes em alguns bairros. “Na identidade tem o endereço das pessoas. Daí é feito um cadastro, e os moradores dos bairros que disponibilizam esse sistema podem pegar as bicicletas em uma estação e devolver em uma outra estação”, revela ela.
Caos
Entretanto, apesar da quantidade grande de ciclovias, a relação entre motoristas de carros e ciclistas não é das melhores. “Mesmo que tenha o espaço destinado para os ciclistas, o pessoal aqui não respeita sinal, faixa de pedestre, muito menos ciclovia. Só as que têm uma mureta de proteção que são respeitadas. O próprio pedestre não respeita a ciclovia, pois muitos caminham nelas”.
Ela observa que em Goiânia, apesar das reclamações a respeito do trânsito, a situação é melhor do que em Lima, os brasileiros, segundo ela, são mais civilizados. “Eu não era ciclista quando morava em Goiânia, e nem tinha ciclovias na cidade, mas a discrepância do trânsito das duas cidades é grande. O fluxo daqui é muito intenso e os motoristas pouco civilizados. Andam sem cinto, não respeitam a sinalização, andam mexendo no celular, e aqui não tem fiscalização de trânsito igual no Brasil, não tem blitz, nem multas. Acho que isso incentiva o desrespeito às normas de trânsito”, avalia Janayna.
O marido de Janayna, Giancarlo Diaz, acredita que não há uma cultura dos cidadãos peruanos em relação ao ciclista. “As pessoas não estão acostumadas com o ciclista transitando na via. Isso é um problema grande. Existem diversas iniciativas do governo para resolver isso, mas a cidade foi desenhada mais para os carros do que para os transportes alternativos, como a bike”, explica ele.
Por conta dessa ausência de cultura, somada ao caos do trânsito, Janayna declara que não se sente nada segura ao sair de casa todos os dias com sua “magrela”, mas que procura obedecer as regras, o que mesmo os ciclistas e pedestres não fazem. “Eu não gosto de andar na calçada, pois é o espaço do pedestre, né. Inclusive nem todo ciclista aqui é civilizado, tem uns que andam correndo na calçada também. Eu procuro ser bem certinha, tenho capacete, luzes de sinalização na bicicleta, quando não tem ciclovia, eu ando na rua, na mão certa. E eu vou rezando, sabe, pra que não aconteça nada comigo, porque é bem perigoso”, confessa.
O fundamental é criar a ‘consciência do outro’, de modo a originar uma sociedade na qual o espaço urbano seja compartilhado de modo igual por todos os cidadãos”
Roberto DaMatta, antropólogo
Nossa sociedade precisa de uma ressocialização para uma cidadania que seja, de fato, igualitária. E isso se dá por meio da educação”
